
Cel. Veterano Carlos Furtado
À medida que os anos passam, vão partindo para o paraíso amigos que participaram efetivamente da minha juventude e dos anos que se seguiram, sobretudo daqueles tempos em que eu vivia o vigor pleno da vida, ainda sem a companhia das comorbidades e dos problemas de saúde que, pouco a pouco, se avolumam e, em circunstâncias frequentes, atormentam este corpo calejado pelo peso dos anos.
Recordo-me daqueles maravilhosos dias em que, no frenesi da rotina, despertava ainda muito cedo. Após a higiene corporal, tomava sozinho o café da manhã, enquanto os familiares ainda desfrutavam dos últimos instantes do repouso noturno. Aproximava-me silenciosamente dos leitos, beijava minha esposa e meus filhos, e seguia para o quartel, onde iniciariam as batalhas do cotidiano.
Cada missão era diferente da outra. Cada dia possuía suas próprias particularidades, especialmente nas ruas, nos logradouros ou até em cidades distintas deste Maranhão imenso, onde as operações eram marcadas pela adrenalina e pelo senso de responsabilidade. Quantas vezes sequer havia tempo de retornar para casa e despedir-me da família; o tempo era precioso, a rapidez indispensável. Estávamos sempre em busca de preservar vidas, restabelecer a ordem e atender aqueles que mais necessitavam, nos mais diversos rincões do Estado, enfrentando sol escaldante, chuvas torrenciais e as mais variadas adversidades.
Quantas e quantas vezes, em inferioridade numérica, em condições desiguais de armamento, sem alimentação adequada e sem os equipamentos necessários, enfrentamos o crime e a violência com coragem e determinação. Ao nosso lado estavam companheiros e irmãos de farda, unidos pelo juramento solene que fizemos: cumprir a missão, ainda que com o sacrifício da própria vida.
E, ao regressarmos do serviço, no convívio dos alojamentos, nas peladas após a educação física, nas reuniões improvisadas ou nos corredores dos quartéis, conversávamos sobre as ocorrências e as atividades desempenhadas nas ruas. Falávamos das ações exitosas, das dificuldades enfrentadas, das vitórias conquistadas e dos resultados apresentados à sociedade pelos comandos e pelos governos como frutos de suas políticas públicas. Para nós, entretanto, pouco importavam os holofotes ou os créditos. O verdadeiro troféu era o sentimento do dever cumprido.
Em casa, o aconchego da família representava a maior recompensa. Para o policial militar e para o bombeiro militar, a família sempre foi o bem mais precioso e a principal razão pela qual saíamos diariamente às ruas. Existia a convicção de que, em qualquer lugar, sempre haveria alguém necessitando de nossos serviços, independentemente — e lamentavelmente — de alguns poucos integrantes das corporações optarem por agir em desacordo com os regulamentos e os princípios que norteiam nossas instituições.
Hoje, na reserva, desfrutando do aconchego do lar, desperto ao lado da esposa que, durante toda a noite, repousou aninhada junto a mim. De vez em quando, ainda caminho até os quartos dos filhos que permanecem em nossa casa. Já não acordo ao som estridente do despertador, mas guiado pelo relógio biológico moldado ao longo de décadas de serviço.
Então me ponho a refletir sobre o tempo passado — aquele mesmo tempo do qual, em certas ocasiões, cheguei a reclamar pelas ausências familiares, pelas precárias condições de trabalho, pela alimentação improvisada e pelos sacrifícios impostos pela profissão. Meus olhos se enchem de lágrimas ao recordar os amigos, os irmãos de caserna, os companheiros que jamais nos abandonavam diante das adversidades; aqueles que choravam conosco pela perda de um colega, sorriam pelas vitórias alcançadas e também reclamavam das injustiças, das falhas e da falta de reconhecimento.
Hoje vejo os ciclos se repetirem. Os comandados de agora fazem o que outrora fazíamos. As corporações seguem evoluindo, a população cresce, os problemas se multiplicam e os desafios se renovam.
E eu, com a serenidade de quem carrega a sensação do dever cumprido, vou velando companheiros que foram chamados antes de nós ao Reino Celestial, enquanto desfruto da convivência familiar e alimento, no íntimo da alma, a saudade dos bons tempos vividos.
Muitas vezes já me perguntaram: “Se pudesse voltar no tempo e decidir novamente, o que faria?”
E eu, sem pestanejar, respondo com absoluta convicção:
— Faria tudo de novo.
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