
Editoria-Geral da Plataforma Nacional do Facetubes
O cinema mundial está à todo vapor com os últimos dois lançamentos: Michael, o filme e “O Diabo Veste Prada II”. Sessões lotadas. Mas, há algo que precisa ser notado também porque o cinema brasileiro entra forte nessa lista e acaba de recolocar Carolina Maria de Jesus no centro de uma circulação internacional que a literatura já havia aberto há mais de seis décadas.
O longa Carolina Maria de Jesus, dirigido por Jeferson De, recebeu o A.H. Media Production Award, no valor de 10 mil euros, dentro do Goes to Cannes 2026, programa do Marché du Film voltado a obras em desenvolvimento e pós-produção. Vale aqui um adendo: trata-se de uma premiação no mercado de Cannes, ligado ao festival, e não de prêmio da competição oficial pela Palma de Ouro.
Ainda em fase de finalização, o filme foi apresentado pelo Festival do Rio no Goes to Cannes e passou pela vitrine internacional destinada a aproximar projetos de produtores, distribuidores, agentes de venda e programadores de festivais. O reconhecimento amplia a expectativa em torno da obra e confirma o interesse estrangeiro por uma personagem que transformou o diário pessoal em documento literário, social e político do Brasil.
Carolina Maria de Jesus não entrou para a literatura pela porta detrás, entrou pela porta da frente. Na Favela do Canindé, em São Paulo, registrou em cadernos o cotidiano da fome, do trabalho como catadora de papel, da maternidade, do preconceito e da exclusão. Esses registros deram origem a Quarto de Despejo, publicado em 1960, obra que projetou sua voz no Brasil e fora dele. O Instituto Moreira Salles registra Carolina como uma escritora cuja trajetória ultrapassou o documento social e se firmou como produção literária de grande alcance.
A força de Quarto de Despejo está justamente na recusa do ‘fatídico forçado’ porque Carolina escrevia a partir de uma experiência que o país preferia não ver. Sua literatura fez da fome uma palavra concreta, não metáfora. Fez da favela um lugar de pensamento, não apenas de carência. Fez da mulher negra, pobre e trabalhadora uma autora, no sentido mais rigoroso do termo, porque quem escreve com consciência da própria dor também interpreta uma época.
No filme, Maria Gal interpreta Carolina e assina a produção, ao lado de Clélia Bessa. Segundo informações publicadas pela imprensa especializada, o longa tem roteiro de Maíra Oliveira, produção da Move Maria, Raccord Produções e Buda Filmes, coprodução da Globo Filmes e distribuição da Elo Studios.
Voltando ao prêmio, o júri destacou o protagonismo feminino e negro da produção e a presença de Maria Gal na construção da personagem. O prêmio em Cannes, ainda que dentro do Marché du Film, tem valor. Carolina Maria de Jesus foi muitas vezes lida como exceção, quando na verdade revelou uma estrutura
A escolha de Jeferson De para dirigir a obra também tem coerência com o tema. Sua filmografia e sua atuação pública sempre estiveram próximas do debate sobre representação, presença negra e disputa de imaginário no audiovisual brasileiro. Em Carolina, esse debate encontra uma figura que não precisa ser inventada para parecer grande. Basta ser compreendida em sua dimensão real.
Mín. 11° Máx. 18°