
Editoria Geral da Plataforma Nacional do Facetubes
Foto: em 2020 o jornalista Mhario Lincoln foi a cidade de Santos (SP), empossar Francisco Elíude, na seccional da Academia Poética Brasileira/SP. E qual não foi a surpresa: Elíude preferiu receber o Diploma APB/SP de forma mais simples possível num local onde ele era "habitué". Uma banca de revista (também sebo) em que vendia seus livros. Um fato magnífico, sem dúvida. Francisco Elíude faleceu alguns anos após esse encontro.
Durante boa parte do século XX, a banca de revista foi uma pequena escola pública da cidade brasileira. Não tinha matrícula, professor, quadro ou diploma, mas ensinava pelo contato direto com jornais, revistas, gibis, fascículos, coleções populares e capas que condensavam o país de cada época. Em avenidas, praças, terminais e esquinas, ela oferecia ao leitor comum uma forma simples de aproximação com a palavra impressa. Bastava parar, olhar, folhear e escolher.
A crise desse modelo não começou de repente. A digitalização da informação, a mudança no hábito de leitura e a queda na circulação de jornais e revistas impressos reduziram a força econômica das bancas. Levantamentos com base em dados do Instituto Verificador de Comunicação-IVC registraram retrações relevantes na circulação impressa em diferentes períodos. Em São Paulo, por exemplo, houve redução significativa no número de bancas de revistas e jornais.
Ainda assim, a banca não desapareceu como símbolo. Ela guarda uma função que o ambiente digital nem sempre substituirá porque a banca apresenta uma diversidade de assuntos no mesmo plano visual. Política, futebol, moda, literatura, quadrinhos, horóscopo, palavras cruzadas, religião, cinema e cultura popular conviviam no mesmo balcão. São poucas hoje em dia, mas são vitrines de contrastes, uma espécie de retrato imediato da cidade.
Por isso, escritores e intelectuais perceberam nas publicações impressas mais do que um comércio. Affonso Romano de Sant’Anna, poeta, cronista e ex-presidente da Fundação Biblioteca Nacional, idealizou a revista Poesia Sempre, publicação que a própria Biblioteca Nacional apresenta como espaço de poesia, ensaios, entrevistas, contos, dossiês e artes plásticas. A revista ajudou a manter a poesia em circulação num país em que o gênero raramente ocupa o centro do mercado editorial. E era distribuída em bancas.
Portanto, há um forte movimento para a reinvenção prática das bancas a fim de comprovar que o fim do modelo antigo não precisa ser a mesma coisa que o fim do espaço. Em Itapetininga, no interior paulista, o projeto Viaje com os Livros, criado por Maria Gabriela Moura em 2016, nasceu como sebo itinerante e depois ganhou banca fixa, com venda, troca e doação de exemplares.
Em São Paulo, a Banca Tatuí tornou-se outro exemplo dessa passagem da banca tradicional para o ponto cultural. Criada pela editora Lote 42, reúne publicações de editoras, coletivos e artistas independentes de várias regiões do Brasil, demonstrando que o formato físico ainda pode ter força quando há curadoria, identidade e relação com a rua.
O que está em jogo, portanto, não é apenas a venda de jornal ou revista. É a ratificação de um lugar urbano de encontro entre leitor, palavra e cidade. As bancas foram uma forma de democratização da leitura porque permitiam o acesso barato, rápido e descomplicado ao impresso. Muitos leitores começaram por um gibi, uma revista de esporte, uma coleção de bolso ou uma manchete vista ao acaso.
Enfim, a banca de revista brasileira vive hoje entre a perda e a adaptação. Já não ocupa o mesmo centro da vida informativa, mas continua carregando uma memória difícil de apagar. Quando se transforma em sebo, livraria de rua, ponto de encontro, café cultural ou espaço de publicações independentes, ela deixa de ser apenas sobrevivente. Passa a ser uma resposta da cidade contra o desaparecimento da experiência material da leitura.
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