
*Mhario Lincoln
Entre Santo Agostinho, Heidegger, Ricoeur e os poetas, a angústia do tempo nasce da impossibilidade de prender o presente, recuperar o passado e possuir a verdade inteira sobre nós mesmos. (Mhario Lincoln).
O livro “E o tempo larga o relógio/ a galope por seus prados”, de Lourival Serejo, autor premiado na Itália, publicado pela 7Letras em 2022, recoloca a poesia diante de uma pergunta antiga e sem repouso: o que o tempo faz conosco quando deixa de ser apenas medida e passa a ser experiência interior?
A própria apresentação editorial da obra registra que o tempo aparece como inquietação maior do poeta, numa escrita que pretende envolver e incomodar o leitor. Essa chave de leitura aproxima Lourival Serejo de uma tradição filosófica que vem de Santo Agostinho.
No Livro XI das Confissões, Agostinho pergunta o que é o tempo e confessa a dificuldade de explicá-lo. Sua frase mais conhecida não indica ignorância vulgar, mas lucidez diante de um enigma. Quando ninguém pergunta, todos parecem saber o que é o tempo; quando a razão tenta defini-lo, a certeza se desfaz.
Para Agostinho, o passado já não existe, o futuro ainda não chegou e o presente, se permanecesse sempre presente, deixaria de ser tempo e seria eternidade. O tempo existe, portanto, como passagem, perda, expectativa e memória.
"O que é o tempo? Se ninguém me pergunta, eu sei; mas se quiser explicar a quem indaga, já não sei." (Agostinho).
É nesse ponto que o título de Lourival Serejo ganha força filosófica. Quando “o tempo larga o relógio”, ele abandona a contagem mecânica das horas e entra no território da consciência.
Desta forma, fica claro na obra do poeta Serejo que a poesia passa a funcionar pela angústia temporal. E essa nasce quando o poeta percebe que não está pronto em seu pressuposto sentimental. E nessa configuração dialética, inevitavelmente, Serejo me lembra Jean-paul Sartre, cuja angústia lírica vem do fato de que não há desculpa última para nossas escolhas: somos responsáveis pelo que fazemos de nós.
Vê-se claramente que Serejo não foge do vazio; ele o observa até que o vazio ganhe forma. É aí que a poesia dele transforma dúvida em imagem, finitude em ritmo, medo em pensamento.
Destarte, com base nessas similitudes e em rápida folheada na obra “E o tempo larga o relógio a galope por seus prados”, observei que há uma península que se destaca alma adentro e merece citação: “Dentro do meu labirinto/ às vezes me perco/ e quando me encontro/ é uma decepção”. Tais versos dialogam diretamente com essa angústia. De forma direta ou indiretamente.
Lá no fundo, além de Agostinho, os poemas também cheiram Martin Heidegger, em Ser e Tempo, quando insinuam se deslocar a questão existencial para discutir a finitude, obrigando o poeta a encarar quem é e o que faz do próprio tempo.
Mutatis Mutandi, vale analisar, ainda que a angústia poética acidentada pelo tempo, não é insight sentimental. Por essa razão que Paul Ricoeur, ao reler Agostinho, acrescenta outro ponto decisivo: a narrativa tenta dar forma ao tempo. Ou seja, forte tensão entre distensão e intenção, entre a alma que se dispersa no tempo e a necessidade lírica de reunir essa experiência por meio do verso.
É isso que a poesia de Lourival Serejo parece buscar, a priori: não resolver o tempo, mas enfrentá-lo com linguagem, a fim de tentar domesticar a angústia, qualificando essa obra com uma maturidade epifânica não porque ofereça respostas definitivas, mas porque aceita a complexidade da pergunta.
Eu aplaudo essa obra porque me fez enxergar uma poética, quase filosófica sem um sistema temporizador. Aí está a mágica de Serejo: colocar o tempo fora do relógio e dentro dos prados da linguagem, para aproximar o leitor da mesma inquietação de Agostinho, quando dá-me a entender, numa verdade das mais duras: o tempo só se deixa perceber quando já começou a nos escapar.
Mhario Lincoln é presidente da Academia Poética Brasileira (Curitiba-PARANÁ).
Mín. 13° Máx. 20°