
Em tempo: na visita que ora faz à seccional da Academia Poética no Rio Grande do Norte, o poeta e presidente da Academia Poética Brasileira, jornalista Mhario Lincoln foi levado pela professora, poeta e escritora Socorro Guterres (vice-presidente regional da APB/RGN) até a Praia do "Cotovelo", para conhecer a famosa escada de literatos potiguares, dentre eles, o grandioso Câmara Cascudo.
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Prof. Socorro Guterres
"Todos nós saímos de O Capote de Gógol", teria dito Dostoiévski, em reverência a Nikolai Gógol, pai do Realismo, que juntamente com Aleksandr Púchkin é considerado fundador da moderna literatura russa. Púchkin abandonou a forte imitacão de estilos europeus ocidentais e Gógol mudou o foco literário de sua época, início do século XIX, conferindo protagonismo às classes marginalizadas e aos trabalhadores comuns, com um olhar para a burocracia, a miséria e os contrassensos cotidianos.
Gógol nasceu em 1° de abril de 1809, numa região da Ucrânia (que na época pertencia ao Império Russo) e seus textos abordam tanto a região rural das províncias ucranianas quanto a cidade russa de São Petersburgo, na qual ele foi residir a partir dos vinte anos de idade e onde produziu suas obras mais famosas, dentre elas, O Capote . Essa novela, ou conto, encontra-se disposta em volume único juntamente com mais quatro narrativas curtas, escritas entre 1832 e 1842. O cenário é a cidade de São Petersburgo erguida em meio de pântanos por Pedro O
Grande, que a construiu como "uma janela para o ocidente", o que, num aparte, contrasta com o atual momento de ruptura, devido ao conflito com a Ucrânia. Pedro I da Rússia procurou edificar São Petersburgo de acordo com a modernidade que observara em viagem realizada anonimamente com a sua comitiva pelas cidades europeias: marinhas, técnicas navais, ferrovias, ciências, bem como as searas políticas. Desse modo, o soberano colocou conceitos de meritocracia na Rússia, com tabelas de patentes sociais que eram enumeradas, permitindo que nobres e não nobres pudessem disputá-las.
A burocracia era o modo como o czar se sustentava no poder, através da hierarquia. Nesse ponto é que encontramos o personagem principal de O Capote , Akáki Akákievitch, triste herói da trama, a quem Gógol de modo satírico atribui a função de "conselheiro titular", que numa escala de 1 a 14, alcançava a nona posição, podendo parecer um patamar alto, mas na verdade expõe um personagem de meia-idade, pobre, solitário, míope, pequeno, calvo, com a função de copista no funcionalismo público, ou seja, o simples encargo de copiar documentos, na repetição exaustiva de amanuense, mas que, em sua modéstia, lhe proporcionava prazer.
Akáki Akákievitch já traz no nome uma certa hesitação, ou um gaguejar, que nos transmite uma insegurança do personagem, constantemente vítima de zombaria dos próprios colegas de repartição, devido a timidez e a dedicação exclusiva ao trabalho; bem como pelo capote velho e remendado que usava. Akáki Akákievitch era humilde e não tinha dinheiro para comprar um novo sobretudo, cuja quantia lhe parecia inatingível. Assim, Gógol expõe uma crítica de como pode ser cruel a vida baseada no mundo das aparências. Ademais, no inverno rigoroso de São Petersburgo um casaco apropriado torna-se algo por demais precioso. Chega o momento em que o capote já não suporta remendos de tão roto e não é mais capaz de aquecê-lo. Akáki Akákievitch se vê então obrigado por meio de privações extremas a economizar para conseguir o valor necessário para um novo casaco. Encomenda-o ao alfaiate Petrovitch e submete-se à penúria:
"Verdade seja dita ; a princípio lhe foi um tanto difícil acostumar-se a essas restrições , mas depois acabou se habituando e a coisa pareceu dar certo ; aprendeu inclusive a não comer nada à noite , mas em compensação alimentava-se espiritualmente , nutrindo sua eterna ideia de um futuro capote " (GÓGOL, 2025, p. 22).
Quando finalmente Akáki Akákievitch adquire e veste seu novo casaco vivencia um momento de felicidade, e ao se apresentar no local de trabalho é notado pelos colegas, que desejam festejar essa mudança; quando então ocorrerá uma tragédia, pois após sair da comemoração Akáki Akákievitch tem o seu capote roubado. Recorre às autoridades e até mesmo a um "figurão". Contudo, sua presença simplória sob um capote velho e remendado é rechaçada, revelando a negligência que permeia os cargos de alto poder. Na agonia da perda e das privações.
Entretanto, há uma grande reviravolta na narrativa: o personagem tímido e inseguro retorna como um fantasma vingativo, violento, corajoso e agressivo que aterroriza São Petersburgo, roubando os casacos dos ricos e burocratas; cujo clímax se dá ao encontrar o "figurão", que o humilhara em vida: é o modo como Gógol dá voz e poder aos marginalizados e ignorados pela sociedade. Na verdade, o fantasma é um duplo de Akáki Akákievitch na alegoria de Gógol que aproxima a realidade e o imaginário. A invisibilidade de Akáki Akákievitch em vida é transformada psicológica e socialmente pelo capote novo, permitindo-lhe uma identidade humana, que logo em seguida é roubada transformando-o em fantasma. Nesse aspecto podemos aproximar a narrativa de Gógol com Kakfa, em A Metamorfose , pois o personagem Gregor Samsa do famoso texto kafkaniano é também esmagado pela sociedade e acorda transformado em inseto. Assim, podemos aproximar a sátira de Gógol à parábola absurda de Kafka.
Também podemos apresentar semelhanças entre o protagonista de Gógol e o Brás Cubas, do nosso Machado de Assis, em suas Memórias Póstumas, no que diz respeito às engrenagens sociais e às identidades de ambos estarem fortemente ligadas às aparências.
Voltando ao capote novo que momentaneamente acompanhou Akáki Akákievitch, vemos que não era apenas um sobretudo, mas um companheiro de vida. Para o crítico literário Otto Maria Carpeaux: "É só um conto, essa pequena tragédia burlesca do pequeno funcionário Akáki Akákievitch. Mas esse pequeno conto é a obra-prima da grande literatura russa".
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Referências:
GÓGOL, Nikolai. O capote e outras histórias . Tradução de Paulo Bezerra. São Paulo: Editora 34, 2025.
CARPEAUX, Otto Maria.
História da literatura ocidental_ . Brasília: Senado Federal, Conselho Editorial, 2008.
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