Quinta, 11 de Junho de 2026
13°C 20°C
Curitiba, PR
Publicidade

“O Capote de Gógol”. Mais um texto inédito da colunista Socorro Guterres.

Socorro Guterres é convidada da Plataforma Nacional do Facetubes e imortal da Academia Poética Brasileira, seccional RGN.

05/06/2026 às 16h35 Atualizada em 06/06/2026 às 10h08
Por: Mhario Lincoln Fonte: Socorro Guterres
Compartilhe:
No RGN, na Praia do Cotovelos, a famosa escada de literatos norteriograndenses.
No RGN, na Praia do Cotovelos, a famosa escada de literatos norteriograndenses.

Em tempo: na visita que ora faz à seccional da Academia Poética no Rio Grande do Norte, o poeta e presidente da Academia Poética Brasileira, jornalista Mhario Lincoln foi levado pela professora, poeta e escritora Socorro Guterres (vice-presidente regional da APB/RGN)  até a Praia do "Cotovelo", para conhecer a famosa escada de literatos potiguares, dentre eles, o grandioso Câmara Cascudo.

*****

Prof. Socorro Guterres

Continua após a publicidade

"Todos  nós saímos de O Capote de Gógol", teria dito Dostoiévski,  em reverência a Nikolai Gógol, pai do Realismo, que juntamente com Aleksandr Púchkin  é considerado fundador da moderna literatura russa. Púchkin  abandonou a forte imitacão de estilos europeus ocidentais e Gógol  mudou o foco literário de sua época, início do século XIX, conferindo protagonismo às classes marginalizadas e aos trabalhadores comuns, com um olhar para a burocracia, a miséria e os contrassensos cotidianos.

Gógol nasceu em 1° de abril de 1809, numa região da Ucrânia (que na época pertencia ao Império Russo) e seus textos abordam tanto a região rural das províncias ucranianas quanto  a cidade russa de São Petersburgo, na qual  ele foi residir a partir dos vinte anos de idade e onde produziu suas obras mais famosas, dentre elas, O Capote . Essa novela, ou conto, encontra-se disposta  em volume único juntamente com mais quatro narrativas curtas, escritas entre 1832 e 1842. O cenário é a  cidade de São Petersburgo erguida em meio de pântanos por Pedro O

Grande, que a construiu como "uma janela para o ocidente", o que, num aparte, contrasta com o atual momento de ruptura,  devido ao conflito com a Ucrânia. Pedro I da Rússia  procurou  edificar São Petersburgo de acordo com a modernidade que observara em viagem realizada anonimamente com a sua comitiva pelas cidades europeias: marinhas, técnicas navais, ferrovias, ciências, bem como as searas  políticas. Desse modo, o soberano colocou conceitos de meritocracia na Rússia, com tabelas de patentes sociais que eram enumeradas, permitindo que nobres e não nobres pudessem disputá-las.

A burocracia  era o modo como o czar  se sustentava no poder, através da hierarquia. Nesse ponto é que encontramos o personagem principal de O Capote ,  Akáki Akákievitch,  triste herói da trama, a  quem Gógol de modo satírico atribui a função  de "conselheiro titular",  que numa escala de 1 a 14, alcançava a nona posição, podendo parecer um patamar alto,  mas na verdade  expõe um  personagem  de meia-idade, pobre, solitário, míope, pequeno, calvo, com  a função  de copista no funcionalismo público, ou seja, o simples encargo de copiar documentos, na repetição exaustiva de amanuense, mas que, em sua modéstia, lhe proporcionava  prazer.

Prof. Dra. Socorro Guterres.

Akáki Akákievitch  já traz no nome uma certa hesitação, ou um gaguejar,  que  nos transmite uma insegurança do personagem, constantemente vítima de zombaria dos próprios colegas de repartição, devido  a  timidez e a dedicação exclusiva ao trabalho; bem como pelo capote velho e remendado que usava.  Akáki Akákievitch era humilde e não tinha dinheiro para comprar um novo sobretudo, cuja quantia lhe parecia inatingível. Assim, Gógol expõe uma crítica de como pode ser  cruel a vida baseada no mundo das aparências. Ademais, no inverno rigoroso de São Petersburgo um casaco apropriado torna-se algo por demais precioso. Chega o momento em  que o capote  já não suporta remendos de tão roto e  não é mais capaz de aquecê-lo. Akáki Akákievitch se vê então obrigado por meio de privações extremas  a economizar para conseguir o valor necessário para um novo casaco. Encomenda-o ao alfaiate Petrovitch e submete-se à penúria:

          "Verdade seja dita ; a princípio lhe foi um tanto difícil acostumar-se a essas restrições , mas depois acabou se habituando e a coisa pareceu dar certo ; aprendeu inclusive a não comer nada à noite , mas em compensação alimentava-se espiritualmente , nutrindo sua eterna ideia  de um futuro capote " (GÓGOL, 2025, p. 22).

Continua após a publicidade

     

Quando finalmente Akáki Akákievitch adquire e veste seu novo casaco  vivencia um momento de felicidade, e ao se apresentar no local de trabalho é notado pelos colegas, que desejam festejar essa mudança; quando então ocorrerá uma tragédia, pois após sair da comemoração Akáki Akákievitch tem o seu capote roubado. Recorre às autoridades e até mesmo a um "figurão". Contudo, sua presença simplória sob um capote velho e remendado é rechaçada, revelando a negligência que permeia os cargos de alto poder. Na agonia da perda e das privações.

Entretanto, há uma grande reviravolta na narrativa: o personagem tímido e inseguro retorna como um fantasma  vingativo, violento, corajoso e agressivo que aterroriza São Petersburgo, roubando os casacos dos ricos e burocratas; cujo clímax se dá ao encontrar o "figurão", que o humilhara em vida: é o modo como Gógol dá voz e poder aos marginalizados e ignorados pela sociedade. Na verdade, o fantasma é um duplo de Akáki Akákievitch  na alegoria de Gógol que aproxima a realidade e o imaginário. A invisibilidade de Akáki Akákievitch em vida  é transformada psicológica e socialmente pelo capote novo, permitindo-lhe uma identidade humana, que  logo em seguida é roubada transformando-o em fantasma. Nesse aspecto podemos aproximar a narrativa de Gógol com Kakfa, em A Metamorfose , pois o personagem Gregor Samsa do famoso texto kafkaniano é também esmagado pela sociedade e acorda transformado em inseto. Assim, podemos aproximar a sátira  de Gógol à parábola absurda de Kafka.

Também podemos apresentar semelhanças entre o protagonista de Gógol e o Brás Cubas, do nosso Machado de Assis,  em suas Memórias Póstumas, no que diz respeito às engrenagens sociais e às identidades de ambos estarem fortemente ligadas às aparências.

Voltando ao capote novo que momentaneamente acompanhou  Akáki Akákievitch, vemos que não era apenas um sobretudo, mas um companheiro de vida. Para o crítico literário Otto Maria  Carpeaux: "É só um conto, essa pequena tragédia burlesca do pequeno funcionário Akáki  Akákievitch. Mas esse pequeno conto é a obra-prima da grande literatura russa". 

*****

Continua após a publicidade


Referências:
GÓGOL, Nikolai. O capote e outras histórias . Tradução de Paulo Bezerra. São Paulo: Editora 34, 2025.

CARPEAUX, Otto Maria.
 História da literatura ocidental_ .  Brasília: Senado Federal, Conselho Editorial, 2008.

* O conteúdo de cada comentário é de responsabilidade de quem realizá-lo. Nos reservamos ao direito de reprovar ou eliminar comentários em desacordo com o propósito do site ou que contenham palavras ofensivas.
500 caracteres restantes.
Comentar
Keila MartaHá 6 dias São LuísO Realismo russo tem dessas transformações em detrimento de problemas financeiros, mediocridades humanas. Esses problemas acontecem porque para um russo do século XX, é quase inaceitável a decadência humana. Assim tudo é visto de forma muito deprimente, imagina só alguém suportar os dias frios de São Petersburgo com um casaco apenas.
Mostrar mais comentários
Escritora Keila Marta, da APB, escreve ensaio sobre o livro “Úrsula”, de Maria Firmina dos Reis
Mais de 1500 views Há 9 horas Em Brasil

Escritora Keila Marta, da APB, escreve ensaio sobre o livro “Úrsula”, de Maria Firmina dos Reis

“O romance Úrsula, demonstra a grandiosidade como uma obra precursora quando diz respeito ao conteúdo abolicionista”.
BOMBÍSSIMA: quando o autor se torna refém do próprio ego, o texto começa a perder verdade
COMPORTAMENTO Há 9 horas Em Brasil

BOMBÍSSIMA: quando o autor se torna refém do próprio ego, o texto começa a perder verdade

Excesso de confiança, comparação destrutiva, desprezo pela pesquisa e invenção de fatos corroem a qualidade literária, jornalística e intelectual de qualquer obra.
Quando a pesquisa entra na Casa de Antônio Lobo, a literatura maranhense deixa de ser memória guardada e volta a ser debate vivo
Encontro na AML Há 9 horas Em Brasil

Quando a pesquisa entra na Casa de Antônio Lobo, a literatura maranhense deixa de ser memória guardada e volta a ser debate vivo

A aproximação entre GELMA e AML afirma uma agenda rara de estudo, reedição, debate e devolução de autores maranhenses ao circuito crítico brasileiro.
Quando a Copa começa pelo tropeço: livros reabrem a pior estreia do Brasil e os fiascos modernos das aberturas
OS LIVROS DA COPA Há 9 horas Em Brasil

Quando a Copa começa pelo tropeço: livros reabrem a pior estreia do Brasil e os fiascos modernos das aberturas

Base factual consultada: a CBF registra a derrota brasileira por 3 a 1 para a Espanha em 1934 e a eliminação no jogo de estreia; a RFEF descreve o domínio espanhol no primeiro tempo; a FIFA registra a vitória do Equador sobre o Catar em 2022 como a primeira derrota de um anfitrião no jogo inaugural; a Simon & Schuster e o WorldCat apresentam The Ugly Game como investigação sobre a escolha do Catar; a Springer/Palgrave apresenta Qatar and the 2022 FIFA World Cup como estudo acadêmico sobre política e controvérsias do torneio; e editoras/catálogos internacionais registram as obras de Cris Freddi, Brian Glanville, David Goldblatt e Alex Bellos como referências sobre história das Copas e do futebol.
Curitiba, PR
17°
Parcialmente nublado

Mín. 13° Máx. 20°

17° Sensação
0.89km/h Vento
83% Umidade
100% (4.7mm) Chance de chuva
06h59 Nascer do sol
05h34 Pôr do sol
Sex 19° 11°
Sáb 17°
Dom 15°
Seg 12° 11°
Ter 18° 10°
Atualizado às 16h01
Publicidade
Publicidade
Economia
Dólar
R$ 5,10 -1,66%
Euro
R$ 5,90 -1,29%
Peso Argentino
R$ 0,00 -2,94%
Bitcoin
R$ 342,955,23 +3,15%
Ibovespa
171,497,22 pts 1.71%
Publicidade
Publicidade
Publicidade
Publicidade
Lenium - Criar site de notícias