José Neres
De modo bastante frio e técnico, um livro pode ser conceituado como um objeto composto por determinado número de páginas que, após impressas, são encadernadas e comercializadas ou ofertadas a alguém, sendo que em nosso momento atual, nem mesmo há mais a necessidade de imprimir e encadernar um trabalho para ele ser considerado um livro, pois estamos na era dos chamados E-books.
No entanto, mais que um objeto, físico ou virtual, um livro pode ser visto como um repositório de histórias, de momentos e de sonhos. E não estamos falando aqui das inúmeras narrativas criadas pelas pessoas com habilidade para a ficção, ou dos versos elaborados pelos poetas, nem dos diálogos minuciosamente trabalhados pelos teatrólogos, ou mesmo das páginas técnicas e/ou teóricas, quase sempre dirigidas a um público específico…
Não, não é isso. Falamos aqui daquelas histórias que se escondem por detrás das páginas dos livros e raramente chegam aos olhos e aos ouvidos dos leitores. Todo livro é resultado de um sonho, de um longo diálogo com tantas vozes que ecoam na mente dos escritores, mas que nem sempre conseguem se materializar em palavras escritas.
Por exemplo, em 1983, portanto há quarenta anos, uma jovem com pouco mais de duas décadas de vida, nascida em São Luís do Maranhão, que acabara de iniciar seus estudos em Filosofia na Universidade Federal do Maranhão, curso este que, após alguns momentos de trancamento, foi retomado em 1998, resolveu realizar o sonho de trazer à luz um livro… um livro com poemas.
Há exatamente quatro décadas, a hoje mestra, doutora, pós-doutora e professora da UFMA, Rita de Cássia Oliveira publicava seu livro (Re)Nascer Mulher, que, como o próprio título já indica, é centrado em um olhar voltado para o universo feminino. Porém, há outras temáticas que também chamam a atenção no pequeno livro de 44 páginas, contendo um total de 32 poemas.
Consciente e visivelmente revoltada com os modos pelos quais as mulheres foram tratadas ao longo da História da Humanidade, o eu lírico, no poema “Renascer”, que abre o livro, diz, com todas as palavras que:
Não quero ser só bandeira:
antes, serei atos na práxis de um vir-a-ser
parido em convulsões de uma nova era.
E ressurgirei inteiramente mulher! (pág. 9)
Além das denúncias com relação aos descasos com que as mulheres foram tratadas ao longo dos tempos, a autora também encontrou espaço em seu livro para tecer críticas sociais bastante diretas com relação ao regime político da época que, embora já anunciasse seu declínio, ainda espantava e oprimia as pessoas ávidas por liberdade plena e irrestrita, mas cercada de atitudes responsáveis. Dessa forma, nas estrofes finais do poema “Aceitação”, é possível encontrar este inequívoco recado:
Abre a cova
e enterra
bem fundo
a ditadura.
Para que, nunca mais
impeça teu riso
de homem livre. (pág. 30)
Engana-se, porém, quem acredita que o livro é composto apenas de explícitas denúncias sociais. Nele há também lirismo-amoroso, pitadas de erotismo e desejo de mergulhar na essência do Ser Humano, não importando o gênero, o credo ou a etnia a que pertença a pessoa. Desse modo, o leitor, ao se deparar com o poema “Vazio”, percebe que existe uma clara, mas nem sempre perceptível, relação entre a permanência da/na vida e a efemeridade da existência humana, tudo isso em um texto que parece querer dialogar com as temáticas bastante exploradas por Cecília Meireles, conforme pode ser visto a seguir:
O mundo. O mundo e o tempo
a escorrer entre meus dias
sedentos de primaveras.
– Quem me dera achar a
rosa dialética e poder decifrar
o enigma do começo!… (pág. 26)
Em quarenta anos muitas coisas mudam. Aquela quase menina que integrava o Movimento Arte e Vivência e que dirigia a Revista Vivência, ao mesmo tempo em que tentava dar andamento a seu curso de Filosofia e coordenava uma escola popular no bairro do Sacavém, conseguiu atingir muitos de seus objetivos: tornou-se mestra e doutora em Filosofia, coordenadora de grupos de pesquisas, publicou diversos artigos em revistas especializadas, publicou, em 2004, outro livro de poemas – Poiesis -, e um longo ensaio, fruto de sua tese de doutoramento, intitulada A via longa da existência errante: Uma interpretação d’O Guesa, de Sousândrade, à luz da Hermenêutica de Pau Ricoeur, e tem se tornado uma referência nos estudos lítero-filosóficos.
Realmente, um livro não pode ser visto apenas como um objeto que contém folhas, capa, tinta e palavras… Um livro pode ser visto como um local privilegiado onde se encontram histórias… histórias de vidas que merecem ser estudadas e contadas, capazes de, longos anos depois, fazer uma poeta adormecida (Re)Nascer, não para si e seus entes queridos, mas para quem mal sabe das lutas enfrentadas para que ele chegasse, merecidamente, onde chegou.
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Nota do autor do texto: O início da noite de 14 de junho de 2026 chegou com uma triste notícia: o falecimento da professora e escritora Rita de Cássia Oliveira. A princípio, todos os amantes da educação, das letras e da filosofia imaginaram que poderia ter sido um engano, afinal de contas, dias antes ela estivera em um lançamento de livro e, como sempre, distribuiu simpatia e amabilidade. Minutos depois, no entanto, o rastilho de esperança de que aquilo fosse mais uma das tantas notícias falsas que são espalhadas por aí foi destruído com a confirmação da fatalidade. Infelizmente, a notícia era verdadeira. Rita de Cássia Oliveira sempre foi uma pessoa de trato gentil e de extrema simpatia. Era mais de ouvir do que de falar, mas, quando se pronunciava, ficava claro para os interlocutores que eles estavam diante de alguém que sabia o que dia e que tinha todo o cuidado em medir as palavras na busca da frase mais suave e completa. Quando acreditava que não podia colaborar, simplesmente declinava gentilmente o direito de se pronunciar e ficava ali, ouvindo, atenta e respeitosamente. Ela raramente alterava a voz e tinha a devida paciência para ouvir colegas e alunos sem interromper. Quando era instada a falar, agia com sabedoria e se aparava em seu vasto conhecimento. A professora Rita de Cássia era geralmente consultada pela comunidade acadêmica quando o assunto era filosofia, principalmente se a temática envolvia as teorias desenvolvidas por Paul Ricoeur, filósofo de sua predileção e sobre cuja obra tinha pleno domínio. Sem dúvida, ela foi uma das mauires autoridades dessa assunto em nossa região. Sua pessoa e seus eninamentos farão falta. Muita falta!
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