A LIBERDADE DE SORRIR
(O Sorriso Proibido)
Por José Carlos Castro Sanches
Site: www.falasanches.com
"O segredo da mudança é focar toda a sua energia não em combater o velho, mas em construir o novo." (Sócrates)
Hoje, durante a leitura matinal, um fato curioso provocou-me o riso — e a reflexão. O episódio me chamou a atenção por três razões fundamentais: o peso esmagador da tradição, a facilidade com que adotamos mitos como verdades absolutas e a urgência de questionarmos regras sociais caducas que aceitamos sem piscar.
A história é simples e genial. O fotógrafo mineiro Filipe Borges, de 33 anos, foi renovar sua Carteira Nacional de Habilitação (CNH) na cidade de Sete Lagoas. Pronto para o registro, estampou no rosto aquele sorrisão iluminado. Imediatamente veio o puxão de orelha da secretária: "Não pode sorrir para a foto!". Diante do impasse, a dona da clínica interveio com postura solene, invocando "as normas do estatuto".Filipe, porém, não aceitou o dogma calado. Com a calma de quem conhece a história, explicou a origem do mito: nos primórdios da fotografia, no século XIX, o tempo de exposição dos daguerreótipos levava minutos eternos. Se o sujeito sorrisse, o rosto borrava e a foto estragava. O "rosto de enterro" não era etiqueta; era limitação tecnológica!
A dona da clínica ainda tentou fazê-lo assinar um termo de responsabilidade pelo próprio sorriso — como se mostrar os dentes fosse um crime de lesa-pátria —, mas recuou após consultar a chefia e descobrir que o Detran não proíbe sorriso algum. Vitória do bom senso. Filipe, cujo pai é dentista, lembrou que cresceu ouvindo que temos 32 motivos para sorrir (um para cada dente) e lançou a provocação que viralizou: "Por que não sorrir?"
"Um paradigma é o que os membros de uma comunidade científica, e eles sós, compartilham. É um conjunto de crenças, valores e técnicas." (Thomas Kuhn)
A saga da foto da CNH é apenas a ponta do iceberg das convenções absurdas que carregamos por inércia. Se pararmos para analisar o nosso cotidiano com um pingo de ironia, descobriremos um verdadeiro museu de hábitos obsoletos:
A gravata e o terno no mormaço: Na Europa fria do século XIX, o traje mantinha os cavalheiros aquecidos. Já sob o sol escaldante dos pampas ou do litoral brasileiro, ostentar paletó pesado e uma fita enforcando o pescoço é um ato de puro martírio estético.
O espartilho e o salto alto: O primeiro já foi aposentado pela história por comprimir costelas e sufocar pulmões em nome de uma "postura elegante". O segundo teima em resistir nos códigos de vestimenta corporativos, exigindo que mulheres equilibrem a coluna em agulhas de dez centímetros para provar competência profissional.
A etiqueta de gênero e o banheiro: Criou-se o mito de que homem de verdade faz xixi em pé. A urologia moderna já cansou de provar que urinar sentado é infinitamente mais higiênico, evita respingos indesejados e garante o esvaziamento completo da bexiga. Mas o ego masculino prefere o risco da física dos fluidos!
A conta do primeiro encontro: Protocolo herdado do tempo em que as mulheres não podiam ter renda própria ou conta bancária. Hoje, em tempos de independência financeira e chave Pix, a obrigatoriedade de o homem pagar tudo soa como uma relíquia medieval.
Proibições históricas absurdamente superadas: Não faz tanto tempo, dizia-se que a mulher não podia votar por "falta de discernimento" ou que o ensino superior atrofiaria a fertilidade feminina. Absurdos que a história varreu, mostrando o quão ridículas eram tais justificativas.
"É mais fácil desintegrar um átomo do que um preconceito." (Albert Einstein)
Ao escrever e refletir sobre este tema, a grande lição que fica é que a tradição cega é a inimiga número um da evolução. Aceitar costumes sem questionar sua utilidade prática nos transforma em autômatos de hábitos ultrapassados.
Questionar não é ato de rebeldia vazia, mas de sanidade. Quando desmistificamos regras caducas — seja o veto ao sorriso na CNH ou a imposição de trajes desconfortáveis —, abrimos espaço para uma convivência mais leve, lógica e humana. Da próxima vez que lhe disserem "sempre foi feito assim", faça como o Filipe: abra um sorriso, pergunte "por quê?" e reivindique o seu direito de pensar por conta própria. Como disse Aristóteles: "A dúvida é o princípio da sabedoria." E Hannah Arendt completou:
"O pensamento propriamente dito só surge onde a dúvida sobre as certezas estabelecidas se torna inevitável."
São Luís, 31 de julho de 2026.
Direitos reservados ao autor:
José Carlos Castro Sanches.
Químico, professor, consultor, comunicador, escritor, cronista, contista, trovador, poeta e produtor cultural.
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