Quarta, 10 de Junho de 2026
11°C 18°C
Curitiba, PR
Publicidade

A ALQUIMIA DO VERBO: QUANDO A ARTE SE FAZ MOEDA 

José Carlos Castro Sanches é convidado da Plataforma Nacional do Facetubes.

14/05/2026 às 10h08 Atualizada em 14/05/2026 às 10h51
Por: Mhario Lincoln Fonte: José Carlos Castro Sanches.
Compartilhe:
(Original do texto).
(Original do texto).

José Carlos Castro Sanches.
Químico, professor, consultor, escritor, cronista, contista, trovador, poeta e produtor cultural
Site: www.falasanches.com

"A arte não é o que você vê, mas o que você faz os outros verem." (Edgar Degas)

Quem sabe um dia, ao servir-me nos melhores restaurantes e repousar nos afamados hotéis do Brasil, eu possa, no momento solene de prestar contas, oferecer ao garçom não o papel frio da moeda corrente, mas a pulsação de uma crônica, o ritmo de um poema, a alma de um conto ou a singeleza de uma trova. Imagino o silêncio do entendimento selando o acordo e, assim, quitando o meu débito com a vida e com o estabelecimento. Essa ideia, que flutua entre o sonho e o pragmatismo, floresceu após o contato com um fato curioso sobre o mestre do surrealismo, Salvador Dalí.

Continua após a publicidade

Espanhol de Figueres, pintor excêntrico, escultor e um dos maiores ícones do século XX, Dalí transformou sua própria existência em uma obra de arte contínua. Ele não apenas criava imagens; ele criava valor onde o olho comum via apenas o vazio. Reza a história que o gênio das "persistências da memória" adorava o ritual de jantar bem. Grupos numerosos, mesas que se perdiam no horizonte, vinhos que guardavam o sol em garrafas e os cenários mais luxuosos de Paris e Nova York eram seu palco.

 

"Não tenha medo da perfeição, você nunca a alcançará." (Salvador Dalí)

Na hora do fechamento da conta, Dalí insistia na elegância do pagamento. Com a calma de quem domina o tempo, preenchia o cheque com o valor total. Assinava-o. Mas, antes de entregá-lo ao garçom, operava sua mágica: virava o papel e, no verso, rabiscava um esboço rápido. Elefantes de pernas longilíneas, cavalos etéreos ou figuras que desafiavam a lógica surgiam em segundos. Assinava novamente e entregava o papel com um sorriso de soslaio.

Dalí possuía a compreensão exata do amanhã. Ele sabia que o dono do restaurante jamais levaria aquele cheque ao banco. O papel não terminaria em um caixa, mas em uma moldura, ocupando o ponto de honra do salão. Um Dalí original, nascido entre o prato principal e o café, valia infinitamente mais do que qualquer banquete. No Café de la Rotonde, em Paris, o gesto repetiu-se como um ritual sagrado: um elefante de tromba erguida bastava para que o lucro do estabelecimento saltasse das moedas para a imortalidade. Dalí não precisava de dinheiro; ele precisava apenas de um pedaço de papel e da plena consciência de sua própria grandeza.

 

Continua após a publicidade
Continua após a publicidade

"O valor de uma ideia reside no uso dela." (Thomas Edison)

Essa transmutação de talento em sustento nos convida a uma reflexão profunda sobre o mercado da alma. Valorizar nossas competências, habilidades e dons não é um ato de vaidade, mas de sobrevivência e dignidade. Como escritor, cronista, contista, poeta, trovador e promotor cultural, compreendo que a palavra é a minha assinatura no verso do tempo. O conhecimento técnico e a sensibilidade artística são moedas de troca potentes em um mundo que, embora sedento por números, morre de fome por significado.

Tornar o dom uma ferramenta de subsistência é o desafio supremo do criador. É preciso entender que a beleza que produzimos tem um peso real na balança das trocas humanas. Nossas habilidades são instrumentos de superação e individualização; são elas que nos retiram da massa informe e nos dão um rosto, um nome e um valor que nenhum mercado de ações pode mensurar plenamente. Que possamos, tal qual o mestre catalão, reconhecer a fortuna que carregamos na ponta da caneta, na destreza das mãos ou na profundidade do pensamento.

"A única maneira de fazer um excelente trabalho é amar o que você faz." (Steve Jobs)

Ao final, que o nosso maior patrimônio seja a coragem de sermos nós mesmos, convertendo cada talento em um degrau para a valorização pessoal e profissional. Sejamos os artistas de nossas próprias contas, sabendo que, quando o que oferecemos é genuíno e excelente, o mundo não apenas aceita o pagamento, mas o celebra.

 

Continua após a publicidade
Continua após a publicidade
* O conteúdo de cada comentário é de responsabilidade de quem realizá-lo. Nos reservamos ao direito de reprovar ou eliminar comentários em desacordo com o propósito do site ou que contenham palavras ofensivas.
500 caracteres restantes.
Comentar
José Carlos Castro SanchesHá 4 semanas São Luís/ MAAo amigo Mharío Lincoln agradeço pelo compartilhamento e aos leitores pela honra de tê-los no prazer do meu ofício de escritor. Um forte abraço a todos, José Carlos Castro Sanches. São Luís, 14 de maio de 2026.
Mostrar mais comentários
José Carlos Castro Sanches
Sobre o blog/coluna
Químico, professor, consultor, escritor, cronista, contista, trovador e poeta maranhense.
Ver notícias
Curitiba, PR
11°
Tempo nublado

Mín. 11° Máx. 18°

11° Sensação
1.14km/h Vento
97% Umidade
100% (14.44mm) Chance de chuva
06h59 Nascer do sol
05h34 Pôr do sol
Qui 17° 13°
Sex 15° 12°
Sáb 20° 12°
Dom 13° 12°
Seg 12°
Atualizado às 04h01
Publicidade
Publicidade
Economia
Dólar
R$ 5,18 +0,11%
Euro
R$ 5,97 +0,07%
Peso Argentino
R$ 0,00 +0,00%
Bitcoin
R$ 336,024,09 -0,85%
Ibovespa
169,813,16 pts 0.68%
Publicidade
Publicidade
Publicidade
Publicidade
Lenium - Criar site de notícias