
José Carlos Castro Sanches.
Químico, professor, consultor, escritor, cronista, contista, trovador, poeta e produtor cultural
Site: www.falasanches.com
"A arte não é o que você vê, mas o que você faz os outros verem." (Edgar Degas)
Quem sabe um dia, ao servir-me nos melhores restaurantes e repousar nos afamados hotéis do Brasil, eu possa, no momento solene de prestar contas, oferecer ao garçom não o papel frio da moeda corrente, mas a pulsação de uma crônica, o ritmo de um poema, a alma de um conto ou a singeleza de uma trova. Imagino o silêncio do entendimento selando o acordo e, assim, quitando o meu débito com a vida e com o estabelecimento. Essa ideia, que flutua entre o sonho e o pragmatismo, floresceu após o contato com um fato curioso sobre o mestre do surrealismo, Salvador Dalí.
Espanhol de Figueres, pintor excêntrico, escultor e um dos maiores ícones do século XX, Dalí transformou sua própria existência em uma obra de arte contínua. Ele não apenas criava imagens; ele criava valor onde o olho comum via apenas o vazio. Reza a história que o gênio das "persistências da memória" adorava o ritual de jantar bem. Grupos numerosos, mesas que se perdiam no horizonte, vinhos que guardavam o sol em garrafas e os cenários mais luxuosos de Paris e Nova York eram seu palco.
"Não tenha medo da perfeição, você nunca a alcançará." (Salvador Dalí)
Na hora do fechamento da conta, Dalí insistia na elegância do pagamento. Com a calma de quem domina o tempo, preenchia o cheque com o valor total. Assinava-o. Mas, antes de entregá-lo ao garçom, operava sua mágica: virava o papel e, no verso, rabiscava um esboço rápido. Elefantes de pernas longilíneas, cavalos etéreos ou figuras que desafiavam a lógica surgiam em segundos. Assinava novamente e entregava o papel com um sorriso de soslaio.
Dalí possuía a compreensão exata do amanhã. Ele sabia que o dono do restaurante jamais levaria aquele cheque ao banco. O papel não terminaria em um caixa, mas em uma moldura, ocupando o ponto de honra do salão. Um Dalí original, nascido entre o prato principal e o café, valia infinitamente mais do que qualquer banquete. No Café de la Rotonde, em Paris, o gesto repetiu-se como um ritual sagrado: um elefante de tromba erguida bastava para que o lucro do estabelecimento saltasse das moedas para a imortalidade. Dalí não precisava de dinheiro; ele precisava apenas de um pedaço de papel e da plena consciência de sua própria grandeza.
"O valor de uma ideia reside no uso dela." (Thomas Edison)
Essa transmutação de talento em sustento nos convida a uma reflexão profunda sobre o mercado da alma. Valorizar nossas competências, habilidades e dons não é um ato de vaidade, mas de sobrevivência e dignidade. Como escritor, cronista, contista, poeta, trovador e promotor cultural, compreendo que a palavra é a minha assinatura no verso do tempo. O conhecimento técnico e a sensibilidade artística são moedas de troca potentes em um mundo que, embora sedento por números, morre de fome por significado.
Tornar o dom uma ferramenta de subsistência é o desafio supremo do criador. É preciso entender que a beleza que produzimos tem um peso real na balança das trocas humanas. Nossas habilidades são instrumentos de superação e individualização; são elas que nos retiram da massa informe e nos dão um rosto, um nome e um valor que nenhum mercado de ações pode mensurar plenamente. Que possamos, tal qual o mestre catalão, reconhecer a fortuna que carregamos na ponta da caneta, na destreza das mãos ou na profundidade do pensamento.
"A única maneira de fazer um excelente trabalho é amar o que você faz." (Steve Jobs)
Ao final, que o nosso maior patrimônio seja a coragem de sermos nós mesmos, convertendo cada talento em um degrau para a valorização pessoal e profissional. Sejamos os artistas de nossas próprias contas, sabendo que, quando o que oferecemos é genuíno e excelente, o mundo não apenas aceita o pagamento, mas o celebra.
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