Plataforma Nacional do Facetubes – Editoria de Pesquisa e Extensão
“A credibilidade da filosofia não está em possuir respostas definitivas, e sim em exigir que toda resposta apresente razões, coerência e permaneça aberta ao questionamento. Assim, vale entender e distinguir a diferença entre a Bíblia como obra religiosa e os excertos filosóficos nela existentes.” — Mhario Lincoln, sobre a pauta de pesquisa que resultou nesta matéria.
O 16 de agosto, difundido no Brasil como Dia do Filósofo, oferece mais que uma efeméride: permite refletir sobre a importância da pergunta na formação humana. Filosofar começa quando a amostragem deixa de ser suficiente e questões sobre existência, verdade, justiça, sofrimento, morte e conhecimento passam a exigir exame racional. É nesse ponto que surge uma questão central: a Bíblia pode ser considerada, também, um tratado de Filosofia?
Desta forma, há argumento para se discutir tal assunto? Sim! A Filosofia começa quando aquilo que parece evidente deixa de ser suficiente. Por isso atravessou mais de dois milênios sem perder sua função essencial: obrigar o pensamento a examinar a si próprio. Mas, o fundamento a ser discutido neste texto é: a Bíblia é, em seu conjunto, um tratado de Filosofia? A resposta certa é não!
Contudo, as pesquisas revelaram que a Bíblia contém textos que enfrentam algumas das questões filosóficas mais antigas e permanentes da humanidade com surpreendente performance divina. Essa conclusão pode ser defendida sem entrar em choque com a fé, inspiração divina ou à autoridade religiosa. É possível chegar a ela exclusivamente pela análise de alguns livros bíblicos, história das ideias e da filosofia da religião.
Entre esses exemplos está o Livro de 'Jó', que ocupa uma posição singular. A Stanford Encyclopedia of Philosophy identifica o livro como um dos textos mais explicitamente filosóficos da Bíblia Hebraica. 'Jó' enfrenta uma pergunta que atravessa séculos: se existe uma ordem moral, por que o inocente sofre? A professora Christine Hayes, de Yale, observa que a narrativa rompe com a associação simplista entre virtude e prosperidade. O personagem perde bens, filhos, saúde e posição, questiona, lamenta e protesta, sem abandonar sua busca por Deus. Sua fé não depende da recompensa. É justamente essa tensão entre sofrimento, justiça, liberdade e perseverança que mantém o livro presente nas discussões contemporâneas sobre o problema do mal.
Mas existem outros livros bíblicos que requerem igualmente, uma análise sobre essa comparação. Eclesiastes leva a inquietação a outro limite. Questiona o valor do trabalho, da riqueza, do prazer e da própria sabedoria diante da morte. Sua reflexão sobre finitude e sentido da existência permite aproximações com debates que mais tarde apareceriam em Montaigne, Schopenhauer, Nietzsche e no existencialismo. 'Provérbios', por sua vez, conduz a reflexão para a ética prática: prudência, justiça, autocontrole, amizade, palavra e formação do caráter. Já 'Gênesis' abre questões sobre liberdade, consciência moral, responsabilidade, conhecimento e origem do mal, desde que lido filosoficamente e não como manual científico sobre a formação física do universo.
Por sua vez, no 'Evangelho de João', o prólogo apresenta o conceito de Logos, termo grego carregado de tradição filosófica, relacionando razão, criação, existência, vida e verdade. Essa linguagem participaria profundamente da formação do pensamento cristão posterior, presente em autores como Orígenes, Santo Agostinho e Tomás de Aquino. A filosofia cristã desenvolveu-se, em grande medida, procurando compreender racionalmente questões que já estavam colocadas nas Escrituras.
No Brasil, existem pesquisadores que levaram ao extremos esse estudo. Um deles é Ivan Domingues, da UFMG, que também aproximaram 'Jó' e 'Eclesiastes' das reflexões sobre sabedoria, mortalidade, conhecimento e limites da condição humana. Isso mostra que a força filosófica da Bíblia, não decorre simplesmente de conceitos divinos, em suas páginas. Está também na capacidade de formular perguntas universais, preservar tensões e colocar respostas distintas em confronto. 'Jó' é talvez o exemplo mais contundente: sofre, interroga e permanece fiel. Sua conduta pode ser aproximada, por analogia, de princípios posteriormente associados ao estoicismo — resistência diante da adversidade, domínio interior e permanência em valores fundamentais — embora 'Jó' (*) pertença a uma tradição religiosa própria e muito anterior ao estoicismo romano. No Cristianismo, sua importância permanece justamente aí: a fé de Jó não elimina a pergunta; resiste dentro dela.
Plataforma Nacional do Facetubes – Editoria de Pesquisa e Extensão/Supervisão-geral: Mhario Lincoln (*)
–“Estudos Bíblicos/Livros Sapienciais e Poéticos”, de Tiziano Lorezin também foi consultado.
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