“a vida me ilude o tempo inteiro/ dilema ancestral pós-moderno”.
Samuel Marinho
Fui retirar, nos Correios, o livro Fotografias para Perfis Fakes do Samuel Marinho, na segunda-feira. Cheguei ansioso. Abri a obra e iniciei a leitura. Eu conhecia o original, mas depois de diagramado é outro produto.
A Editora Penalux caprichou na capa e no projeto gráfico. São cento e quarenta seis páginas de poesia contemporânea, que abrem uma sintaxe inventiva e repleta de xeque-mate. Guilhermina Rosa comentou numa resenha: “Como nos seus livros anteriores, o autor mais uma vez traz a linguagem informacional para o jogo da construção poética. Agora com a lembrança ao lado, sua poesia afasta de quaisquer maneirismos o uso de tal linguagem”.
Samuel é autor de Pequenos Poemas Sobre Grandes Amores (edição do autor, 2001), Poemas In Outdoors (Penalux, 2018) e Poemas de Última Geração (Penalux, 2019). Com este último trabalho foi finalista do Prêmio Jabuti 2020, mostrando a força dos poetas maranhenses, na atualidade.
Ele sabe distinguir, na poesia, o que é o jogo falso da linguagem para se debruçar na busca do inesperado. Apresenta com perspicácia uma capacidade de construir imagens, assim como estimula uma discussão em torno da identidade cultural pós-moderna.
Hall (2011, p. 409) discute a questão da identidade: “acho que a identidade cultural não é fixa, é sempre híbrida. Mas é justamente por resultar de formações históricas específicas, de histórias e de repertórios culturais de enunciação muito específicos, que ela pode construir um ‘posicionamento’, ao qual nós podemos chamar provisoriamente de identidade”.
Neste sentido, o autor faz um recorte de seu tempo nos enunciados metafóricos.
O poeta tece o discurso irônico, a intertextualidade, a luta (oculta) das classes e a nova identidade humana em:
POEMA ATRIBUÍDO A
PAULO LEMINSKI
esse vício
da polarização fácil
entre
a tua mentira indócil
e a minha verdade difícil
já nos levou além
do precipício (SAMUEL MARINHO, p.37)
De acordo com Hall, a identidade cultural é fabricada pela vida material. Então, no nosso contexto, moldamos em nós o fragmentário, os saltos sem sequência linear, uma ética para o instante vivido (sem nenhuma ligação com a tradição aristotélica). Samuel faz a leitura dos extremos. Invoca conceitos da filosofia, trocando a roupa do lugar comum.
Os conflitos são rabiscados nas paredes finais do texto: “e a minha verdade difícil/ já nos levou além/ do precipício”.
O caminho da análise aponta referências da cultural ocidental como no poema FLASH:
e no final de tudo
o céu relampejando
era Zeus
tirando fotos
do mundo (SAMUEL MARINHO, p.111)
A mitologia é base de equilíbrio na discursividade pós-moderna, que é volúvel como o capitalismo financeiro. No entanto, carrega marcas transdiscursivas que fortalecem a escrita, no mundo líquido tão bem teorizado por Zygmunt Bauman. O flash é uma metáfora da luz, capaz de iluminar o escuro coetâneo.
É importante destacar a ausência da pontuação normativa na tecitura de Samuel, porque o poeta está costurando fotos, perfis, fakes em fogos de artifício. Parece colar nos olhos do leitor o fragmentaríssimo instante.
Para Hall, o fragmentário é a marca principal da identidade pós-moderna. Em Fotografias para Perfis Fakes até nos poemas de fôlego, o discurso está em pedaços como no poema ALGORITMO PARA FOTOGRAFAR DIAS DE CHUVA e LEMBRETE PARA UM TURISTA ASSIM COMO EU DESAVISADO.
Samuel Marinho tem a crítica para o agora: “provas e testemunhas não existem/ verdades e mentiras insistem/ no tiro ao alvo sem fim/ na mira/ do tempo/ fragmentado”. Conhece a luta movediça no campo da linguagem.
É surpreendente e multissignificativo.
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Paulo Rodrigues (Caxias, 1978), é graduado em Letras e Filosofia. Especialista em Língua Portuguesa, professor de literatura, poeta, jornalista. É autor de vários livros, dentre eles, O Abrigo de Orfeu (Editora Penalux, 2017); Escombros de Ninguém (Editora Penalux, 2018).
Ganhou o prêmio Álvares de Azevedo da UBE/RJ em 2019, com o livro Uma Interpretação para São Gregório.
Venceu o prêmio Literatura e Fechadura de São Paulo em 2020, com o livro Cinelândia.
É membro da Academia Poética Brasileira.
e-mail: [email protected]
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