Onde o NÃO se confunde com o ALVORECER da Alma
*Mhario Lincoln
Confesso que eu não li "Essência de uma Alma", de Joiza Muniz Costa. Eu simplesmente mergulhei na magnitude de detalhes líricos que me levaram, como Júlio Verne, ao fundo das Poesias e Reflexões ali refletidas de forma a compreender o quanto importante é a literatura para a autora.
Assim como Joiza, eu também "(...) não costumo esbarrar o meu olhar apenas no limite de tudo" e escrever uma resenha elogiando a autora e esquecendo que antes de tudo, há um trabalho literário a ser debulhado, frase por frase, verso por verso, a fim de que o todo se faça sentir.
Neste livro, valem elogios abissais não só ao trabalho, mas também, à construção das emblemáticas prosa e poesia, inseridas neste contexto imenso que reflete - de uma só vez - a inquietude de Clarice Lispector e uma emergente garra de Conceição Evaristo, passando, obvio, pela expressividade inconfundível de Rachel de Queiroz.
Portanto, na métrica equacionada de Joiza, se nota claros ecos divisionais dessas maestras brasileiras. E isso é muito bom, pois mostra que há milhares de horas de leitura e aprendizado, antes de fazer esse livro. Eu reafirmo: nem só o talento é importante. Necessário se faz, quilômetros de aprendizado, para assim, juntar o útil ao agradável.
Joiza Muniz Costa é bastante consciente nesse encadeamento de preceitos apoteóticos, entre a gênese e o apocalipse poético sem medidas, o que me lembrou Bart Ehrman "(...) uma visão dos segredos, dando sentido às realidades terrenas".
O que eu senti, ao lê-la foi isso. Fui arremessado a um paredão de ideias de um modus vivendi único, acrescido de uma visão pessoal de tudo que a rodeia, e que, esse tudo, foi sensivelmente transformado em essência.
Coube-me observar, sem espanto, a graciosidade do ciclo longitudinal do livro com negações pessoais constantes:
"(...) Não confundas tua essência com manipulações externas", ou ainda, "Não fites o infinito", ou veja essa construção linda: "Não vi palavras na rua".
Ou, ainda, "Não deixes de ver, cada pedra no chão". Ou, "Não posso viver à margem do mundo". Ainda o extraordinário excerto: "Não pensei nada, mergulhei no vazio".
Porém, há um detalhe implícito que merece um pouco mais de atenção, especialmente quando a análise dessa (percepção de negação) pode ser estudada à luz de dois grandes psicanalistas.
Veja, esse conceito de negação para a teoria psicanalítica (quase poética), tem duas importantes vertentes. Uma, de Freud, onde a observação se prende à Lógica exercendo um importante papel na feitura das ideias. Já em Lacan, a Lógica não é só base construtiva, mas instrumentos para pensar e repensar o sujeito do inconsciente. Na mosca, Lacam!
As negações às primeiras páginas dessa grande obra, a meu ver, são, sim, representações inconscientes, as quais se refere Lacan. Mas, também, funcionam como base construtora da ideia lírica, referidas por Freud.
Ambas as ideias, todavia, atingem o resultado de tudo isso e parecem inserir essa negação subliminar num contexto maior, ou seja, numa ideia-mater da visão crescente da vida.
Algo que pode sugerir começo, meio e fim, onde o ‘não’ é, na verdade, um empuxo para a transformação fênica, "sinto a renovação da vida, (...) a cada encontro". Eis parte, corajosamente, da essência da alma!
Analisando por esse lado, este livro traz um gráfico imperceptível de ascensão lírica, recorrendo à intenção de preservar, como já me referi acima, o antes, durante e o depois, vide:
"Você precisa me ver por aí (...) com sorriso despreocupado nos lábios, precisa me ver de pés no chão, sem se preocupar com quase nada". Perfeito!
Nessa bela lição de vida, como um “coach” interior, Joiza ampara o leitor e nos ensina a não perder "nenhuma hora, nenhum minuto, nenhum segundo". Ensina também sobre um passado e o que fazer com ele: "há escombros em minha alma, os quais preciso remover (...)".
Desta forma, o lírico é quase prosa, prosa quase lírica, numa mistura liquefeita de maturidade cultural que impressiona.
Por isso seu livro e sua essência são mostrados em duas partes. Na primeira, poemas. Na segunda, prosa em crônicas muito bem elaboradas, onde o que se passa no Mundo se torna ladrilhos, no observar atento da autora, formando papiros hermenêuticos indissolúveis, pois há sempre uma ligação direta entre o fato e a essência da alma.
Confesso que fiquei encantado com o trabalho, tanto na própria essência, repito, quanto na produção gráfica, feita pela Viegas Editora. Sóbrio e com delicada feitura.
Destarte, fica aqui minha imensa satisfação em ter lido essa obra. E cada vez que leio algo assim tão expressivo, reabre-me a certeza de que muitas coisas boas virão e que nossa cultura literária será imortal, como deve ser.
Só relembrando: "O meu valor não está na quantidade(...)". Com certeza, Joizacawpy Muniz Costa.
Obrigado por me fazer feliz.
*Mhario Lincoln é presidente da Academia Poética Brasileira.
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