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SHARLENE E SEUS ESPELHOS: ou um reflexo para a Vida, sobre "Espelhos de Eva"

O livro é de Sharlene Serra, da Academia Poética Brasieira.

01/01/2022 às 13h39 Atualizada em 04/01/2022 às 11h50
Por: Mhario Lincoln Fonte: Mhario Lincoln
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"Espelhos de Eva", de Sharlene Serra

*Mhario Lincoln

Acabo de ler "Espelhos de Eva", de Sharlene Serra. Agora, ao final, não resisti e tive que escrever algumas linhas sobre essa valiosa obra-alma, editada pela "Estampa", com bela capa de Wesley Almeida e uma dedicatória pessoal e intransferível.

Aflorou-me pensar ser um geólogo lendo o livro. Seria uma análise sísmica, de alta Magnitude Richte. Pois foi assim que comecei a ler Sharlene Serra. Sob tremores líricos, com ecos no epicentro da minha razão. Com essa ‘pegada’, apercebi-me, às primeiras páginas, do grande mote enganador para quem se propõe colocar essa obra na sessão erótica de sua biblioteca: "(...) estou nua (,...) apenas vestida de palavras(...). 

Pois bem! O livro é um grande passeio interior, como se o navio dos sonhos fincasse âncora em um despretensioso espelho. Então, acredito, que se confundem aqueles que pensam que esta construção lírica é excepcionalmente erótica, mesmo com lucidez sensual nos diálogos. Mas, antes de quaisquer suspiros, há múltiplas razões interiores fortes e lampejos do gozo etéreo. 

Eu chamo esse detalhe de transposição drástica da subconsciência poética, inserida na grandiosidade da tábua logarítmica do 'eu-poético'. Sim! Isso também faz estremecer e confundir.

Por essa afeição virtuosa que Sharlene Serra, enquanto benfeitora das letras, se traduz por uma palavra muito forte e corajosa: entrega. 

Uma entrega misturada à concepção intestina, rigorosamente sensorial: "Mulher gera/ é produtiva/ acerta, erra (...)". Estes versos incríveis caracterizam toda linguagem bélica da obra: "Mulher, na delicadeza da Fera". 

Pois bem! Como "O espelho”, do incrível Machado de Assis, o reflexo de Sharlene, passeia intimidades e as situa dentro da própria alma. Então, o livro retrata um autoconhecimento? Ou é uma tentativa de encontro consigo mesmo, onde Eva funciona como o alter ego, onde se dissipam algumas elucubrações e variáveis entre o bem e o mal? Entre o gozo e o sofrimento? 

Por isso que há uma certa física idiomática para se ler "Espelhos de Eva" e por causa disso, fluem de forma incontrolável, várias interpretações - muitas delas, apesar de válidas - diferentes do conglomerado sintático do enredo. 

Eu, por exemplo, na análise da obra, acabei diluindo-me entre dois entendimentos:

1 – Esforço hercúleo de aproximação da verdadeira Sharlene com ela mesma; e

2 - Afastamento dela, de si mesma, levando a reboque, confusões e incompreensões empíricas, enquanto dialoga com terceiros personagens.

Sei que o contexto lírico, as construções temáticas e o enredo passam por diversas formas interpessoais, criadas a partir de alguns sentidos evidentes entre frustrações e alegrias, no amparo direto do 'espelho', figura intermediária e sustentável da maleabilidade e instabilidade emotiva do livro.

Para mim, são as asas de Frida que inoculam força indivisível às mulheres amazonas, nascidas Sharlene: "Ei, vocês!!! / Respeitem nós, mulheres! (...)/ Não somos frágeis, nem bobas (...)". 

Um grito, um apelo, uma necessidade inerente a quem trilha por caminhos de flores e espinhos e de certa forma, deseja-os colorir com pétalas, a sua existência. Eis a mulher forte. Eis a mulher-frida. A mulher-Maria Firmina dos Reis. Eis a mulher-Rosa Parks. A Mulher-Anne Frank, Angela Davis. A Mulher-Sofonisba Anguissola. 

Sharlene Serra-Mulher. Mãe. Filha, Poeta. Humana. Apaixonada, condizente, pertinente, inovadora, perseguidora de sonhos e de realizações.

É isso que essa história de amor vista pelo espelho da alma, mostra ao leitor mais ávido, onde os poemas são centelhas do 'eu-inconsciente', caracterizado por uma experiência duo-pertinente às causas e efeitos que restaram após a longa caminhada helênica.

A autora: Sharlene Serra.

No próprio livro, alguns conceitos, no entretanto, podem levar o desavisado leitor a pensar em algo descabidamente envolto em inter-relações do gozo. Mas, basta aprofundarmos o olhar um pouco mais nas lições ero-evocativas do livro, para que logo se chegue em Foucault, onde, para ele, quaisquer que sejam as manifestações sobre sexualidade, passam obrigatoriamente por um processo complexo formado "a partir de identificações, mediadas pelo momento histórico vivido", isto é, uma forma amorosa do subconsciente-eros.

Pelo visto, essas interlocuções lírico-eróticas são, na verdade, e na volta da imagem do espelho, algo que se assemelha muito mais a um 'amor necessário' do que ao novo conceito erótico de hoje em dia.

Neste trabalho de Sharlene Serra, as partes construídas com erotismo, na verdade, são irradiações de uma emoção sexual sobre todo o corpo, dentro de dimensão erótica, perfeitamente atrelada à ternura e ao duo-encanto. Exatamente aí, a diferença. Assim é a expressividade de "Espelhos de Eva". Um cântico ero-dinâmico cheio de ternura e amor.

Por exemplo: "O coração de Eva há tempos não germina/ (...) terra fértil/porém infértil, ressecada, por falta de adubo/ não chove mais em desejo (...)". Desta forma, ler "Espelhos de Eva", com olhos eros-amorosos, a mim, me parece ser a solução, pois, prosa e verso são indivisíveis, enquanto carência lírica e abundância de amor. Muito mais que, simplesmente um apelo indulgente por entender-se 'erótico'.

Surpreendi-me com o livro. À princípio sonhei ser poemas e poemas e poemas carentes e ardentes. Todavia, ao lê-lo com profundidade requerida e aprendendo artisticamente com a autora, a qual respeito e elogio como sendo uma das expoentes da literatura nacional, pude reconhecê-la e inseri-la, sem nenhuma dúvida entre os bons nomes, nascidos na terra de Nauro Machado, Paulo Rodrigues, Bandeira Tribuzi, Ferreira Gullar – poetas - e da mesma magnitude pensante de Jorgeana Braga, com seu espetacular "A Casa do Sentido Vermelho", ou mesmo de Milena Carvalho, com um dos livros mais fortes de 2018, "Quem é essa mulher?", ou, ainda, "Zona de Desconforto", de Lindevania Martins, essas, no romance e no conto.

Acabei conhecendo um pouco mais essa amiga e confreira da Academia Poética Brasileira e me afeiçoando ainda mais por sua vasta produção literária que interpela assuntos humanos (dos outros) e, pela primeira vez, aqui, assuntos inerentes a um espelho, em cuja definição psico-analítica, pode ser um esforço hercúleo num sentido de se autodefinir ou afastar-se de si, levando a reboque, todas suas observações empíricas.

Obrigado pela oportunidade que tive de ler essa bela e sensível obra.

 

*Mhario Lincoln é presidente da Academia Poética Brasileira.

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A AUTORA

Sharlene Serra – de São Luís Maranhão, poeta, escritora. Graduada em desenho industrial, pedagogia e especialista em Ed. inclusiva. Participa de diversas antologias/coletâneas nacionais.   Membro da Academia Poética Brasileira , vice presidente da AJEB- Associação de jornalista e escritoras do Brasil, coordenadoria do Maranhão e de outras associações literárias.

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Excerto de João Batista do Lago para Sharlene Serra

"Querido Mhario Lincoln, acerca do que li em sua resenha,

NOITES ESPELHADAS

(Para Sharlene Serra)

 

 

De João Batista do Lago

 

 

A noite sopra o silêncio

Tão negro quanto o breu:

Nenhuma estrela; tampouco lua!

 

 

O sopro do silêncio gélido

Vibra tímpanos hauridos:

No espaço somente foguetes explodem!

 

 

Sujeitos não fazem sentidos

No silêncio do breu da noite.

Não há espelho que reflita o outro,

Nem o outro para refletir o espelho.

Seja no côncavo;

Seja no convexo,

Há silêncios desesperados

Nos espelhos despedaçados

De almas congeladas.

Quando a noite sopra

Zumbidos de zumbis,

Acorrentados restam.

Apenas! 

(...)".

 

 

 

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