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Cinelândia, de Paulo Rodrigues — O que nos move é a poesia

Publicação autorizada pelo autor.

13/01/2022 às 21h15 Atualizada em 13/01/2022 às 21h32
Por: Mhario Lincoln Fonte: Paulo Rodrigues
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Paulo Rodrigues
Paulo Rodrigues

*Gyzelle Góes

Cinelândia, livro premiado pelo Literatura e Fechadura e publicado pela Editora Folheando, é uma obra ímpar. Paulo Rodrigues é um poeta sensibilíssimo às miudezas. Todo o livro se debate e mobiliza a nossa natureza. Dividido entre os capítulos "Claquete; Cena 1; Cena 2 e The end", realmente nos faz pensar que a vida passa é através dos nossos olhos.

Ao ilustrar a capa deste tão lúdico/lúcido livro, a imagem que me comovia desde o princípio à criação era a de uma cena distraída de meninos correndo à luz da cidade e do sol, não à toa.

“Lótus

é um sol

mais próximo da carne.

senta nas minhas pernas

e me encara

como um tigre

encara o futuro cadáver.

é um sol.

troca beijos

e chove.”

Logo no primeiro capítulo, o poeta chama atenção à carne viva que há em sua linguagem, à pulsação da poesia que nos arrasta - para onde!!! - é possível tocar a pele das suas palavras.

“durmo entre dois filhos.

eles apertam-me

como um comício

aperta o povo.”

Em Cena 1, há em demasia o corpo, e do corpo a memória, o que se pode cavar das profundidades das sensações, "cavar o chão/(esquecer de ti,/de mim)./cavar o chão/enterrar o sol/na fumaça.". O que há de lembrança premeditada, brota e é semeada nos versos Paulo Rodrigues, como se o eu lírico tivesse arado palavra por semente, palavra, meticulosamente, cuidadosa, ruidosamente.

“Maria Bonita

arrancou a unha

enquanto as formigas

comiam o dedo.”

Em Cena 2, há o título de um poema que ilustra o cenário deste capítulo "A vida não suporta epitáfios", não só porque "o corpo saiu pela porta dos fundos", mas porque não cabe ser breve, curta, sucinta. Cabe à vida nos poemas do poeta ser manifestada.

“um mês de sol e despejo.

a calçada não tem assistência;

não embala o sonho,

na manhã.

não balança os restos do homem

embrulhado no papel.

não sabe o que é um AVC,

nunca teve problema

com o álcool.

desconhece mandado de busca

e apreensão.

o corpo saiu pela porta dos fundos.”

Encaminhando-nos ao final do livro, como se anuncia "THE END", o poema diz ao que veio, afim de não haver fim. Porque é infinita em suas margens, em seus começos e seus desfechos. Fecho o livro e me vejo aberta, "havia um piano abandonado/no meio da sala", com uma rosa na mão.

Retorno à capa, e deixo aqui um poema meu - inspirado na arte que criei para Cinelândia -, em homenagem a este livro e ao poeta Paulo Rodrigues,

Bambolê

os meninos dentro do sol

espreitam os seus rastros

o que seria do amanhã se o sol

e os meninos dentro dele

não tivessem nascido?

de dentro do arco

o tempo faz a ponte entre

o que eram aqueles meninos

e o que há de mais terno

neste retrato animado:

a miragem dos meninos

crescendo dentro do dia.

 

Gyzelle Góes (poeta, ensaísta, professora do Rio de Janeiro/RJ)

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