*Gyzelle Góes
Cinelândia, livro premiado pelo Literatura e Fechadura e publicado pela Editora Folheando, é uma obra ímpar. Paulo Rodrigues é um poeta sensibilíssimo às miudezas. Todo o livro se debate e mobiliza a nossa natureza. Dividido entre os capítulos "Claquete; Cena 1; Cena 2 e The end", realmente nos faz pensar que a vida passa é através dos nossos olhos.
Ao ilustrar a capa deste tão lúdico/lúcido livro, a imagem que me comovia desde o princípio à criação era a de uma cena distraída de meninos correndo à luz da cidade e do sol, não à toa.
“Lótus
é um sol
mais próximo da carne.
senta nas minhas pernas
e me encara
como um tigre
encara o futuro cadáver.
é um sol.
troca beijos
e chove.”
Logo no primeiro capítulo, o poeta chama atenção à carne viva que há em sua linguagem, à pulsação da poesia que nos arrasta - para onde!!! - é possível tocar a pele das suas palavras.
“durmo entre dois filhos.
eles apertam-me
como um comício
aperta o povo.”
Em Cena 1, há em demasia o corpo, e do corpo a memória, o que se pode cavar das profundidades das sensações, "cavar o chão/(esquecer de ti,/de mim)./cavar o chão/enterrar o sol/na fumaça.". O que há de lembrança premeditada, brota e é semeada nos versos Paulo Rodrigues, como se o eu lírico tivesse arado palavra por semente, palavra, meticulosamente, cuidadosa, ruidosamente.
“Maria Bonita
arrancou a unha
enquanto as formigas
comiam o dedo.”
Em Cena 2, há o título de um poema que ilustra o cenário deste capítulo "A vida não suporta epitáfios", não só porque "o corpo saiu pela porta dos fundos", mas porque não cabe ser breve, curta, sucinta. Cabe à vida nos poemas do poeta ser manifestada.
“um mês de sol e despejo.
a calçada não tem assistência;
não embala o sonho,
na manhã.
não balança os restos do homem
embrulhado no papel.
não sabe o que é um AVC,
nunca teve problema
com o álcool.
desconhece mandado de busca
e apreensão.
o corpo saiu pela porta dos fundos.”
Encaminhando-nos ao final do livro, como se anuncia "THE END", o poema diz ao que veio, afim de não haver fim. Porque é infinita em suas margens, em seus começos e seus desfechos. Fecho o livro e me vejo aberta, "havia um piano abandonado/no meio da sala", com uma rosa na mão.
Retorno à capa, e deixo aqui um poema meu - inspirado na arte que criei para Cinelândia -, em homenagem a este livro e ao poeta Paulo Rodrigues,
Bambolê
os meninos dentro do sol
espreitam os seus rastros
o que seria do amanhã se o sol
e os meninos dentro dele
não tivessem nascido?
de dentro do arco
o tempo faz a ponte entre
o que eram aqueles meninos
e o que há de mais terno
neste retrato animado:
a miragem dos meninos
crescendo dentro do dia.
Gyzelle Góes (poeta, ensaísta, professora do Rio de Janeiro/RJ)
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