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Sobre "A Bula dos Sete Pecados". A POESIA MULTIMODAL DE MHARIO LINCOLN, de Rossini Correa

Rossini Corrêa é um dos intelectuais maranhenses mais cultuados, premiados e respeitados no cenário nacional.

29/01/2022 19h01 Atualizada há 5 anos atrás
Por: Mhario Lincoln Fonte: Rossini Corrêa
Rossini & Mhario & 'A Bula'.
Rossini & Mhario & 'A Bula'.

*ROSSINI CORRÊA

Mhario Lincoln é um consumado artista multimídia, pioneiro em meio à sua geração maranhense, na precoce descoberta de que o mundo se tornaria aquela aldeia global vaticinada por Marshall McLuhan. Compreendeu o Poeta de A Bula dos Sete Pecados, desde a hora zero, o papel que as comunicações teriam no futuro em construção, tornando possível, por cima das assimetrias, a construção de diálogos de civilizações, pulsantes, e em busca de um mundo só.

Na aurora do seu tempo, Mhario Lincoln já era um homem de comunicação. Jornalista, Advogado, Cronista, do intelectual em questão, pode-se dizer que, em todos os domínios de sua intervenção, havia a presença do signo dialógico, a revelar a condição de homem-ponte, que reservara existencialmente para si, em uma disposição de serviço à vida, como serviço ao outro.

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Mhario Lincoln guardava, entretanto, dentro de si, mananciais criativos multifacetados, que o tempo se encarregaria de trazer à superfície do mundo visível. Eis que o Poeta, o Músico e o Filósofo pediriam que as alas se abrissem, para que pudessem passar sem atropelo de nada nem de ninguém. Ser gregário por excelência, o protagonismo lincolniano tinha por vocação ser exercido na ilha e no continente, com a merecida amplitude do sentimento do mundo em si carregado, a reclamar a sua pronúncia como testemunho do canto, a ser compartilhado como pão da vida, cujo destino é iluminar os espíritos. Assim nasceu o verbo em coral, mergulhado em águas profundas e a sobrenadar sabedoria:

DA DERROTA TOTAL AO REPRINCÍPIO.

Soneto para Shakespeare

Nem só de principados vive o Homem, nem de aparência.

Fui e vim ao largo de minha angústia, de corvo a colibri.

Foi-me dada a oportunidade do arrependimento com decência.

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Foi-me dada a chance de mudar o tudo ou o nada, que vivi!

Imprudência, ganância, autopiedade, desordens, luxúria.

Fui e vim, ao largo de minha prepotência, lavando as mãos.

Foi-me dada a hora de ajuizar-me e reconhecer toda penúria.

Foi-me concedido o direito de rever meus mimos e padrões.

A morte, foi-me companheira ao longo desses inteiros anos.

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Fui e vim na certeza de que era perseguido até pelos meus.

 

Foi-me dada a acontecer minha paz, sem pensamentos levianos.

Foi-me retribuído o perdão e aflorou a graça maior de Deus.

Justos os que se fizeram nas entranhas do gueto.

Emergiram da lama, aceitando a derrota. Puro sueto!

 

De corvo a colibri, o canto lincolniano, ave espalmada no céu da vida do mundo, tematizou alfa e ômega, em busca do sentido do existir, portando uma vontade visceral de transformar pedras em frutos, abismos em montanhas, perguntas em respostas: “Acabou, Tomás de Torquemada, toda maldade?” O itinerário do Poeta revolveu os problemas da vida e os mistérios da morte – “Desço a grande escada da Nuvem” – em uma sondagem do Ser, do Nada e do Tempo, na qual procurou a floração de antídotos para a gula, a avareza, a luxúria, a ira, a inveja, a preguiça e a vaidade, convicto de que, pelo puro e pelo belo, há de começar a reinvenção da vida do mundo. Assim o canto se tornou libertação:

Excertos do livro "A Bula dos Sete Pecados".

O fazer poético de Mhario Lincoln é um esmeril de lapidação do Ser e tem vínculo intimo com a tradição da escrita filosófica e poética por meio de aforismos. Não por acaso, mas por consciente intertextualidade, A Bula dos Sete Pecados carrega consigo o galo que Friedrich Nietzsche sonhou que explodisse em luz, em meio às madrugadas da Alma, como forma de remissão de tudo que é humano, demasiado humano. Diante do espelho do verbo e do espírito natalino, resta-nos, com certeza, pedir ao Poeta que cante a música desse canto, de onde, teimosa e incorruptível, por sobre as trevas do mundo, renasce em vida a Esperança.

Trata-se, a bem da verdade, do mais profundo compromisso existencial de Mhario Lincoln, que transformou o verbo em condição de conhecimento do humano, em sua ontologia, como caminho de inquirição total, endógena e exógena, de cada homem e do homem todo, dentre os quais pulsa, sofrida e incerta, a humanidade:

 

AH, HUMANIDADE!

Como andam as bruxas de Blair

As bocas amargas sem fecho-éclair

os curtos-circuitos movidos a Éclair

as delícias das fragrâncias Belle-Aire?

Os amores de Dom Descartes, René

ou o ‘ver pra crer’, de São Tomé

As garras afiadas de François Voltaire

O vendedor de virtudes, Yang Zhu, até?

Como andam os moinhos de Quixote,

as muitas amantes de Sir Lancelot

o drama escarrado na morte de Pixote,

o Rei do Baião de Pé-de-Serra, do Xote?

Por onde anda, de Einstein, a relatividade,

Contra Kant, Auguste Comte, a sua positividade,

A saga de Simone de Beauvoir gritando igualdade

Acabou, Tomás de Torquemada, toda maldade?

E as definições de Céu e Inferno de Dante

Da cruz, aos pés, o pobre Judas morre adiante

De John Campbell, o horizonte, o sextante Narciso,

impreciso, anarquista, egoísta, amante

E os patos e os lobos, a altos custos se encerra

Hoje, a meninada não lê Gibi, mas joga guerra

Sabres de luz, uivos dos games, monstro que berra

Leituras virtuais, guerreiros que ‘salvam’ a Terra.

E as uvas verdes da Raposa, que Esopo contava

O pastor, do Lobo, que a mentira cultuava

E o trabalho da formiga enquanto a cigarra invernava

 

Esta capacidade de imersão na complexidade do mundo da vida, decerto, é uma constante no olhar poético de Mhario Lincoln, a perpassar toda a posologia de A Bula dos Sete Pecados, cujos ingredientes sinalizam para o canto, seara desde onde o homem, o humano e a humanidade, vencendo perplexidades, podem renascer. Sim, revivescer à luz dos antídotos pelo poeta servidos contra a gula, a avareza, a luxúria, a ira, a inveja, a preguiça e a vaidade, os quais cabem em uma só palavra: compaixão. Eis a bandeira humanista desfraldada em A Bula dos Sete Pecados: a do outro, amorosamente acolhido na semeadura e na construção do poeta Mhario Lincoln.

Vídeo Bônus: MATAMORFOSE

*Rossini Correa-Advogado, Professor, Escritor, Palestrante, Poeta, Pesquisador. Da Academia Brasiliense de Letras.

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HUMBERTO NAPOLEON VARELA ROBALINOHá 5 anos atrásECUADORPOEMA CATEDRALICIO,ENORME:CUERVO-COLIBRÍ,BARRO SUDOR ELEMENTOS Y SÍMBOLOS DE LO CORPÓREO Y LO ESPIRITUAL. MHARIO LINCOLN MUESTRA SU FUERZA POÉTICA Y SU ACERCAMIENTO A LA DULZURADE DIOS, MI ABRAZO,MAESTRO!
[email protected] Há 5 anos atrásSão Luis Rossini Corrêa, um grande escritor, e intelectual de qualidade. Um cidadão do bem, sempre amigo. Zeloso com as palavras e suas lavras.
Rúbia GuterresHá 5 anos atrásSão Luís Maranhão.Caro Rossini, ler e escrever sobre esse livro do Mario Lincoln é um ato de muita coragem. Quem poderia imaginar que um colunista social de São Luís pudesse alçár vôo tão alto, imagino que pelo estudo voraz, com esta plataforma magnânime e este livro tão bem analizado por V. Exa, na verdade um manto sagrado da literatura brasileira e membro da Academia Braziliense de Letras. Receba meus parabéns por essa indicação mais que necessária.
Jornalista e Poeta Anacleto Bezerra, maranhense de PenalvaHá 5 anos atrásEstado do Rio de Janeiro.iLUSTRE poeta Rossi Corrêa. Fico-me feliz em saber que em sua humildade, apesar de ser um dos mais ilustres filhos do Maranhão, a atenção dispensada a um trabalho desse nível se autorevela e a você coroa com um dom amplo de boa-aventurança. Não conhecia o Mhario como poeta até encontrar este livro nas páginas de sua editora, na internet. Compreio o e-book e fiquei abismado em ler tantas coisas maduras. O Mhario está maduro!
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