A ODISSEIA DA MULHER DO NATURALISMO RUMO À DEGRADAÇÃO
José Neres, da Academia Maranhense de Letras.
RESUMO: Estudo acerca da condição feminina de inferioridade em romances naturalistas brasileiros do século XIX. Demonstração de como o destino das mulheres personagens é determinado pela ideologia de uma época, o que leva as personagens femininas à morte ou à degradação moral.
1 INTRODUÇÃO
Muito já foi dito sobre o Naturalismo Brasileiro. Dos estudos iniciais de Sílvio Romero até a visão crítico-filosófica de Flora Süssekind, passando pelos ensaios de Afrânio Coutinho, Massaud Moisés, Antonio Candido, Alfredo Bosi e Affonso Romano de SantAnna, muitos caracteres da estética naturalista já foram revistos, repensados e até mesmo banidos de estudos sérios e coerentes sobre o assunto; ao mesmo tempo em que outros começam a vir à luz das discussões e/ou ganham corpo e importância, ou caem simplesmente no limbo do esquecimento.
O certo é que, desde seu início oficial, com a publicação de O Mulato, em 1881, até nossos tempos, as visões acerca do Naturalismo vêm sofrendo modificações tanto do ponto de vista do caráter conteudístico como do filosófico-ideológico. Estudos de antanho, baseados na simples busca de elementos comprovadores de que determinada obra encaixava-se no estilo naturalista, estão sendo, paulatinamente, substituídos por outros que valorizam não só o aspecto formal da obra em si, mas também elementos subjacentes ao texto, extrapolando os limites do escrito e atingindo pontos ainda não explorados pela crítica.
Neste trabalho, trataremos especificamente das personagens femininas presentes em algumas obras naturalistas escritas no século XIX. A intenção é mostrar que a mulher não tem voz dentro dessa estética literária e que, na busca da verossimilhança, os escritores naturalistas, que tanto prezam a verdade, acabam “padronizando” a figura da mulher, levando-a, invariavelmente, à degradação física e moral.
Para atingir tal objetivo serão arrolados como “corpus” de pesquisa as seguintes obras literárias: Dona Guidinha do Poço, de Manuel de Oliveira Paiva; O Cortiço e O Homem, de Aluísio de Azevedo; A Normalista, de Adolfo Caminha, e Luzia-Homem, de Domingos Olímpio.
2 O “HÉROI” NATURALISTA
Segundo teoria defendida por Flora Süssekinnd (1984), e facilmente observável em obras de cunho naturalista, essa estética molda a representação de seus heróis ao longo dos tempos de acordo com as acomodações dos momentos históricos. Assim, num primeiro momento, quando o mundo está voltado para as novidades científicas do final do século XIX, o herói é o cientista, homem que detém o saber científico, “entretanto, não se trata de qualquer saber científico, e sim das ciências naturais” (SÜSSEKIND, 1984, P. 83). Nas letras brasileiras, possivelmente o representante maior dessa visão fisiologista é o doutor Lobão, personagem de O Homem, de Aluísio Azevedo.
Na primeira metade do século XIX, as ciências econômicas chamavam a atenção mais que quaisquer outras, então os pensadores da chamada segunda fase do Modernismo adotam como figura catalisadora das ideias da época o capitalista. Tal fato pode ser claramente percebido nas reflexões do capitalista Paulo Honório, personagem de São Bernardo, romance de Graciliano Ramos.
A década de 70 é marcada pelo vigor dos meios de comunicação e o profissional que vivia nesse meio passou a ser visto como receptáculo de ideias e formador de opiniões, ao mesmo tempo. Assim, o herói dessa espécie de neo-naturalismo é o jornalista, homem forte e detentor de uma verdade não acessível aos seres humanos comuns. Isso pode ser comprovado através da leitura das obras de José Louzeiro, nas quais sempre há um repórter desvendando mistérios e resolvendo crimes.
2.1 Mulher heroína?
Como foi dito acima, a noção de “herói” naturalista varia de acordo com a época e seu respectivo momento histórico. No entanto, podemos perceber que a mulher, embora não totalmente alijada desse processo, é usada como elemento de suporte para o brilhar do homem. Voltando às obras supracitadas, podemos notar claramente que em O Homem, Magdá, com suas crises de histeria, é o ponto de partida para as reflexões e os comentários científicos do doutor do Lobão. Em São Bernardo, é a angústia de Madalena que faz despertar a consciência de Paulo Honório e o questionamento de seus valores. Em Aracelly meu amor, de José Louzeiro, o assassinato da menina é o ponto de partida para que o repórter faça suas deduções e assuma o papel de dono da verdade inconsciente, porém impublicável.
Agora, abordando especificamente os livros naturalistas do século XIX, podemos afirmar que dentre os dez títulos mais conhecidos no Naturalismo Brasileiro, a saber: O Mulato, Casa de Pensão, O Cortiço e O Homem de Aluísio Azevedo; a Normalista e Bom Crioulo, de Adolfo Caminha; Dona Guidinha do Poço, de Manuel de Oliveira Paiva; A Carne de Júlio Ribeiro; Luzia-Homem, de Domingos Olímpio, e O Missionário, de Inglês de Sousa, quatro trazem no título palavra referente ao sexo masculino (O Mulato, O Homem, Bom Crioulo e O Missionário), três apresentam valor neutral (Casa de Pensão, O Cortiço e A Carne) e os outros três trazem referências a mulheres no título (A Normalista, Dona Guidinha do Poço e Luiza Homem)
Isso mostra que, pelo menos enquanto personagem-título, a mulher tem uma posição bem próxima à do homem. No entanto, durante o desenrolar das narrativas podemos notar que a mulher vai encaminhando-se para dois destinos limítrofes: morte e/ou degradação social, tendo homem e sociedade como seus inexoráveis algozes. Além do mais, ser título não equivale a ser “herói”. No caso da mulher naturalista, ter o seu nome no título leva a personagem mais à condição de vítima ou vilã que à de heroína.
3 A FIGURA FEMININA
É marca constante na obra naturalista o narrador assumir uma atitude distante, agindo como um simples observador, pois nessa estética “desnudam-se as mazelas da vida pública e os contrastes da vida íntima; e buscam-se para ambas as causas naturais (raça, clima, temperamento) ou culturais (meio, educação)” (BOSI,1994, p.188).
Todavia, é importante notar que tudo o que o leitor sabendo sobre a mulher é filtrado pelo olhar do narrador, um ser do sexo masculino, geralmente em terceira pessoa. Significativas são as passagens abaixo, em que o narrador fala da mulher:
Um dia, visitando as obras da cadeia, escreveu ele, com assombro, no seu caderno de notas: Passou por mim uma mulher extraordinária carregando uma parede na cabeça.Era Luzia, conduzindo para a obra, arrumadas sobre uma tábua, cinquenta tijolos. (OLÍMPIO, 1991, p.13).
Margarida, isto é, Guidinha, apesar de sua princesia, não casou tão cedo como era de se supor. Parece que primeiro quis desfrutar a vidoca. (PAIVA, s/d. p.13)
Nos trechos acima, fica claro que a aparente anormalidade é ressaltada. A mulher que sai do padrão de formalidade fica marcada e passa a ser o centro das atenções. Luzia é vista como um ser estranho à sociedade, uma mulher “pouco expansiva, sempre em tímido recato [e que] quase não conversava com as companheiras de trabalho.” (OLÍMPIO, 1991, p.13), ou seja, ela não se encaixava no perfil de mulher esperado pela sociedade descrita pelo narrador. O mesmo acontece – embora por outras razões – com Dona Guidinha, que não se casou cedo, não era mais virgem e preferiu aproveitar os prazeres da vida antes de assumir compromisso com o Major Joaquim. Tal atitude é vista como algo fora do padrão esperado pela sociedade da época.
O casamento, por outro lado, parece ser o marco decisivo para que a mulher entre no padrão comportamental desejado pela sociedade. E o casamento não pode tardar, como diversas vezes apregoa o doutor Lobão: “Não convém que esta menina deixe o casamento para muito tarde...” (AZEVEDO, 2003. p.36).
Os sentimentos da mulher são filtrados pelas convenções sociais, numa mistura entre o que é dito e o que deveria ser feito. Enfim, sua intenção era, como se diz em gíria de boa sociedade: casar bem.
Sim! Uma vez que o casamento era arranjado daquele modo; uma vez que tinha de escolher friamente um homem, a quem de entregar por convenção, queria ao menos escolher um dos menos difíceis de aturar; um homem de gênio suportável, com um pouco de mocidade e uma fortuna decente. (AZEVEDO, 2003. p.40)
Como diz Flora Süssekind (1984, p.133), para a mulher naturalista há dois caminhos “ou o casamento, ou camisa de força”.
É importante notar que dentro do Naturalismo o casamento não é uma constante e os que se realizam sempre trazem uma boa dose de infelicidade para os cônjuges. Normalmente a união do casal não é legalizada. Homem e mulher, ou macho e fêmea, simplesmente moram juntos.
3.1 Mais Fêmea que Mulher
No afã de degradar o ser humano, o escritor naturalista sempre zoomorfiza as personagens. Biologicamente, mostra a mulher como um ser movido pelos instintos. A forma como o narrador mostra Guidinha é bem significativa: “Margarida era muitíssimo do sexo, mas das que são pouco femininas, pouco mulheres, pouco damas e muito fêmeas.” (PAIVA, s/d. p.17)
Maria do Carmo, de A Normalista, entrega-se porque estava “numa dessas extraordinárias predisposições de corpo e alma em que por mais forte que seja a mulher não tem forças para resistir às seduções de um homem astuto e audacioso.” (CAMINHA, s/d, 109) Rita Baiana, a bela sedutora morena de O Cortiço, é sempre vista pelo aspecto sensual, e a falta de um parceiro sexual é a causa da histeria de Magdá, personagem principal de O Homem.
Tentando explicar literalmente tais fatos, Massaud Moisés (1989, p.18) diz que no Naturalismo “o patológico torna-se regra, pois a tese preconizada não admitia que o corpo social pudesse ter órgãos saudáveis”. Ou seja, desejo sexual é visto como doença, como vício que deve ser satisfeito, tanto faz que seja com o casamento, com o adultério ou com a prostituição.
4 DESTINOS CRUZADOS
Um cruzar de caminhos marca a saga das mulheres do Naturalismo brasileiro. Uma espécie de castigo atávico deixa-as em um mesmo patamar de sofrimento. Como veremos a seguir, há dois tipos de final para o personagem feminino: o da degradação física (culminada com a morte) e o da degradação moral.
4.1 Destino: morte física
Ser mulher é crime. O autor naturalista leva tal regra bem a sério. Suas personagens femininas são sempre culpadas de algo, mesmo que esse algo não tenha ainda acontecido. Costa (2002, p.04) adverte que as narrativas naturalistas “sempre caminham para um desfecho trágico, em que a figura feminina é sempre sacrificada em prol da defesa da ideologia de que é a mulher a causadora de grande parte da desgraça do homem.” Assim, pureza é punida com morte. Adultério é punido com morte. Fraqueza, também.
Luiza-Homem, a “donzela-guerreira”, no dizer de Flora Süssekind, é punida à medida que vai tornando-se feminina. Enquanto está pseudo-masculinizada, é intocável; mal abre o coração para o amor, morre.
Bertoleza é fraca, frágil. Assim como Luiza, é fisicamente forte, mas não resiste à dor e ao sofrimento moral. Suicida-se com a faca com que limpava peixes. A velha escrava cai “para a frente, rugindo e esfocinhando moribunda numa lameira de sangue. (AZEVEDO, 1996, p. 175). Enquanto isso, ironicamente, João Romão, o principal causador da desgraça da negra, é condecorado por uma comissão de abolicionistas.
4.2 Destino: morte moral
Outras mulheres do Naturalismo não morrem fisicamente, mas acabam perdendo o sentido de viver. Desmascaradas, traídas, aprisionadas ou loucas, as mulheres que não encontram a morte acabam ficando à margem da sociedade. Magdá, personagem de O Homem, acaba numa camisa de força, totalmente louca. Piedade, esposa de Jerônimo, em Cortiço, termina bêbada e prostituída, abusada sexualmente por homens sem escrúpulos. Margarida, de Dona Guidinha do Poço, é afastada do convívio social após encomendar o assassinato de seu próprio esposo e ser abandonada por Secundino, seu amante. Maria do Carmo, de A Normalista, tem as aparências salvas, mas moralmente está arruinada. Pouco resta para tais mulheres.
5 CONCLUSÃO
Mesmo com o interesse de salvar as verdades dos fatos, o escritor naturalista acaba sendo levado por uma ideologia que, como diz Slavoj Zizek, ressalta o geral para esconder o particular. As mulheres presentes nas obras naturalistas do século XIX são geralmente postas num mesmo patamar de causas e consequências, tendo como destino o alijamento social ou morte. A histeria também faz parte do painel feminino do século XIX na obra naturalista e serve como forma de caracterizar um castigo feminino. Um possível confronto das personagens estudadas neste trabalho com outras do mesmo período histórico-literário poderá demonstrar facilmente que, em vários pontos de nosso Naturalismo, as mulheres são representadas de formas bastante semelhantes e que, talvez por isso, merecem o mesmo desfecho, sempre em forma de castigo.
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REFERÊNCIAS
AZEVEDO. Aluísio. O homem. São Paulo: Martin Claret, 2003./ O Cortiço. 30 ed. Rio de Janeiro: Ediouro, 1996./BOSI, Alfredo. História concisa da literatura brasileira. 3ed. São Paulo: Cultrix, 1994./ CAMINHA, Adolfo. A normalista. 7ed. São Paulo: Escala, s/d. / COSTA, José R. Neres. As mulheres do naturalismo. O Estado do Maranhão, 09 de janeiro de 2002. Opinião. Pág. 04. / MOISÉS, Massaud. História da literatura brasileira – realismo. 2 ed. São Paulo, 1989. / OLIMPIO, Domingos. Luzia-Homem. 11ed. São Paulo: Ática, 1991./ PAIVA. Manoel de Oliveira. Dona Guidinha do Poço. Rio de Janeiro: Ediouro, [s/d]./ SÜSSSEKIND, Flora. Tal Brasil, qual romance? Uma ideologia estética e sua história: o naturalismo. Rio de Janeiro: Achamé, 1984./ ZIZEK, Slavoj (org) Um mapa da ideologia. Rio de Janeiro: contraponto, 1996.
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