Quinta, 03 de Setembro de 2026 10:49
(xx) xxxxx-xxxx
Cidades Convidados da APB

Edmilson Sanches e o Dia Internacional da Poesia

"Poema é forma, palavra(s); / poesia, conteúdo, sentido(s).."

21/03/2022 18h27 Atualizada há 4 anos atrás
Por: Mhario Lincoln Fonte: Edmilson Sanches
Original do texto.
Original do texto.

 

Continua após a publicidade

POEMA SEM POESIA

Convidado: Edmilson Sanches

Continua após a publicidade

Poema é forma, palavra(s);

poesia, conteúdo, sentido(s)

con/sentido(s)

significado(s)

sensibilidade(s)

sentimento(s)

Continua após a publicidade

sensações

-- do poeta

 que re/inventa,

do leitor

que acrescenta.

 

Continua após a publicidade

 

Continua após a publicidade

Todo poeta nasce jovem, velho,

contemporâneo, atemporal.

Sua poesia não tem idade

ou tem todas elas.

 

Continua após a publicidade

Jovem, velho, não é só “fase”

(da vida)

ou “faixa”

(etária),

quantidade

de anos:

pode ser estado, condição,

o que é recente – recentidade --,

o que é prévio  -- antiguidade --,

aquele que chegou, ou se foi

-- e a quem não lhe olhamos os algarismos

na certidão de nascimento

ou no atestado de óbito.

 

Continua após a publicidade

Poesia não vai à escola

-- e já lhe criamos tantas...

Poesia não se aquieta sob tarjas, 

fichas catalográficas, 

código de barras,

sumários, índices, referências.

Poesia, "moderna" (se quiser, "pós-"), não tem gênero

-- ou, "bi", "trans", "pan", de A a Z, os tem a todos eles.

 

Continua após a publicidade

Poesia  -- linear, cartesiana, aragem,

ou “trabalhada”, “renovadora” (de linguagem) –

não precisa razão para ser,

precisa que lhe deixem existir

...senão ela existirá de qualquer forma.

 

Continua após a publicidade

(A pessoa  -- mais perfeita, sim, das poesias --

para existir, em humildade ou esplendor,

não pediu luxos, não quis manás ou ambrosias...

Inda assim nasceu, interseção desejo e dor.)

 

Continua após a publicidade

O de que poesia não depende

é de que lhe definam, 

lhe encarcerem, 

lhe ponham rótulos.

(Claro, tudo isso continuará havendo, 

sob o manto 

de qualquer desculpa ou razão,

“porque somos humanos" 

e “qualquer coisa é criticável”

e “tudo é relativo”

 

Continua após a publicidade

...e tudo e todos  -- criação, criatura,

o criador e seu criado o crítico, cítrico --, 

não tivessem nada mais,

ainda teriam o sagrado direito

de ir pro Inferno em paz... ).

 

Continua após a publicidade

Se, verdadeiros ou falsos, 

admitimos que pessoas diferentes

na beleza, na condição social, 

na opção sexual, 

vivam suas vidas,

por que nos incomodamos 

com o "diferente" modo 

de escrever poesia,

de fazer poesia, 

de sentir poesia, 

de ser poesia, 

seja ela o que ela seja? 

 

Continua após a publicidade

Quem,

serpente  ou Adão,

habita esse jardim

e se acha a gênese,

pio/gênese, 

parênese,

da Criação?

 

Continua após a publicidade

Quem tu és,

novo Moisés?

Acaso portas 

as pedras

– regras –,

novo portal 

de onde (merda!)

medra

esperança

criadora, 

logo, poética?

(Enquanto o “Lógos”,

também universal,

também Poesia,

se une em verso

com Heráclito em Éfeso,

João no Evangelho,

Fílon em Alexandria).

 

Continua após a publicidade

Há poesia "simples", "simplória", "malfeita"? 

Há poesia "feia", "noviça", "de iniciante"?

Há poesia que, de tão "assim", sequer lhe sabemos o adjetivo?

E daí, Champollions (com suas líticas Rosettas)?

Alevantem, mosaístas, as "suas" poesias 

como novas tábuas,

estelas,

de cláusulas

e clausuras

pétreas

mandamentais

mandatárias

mandatórias

(i)memoriais.

Aguentem seu peso 

antes que caiam 

e, pedras que são, 

se quebrem

sem quebrarem

o bezerro

de ouro

e orgia

e se tornem úteis cascalhos

calhaus

seixos

britas

na pavimentação de caminhos,

no erguimento de muros.

 

Continua após a publicidade

Ó, semideuses! Embriagados

com seu próprio vinho poético,

não têm como perceber que o vinho

é fluido demais 

para nele sustentar-se a verdade,

qualquer verdade

– pois verdade líquida é incerta

 e assume a forma do vaso

ou dos intestinos

que a contêm.

 

Continua após a publicidade

No vinho não está a “veritas”, “vérité”, verdade:

está, só, a embriaguez, 

embriaguez 

e bobagens.

 

Continua após a publicidade

Ninguém chega ao balcão e pede vinho 

à procura de certezas, 

em busca de verdades 

em doses, 

taças, 

copos:

quando muito 

pede acompanhamento, 

quer acompanhante.

Ninguém pega a garrafa 

e nela busca 

ou dela despeja 

o Real

o Pleno

o Absoluto...

senão, em novo e não divinal “fiat!”, 

mijaríamos convicções e concretudes

e continuaríamos bêbados no sétimo dia.

 

Continua após a publicidade

Não se fazem universos em vasos sanitários,

sentinas,

penicos, 

urinóis  

--  que é onde fazemos

quando tudo já foi feito 

em nós.

 

Continua após a publicidade

Na poesia e na pessoa, esqueçam-se os adjetivos 

e deixe-se o que há de substantivo ser.

Ruim não é a poesia "diferente"

–  é ser intolerante com a existência do diferente...

 

Continua após a publicidade

O diferente é o outro, e o outro é meu referente,

minha medida, “alter ego” do “self”:

afinal, o bom, o bem, o belo, o elevado, o mágico existem

porque o outro, que não é, existe

-- só há o belo, o bom, o divino se houver 

o seu contrário: o feio, o ruim, o humano.

 

Continua após a publicidade

Deixem os rústicos rirem

os incultos cultivarem

os tolos versejarem

o tosco capengar

o torto coxear

o diferente claudicar.

Pois, mais “feios” que eles,

a intolerância, a arrogância

andam, caminham, voam...

e até no nada

cada uma delas nada

de braçada...

 

Continua após a publicidade

Hospedeiros da presunção, 

não queiram o sumiço do diferente

só porque o diferente não os atrai, 

não lhes convém, 

não lhes é... igual (ora bolas...).

 

Continua após a publicidade

Que triste uma sociedade de poetas vivos,

vivos... e prepotentes.

Poetas que tanto fazem poesia 

quanto desfazem, 

desdenham,

fazem pouco

dos muitos poemas alheios...

 

Continua após a publicidade

--- ...e são eles, poetas prepotentes,

que recitam "Viva e deixe viver",

pregam o direito de nascer,

e, bocudos, mandam um ou outro se foder?

 

Continua após a publicidade

(Escrevedores de an/versos em espelho...

 “Doutores” em poesia,

despóticos em caráter.)

 

Continua após a publicidade

Mirem-se, inversores: 

Há quem 

-- também -- 

lhes ache feios, horríveis, 

por fora ou por dentro, ou os dois.

Mas, por serem feios, vocês não precisam 

de autorização dos outros para existir.

(Lembrança de poesia memorizada na infância 

[O autor, quem é o autor?]:

 

Continua após a publicidade

“Que sapo medonho

com cara de mau,

no lombo levando

pancadas de pau.

 

Continua após a publicidade

Que bicho mais feio?

Será mau assim?

Por que é que vocês

o julgam tão ruim?

 

Continua após a publicidade

Se é feio, decerto,

ninguém vai desdizer,

mas só por ser feio

ele deve morrer?”

 

Continua após a publicidade

Ah, essas poesias simples!...)

 

Continua após a publicidade

A poesia “diferente” precisa  – formal  –  de autorização? Não.

Ou, prisional,

precisa de alvará de soltura? Frescura.

Ou, escravocrata,

precisa de carta de alforria? (Quem diria!...).

Ou, clerical,

precisa de “nihil obstat”, “imprimatur”? “Deleatur”!

 

Continua após a publicidade

Por que a intolerância contra o que não é seu?

 

Continua após a publicidade

"Porque não é poesia", dirão, bocejando, os donos do DNPI

(departamento nazista da poesia imaculada  

-- eugenia... eupoesia...).

Estão enganados os que se acham criadores 

da poesia imaculada

ou criadores de um jeito especial

(o jeito "deles")

de fazê-la.

 

Continua após a publicidade

"Não é poesia!!!", insistem  -- louca/mente --  os "inventores", 

os "pais" da poesia  -- na verdade todos eles filhos,

filhos da luta,  

da igual luta pela vida

(em) que teimamos (r)existir.

 

Continua após a publicidade

“No meio do caminho tem uma pedra”.

Mas, antes dela, antes do verso, tem Drummond...

 

Continua após a publicidade

“azul / teu cu”

-- sujidade não há

se o verso ou o poema

é de Gullar.

 

Continua após a publicidade

“Tudo vale a pena”

-- e a frase não é frívola, à toa,

porque, essa “mensagem”, quem não a apequena

é o português Fernando Pessoa.

 

Continua após a publicidade

“Cesse tudo o que a Musa antiga canta,

Que outro valor mais alto se alevanta.”

Quem há de ver senões, fazer sermões

se o decassílabo é de Camões?

 

Continua após a publicidade

“Minha terra tem palmeiras”...

Acham simples esse idílio?

Não é. É canção primeira

-- Gonçalves Dias... exílio...

 

Continua após a publicidade

(Poetas federais,

nacionais,

mundiais,

retiram ouro 

das fossas nasais.

 

Continua após a publicidade

,,,enquanto os municipais

e estaduais  -- eca! – 

do nariz mesmo só tiram

humana meleca...).

Poesia é libertação, 

corrente sem elos 

-- e toda ela ligação.

 

Continua após a publicidade

Desde a origem, poesia, “poiésis”, é criação.

Poetas, hum!, tão somente criaturas são...

So/mente.

 

Continua após a publicidade

Poetas acham que escrevem poesia.

Entanto, é a Poesia que se inscreve neles

e usa cada um  – “medium” –  como 

papel de rascunho e sangue.

 

Continua após a publicidade

Coitadinhos de nós...

Acreditamos que sabemos

acreditamos que somos

acreditamos que escrevemos...

Enquanto isso, em amor atemporal,

eterno

imortal,

como se fossem humanos, amorosos avós,

Cronos e Criação, complacentes, riem-se de nós...

------------------------------

O autor.

EDMILSON SANCHES

[email protected]

Ilustração: "A Criação de Adão" (detalhe), pintura de Michelangelo (1475-1564), no teto da Capela Sisitina, no Vaticano.

 

* O conteúdo de cada comentário é de responsabilidade de quem realizá-lo. Nos reservamos ao direito de reprovar ou eliminar comentários em desacordo com o propósito do site ou que contenham palavras ofensivas.
500 caracteres restantes.
Comentar
Mostrar mais comentários
Curitiba, PR
Atualizado às 08h01
12°
Parcialmente nublado

Mín. 10° Máx. 23°

12° Sensação
1.54 km/h Vento
91% Umidade do ar
0% (0mm) Chance de chuva
Amanhã (04/09)

Mín. 14° Máx. 24°

Chuvas esparsas
Sábado (05/09)

Mín. 10° Máx. 14°

Chuva
Ele1 - Criar site de notícias