POEMA SEM POESIA
Convidado: Edmilson Sanches
Poema é forma, palavra(s);
poesia, conteúdo, sentido(s)
con/sentido(s)
significado(s)
sensibilidade(s)
sentimento(s)
sensações
-- do poeta
que re/inventa,
do leitor
que acrescenta.
Todo poeta nasce jovem, velho,
contemporâneo, atemporal.
Sua poesia não tem idade
ou tem todas elas.
Jovem, velho, não é só “fase”
(da vida)
ou “faixa”
(etária),
quantidade
de anos:
pode ser estado, condição,
o que é recente – recentidade --,
o que é prévio -- antiguidade --,
aquele que chegou, ou se foi
-- e a quem não lhe olhamos os algarismos
na certidão de nascimento
ou no atestado de óbito.
Poesia não vai à escola
-- e já lhe criamos tantas...
Poesia não se aquieta sob tarjas,
fichas catalográficas,
código de barras,
sumários, índices, referências.
Poesia, "moderna" (se quiser, "pós-"), não tem gênero
-- ou, "bi", "trans", "pan", de A a Z, os tem a todos eles.
Poesia -- linear, cartesiana, aragem,
ou “trabalhada”, “renovadora” (de linguagem) –
não precisa razão para ser,
precisa que lhe deixem existir
...senão ela existirá de qualquer forma.
(A pessoa -- mais perfeita, sim, das poesias --
para existir, em humildade ou esplendor,
não pediu luxos, não quis manás ou ambrosias...
Inda assim nasceu, interseção desejo e dor.)
O de que poesia não depende
é de que lhe definam,
lhe encarcerem,
lhe ponham rótulos.
(Claro, tudo isso continuará havendo,
sob o manto
de qualquer desculpa ou razão,
“porque somos humanos"
e “qualquer coisa é criticável”
e “tudo é relativo”
...e tudo e todos -- criação, criatura,
o criador e seu criado o crítico, cítrico --,
não tivessem nada mais,
ainda teriam o sagrado direito
de ir pro Inferno em paz... ).
Se, verdadeiros ou falsos,
admitimos que pessoas diferentes
na beleza, na condição social,
na opção sexual,
vivam suas vidas,
por que nos incomodamos
com o "diferente" modo
de escrever poesia,
de fazer poesia,
de sentir poesia,
de ser poesia,
seja ela o que ela seja?
Quem,
serpente ou Adão,
habita esse jardim
e se acha a gênese,
pio/gênese,
parênese,
da Criação?
Quem tu és,
novo Moisés?
Acaso portas
as pedras
– regras –,
novo portal
de onde (merda!)
medra
esperança
criadora,
logo, poética?
(Enquanto o “Lógos”,
também universal,
também Poesia,
se une em verso
com Heráclito em Éfeso,
João no Evangelho,
Fílon em Alexandria).
Há poesia "simples", "simplória", "malfeita"?
Há poesia "feia", "noviça", "de iniciante"?
Há poesia que, de tão "assim", sequer lhe sabemos o adjetivo?
E daí, Champollions (com suas líticas Rosettas)?
Alevantem, mosaístas, as "suas" poesias
como novas tábuas,
estelas,
de cláusulas
e clausuras
pétreas
mandamentais
mandatárias
mandatórias
(i)memoriais.
Aguentem seu peso
antes que caiam
e, pedras que são,
se quebrem
sem quebrarem
o bezerro
de ouro
e orgia
e se tornem úteis cascalhos
calhaus
seixos
britas
na pavimentação de caminhos,
no erguimento de muros.
Ó, semideuses! Embriagados
com seu próprio vinho poético,
não têm como perceber que o vinho
é fluido demais
para nele sustentar-se a verdade,
qualquer verdade
– pois verdade líquida é incerta
e assume a forma do vaso
ou dos intestinos
que a contêm.
No vinho não está a “veritas”, “vérité”, verdade:
está, só, a embriaguez,
embriaguez
e bobagens.
Ninguém chega ao balcão e pede vinho
à procura de certezas,
em busca de verdades
em doses,
taças,
copos:
quando muito
pede acompanhamento,
quer acompanhante.
Ninguém pega a garrafa
e nela busca
ou dela despeja
o Real
o Pleno
o Absoluto...
senão, em novo e não divinal “fiat!”,
mijaríamos convicções e concretudes
e continuaríamos bêbados no sétimo dia.
Não se fazem universos em vasos sanitários,
sentinas,
penicos,
urinóis
-- que é onde fazemos
quando tudo já foi feito
em nós.
Na poesia e na pessoa, esqueçam-se os adjetivos
e deixe-se o que há de substantivo ser.
Ruim não é a poesia "diferente"
– é ser intolerante com a existência do diferente...
O diferente é o outro, e o outro é meu referente,
minha medida, “alter ego” do “self”:
afinal, o bom, o bem, o belo, o elevado, o mágico existem
porque o outro, que não é, existe
-- só há o belo, o bom, o divino se houver
o seu contrário: o feio, o ruim, o humano.
Deixem os rústicos rirem
os incultos cultivarem
os tolos versejarem
o tosco capengar
o torto coxear
o diferente claudicar.
Pois, mais “feios” que eles,
a intolerância, a arrogância
andam, caminham, voam...
e até no nada
cada uma delas nada
de braçada...
Hospedeiros da presunção,
não queiram o sumiço do diferente
só porque o diferente não os atrai,
não lhes convém,
não lhes é... igual (ora bolas...).
Que triste uma sociedade de poetas vivos,
vivos... e prepotentes.
Poetas que tanto fazem poesia
quanto desfazem,
desdenham,
fazem pouco
dos muitos poemas alheios...
--- ...e são eles, poetas prepotentes,
que recitam "Viva e deixe viver",
pregam o direito de nascer,
e, bocudos, mandam um ou outro se foder?
(Escrevedores de an/versos em espelho...
“Doutores” em poesia,
despóticos em caráter.)
Mirem-se, inversores:
Há quem
-- também --
lhes ache feios, horríveis,
por fora ou por dentro, ou os dois.
Mas, por serem feios, vocês não precisam
de autorização dos outros para existir.
(Lembrança de poesia memorizada na infância
[O autor, quem é o autor?]:
“Que sapo medonho
com cara de mau,
no lombo levando
pancadas de pau.
Que bicho mais feio?
Será mau assim?
Por que é que vocês
o julgam tão ruim?
Se é feio, decerto,
ninguém vai desdizer,
mas só por ser feio
ele deve morrer?”
Ah, essas poesias simples!...)
A poesia “diferente” precisa – formal – de autorização? Não.
Ou, prisional,
precisa de alvará de soltura? Frescura.
Ou, escravocrata,
precisa de carta de alforria? (Quem diria!...).
Ou, clerical,
precisa de “nihil obstat”, “imprimatur”? “Deleatur”!
Por que a intolerância contra o que não é seu?
"Porque não é poesia", dirão, bocejando, os donos do DNPI
(departamento nazista da poesia imaculada
-- eugenia... eupoesia...).
Estão enganados os que se acham criadores
da poesia imaculada
ou criadores de um jeito especial
(o jeito "deles")
de fazê-la.
"Não é poesia!!!", insistem -- louca/mente -- os "inventores",
os "pais" da poesia -- na verdade todos eles filhos,
filhos da luta,
da igual luta pela vida
(em) que teimamos (r)existir.
“No meio do caminho tem uma pedra”.
Mas, antes dela, antes do verso, tem Drummond...
“azul / teu cu”
-- sujidade não há
se o verso ou o poema
é de Gullar.
“Tudo vale a pena”
-- e a frase não é frívola, à toa,
porque, essa “mensagem”, quem não a apequena
é o português Fernando Pessoa.
“Cesse tudo o que a Musa antiga canta,
Que outro valor mais alto se alevanta.”
Quem há de ver senões, fazer sermões
se o decassílabo é de Camões?
“Minha terra tem palmeiras”...
Acham simples esse idílio?
Não é. É canção primeira
-- Gonçalves Dias... exílio...
(Poetas federais,
nacionais,
mundiais,
retiram ouro
das fossas nasais.
,,,enquanto os municipais
e estaduais -- eca! –
do nariz mesmo só tiram
humana meleca...).
Poesia é libertação,
corrente sem elos
-- e toda ela ligação.
Desde a origem, poesia, “poiésis”, é criação.
Poetas, hum!, tão somente criaturas são...
So/mente.
Poetas acham que escrevem poesia.
Entanto, é a Poesia que se inscreve neles
e usa cada um – “medium” – como
papel de rascunho e sangue.
Coitadinhos de nós...
Acreditamos que sabemos
acreditamos que somos
acreditamos que escrevemos...
Enquanto isso, em amor atemporal,
eterno
imortal,
como se fossem humanos, amorosos avós,
Cronos e Criação, complacentes, riem-se de nós...
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EDMILSON SANCHES
Ilustração: "A Criação de Adão" (detalhe), pintura de Michelangelo (1475-1564), no teto da Capela Sisitina, no Vaticano.
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