Nota do Editor: Abri o (Marca das Palavras) e me daparei com algo expressivo: 'Não me faça nó/ Faça-me laço./ Assim poderemos estar juntos/ num só abraço...'. Essa é a Joiza Costa que admiro enquanto ser humano, poeta, professora, amiga e escritora. (Mhario Lincoln).
Prefácio:
JOIZACAWPY: uma poética da leveza
José Neres Membro da AML, ALL e da Sobrames-MA
Cerca de um ano antes de falecer – em 1985 – o escritor Ítalo Calvino deixou para os amantes da literatura uma série de cinco ensaios completos e um por iniciar. No Brasil, estes estudos foram publicados enfeixados em um volume intitulado Seis propostas para o próximo milênio, no qual o leitor pode entrar em contato com as ideias do autor de Palomar acerca das seis características que ele julgava essenciais na hora de produzir um texto que pretendesse atingir os leitores do século XXI, momento histórico que ele não chegou a vivenciar, mas sobre o qual teve muito a dizer, não como um exercício de futurologia, conforme ele mesmo explicou, mas sim como observação atenta de uma realidade que rapidamente se aproximava.
As seis propostas enumeradas por Calvino são, a saber: leveza, rapidez, exatidão, visibilidade, multiplicidade e consistência, sendo que dessa última restou apenas o título, pois o escritor faleceu antes de eternizar seus argumentos no papel. Resta-nos, então, imaginar o que seria dito sobre a prática da consistência em textos artísticos. Contundo, no primeiro ensaio, dedicado à leveza, Ítalo Calvino aprofundou com maestria aquilo que considerava algo leve em literatura, sem, no entanto, desprezar a noção e a necessidade do peso. Para ele. A leveza pode ser exemplificada por três acepções distintas, mas que se completam: a) uma linguagem despojada; b) a narração de um raciocínio ou um processo psicológico que acabe comportando um elevado grau de abstração; c) uso de imagens figurativas que assumam um valor emblemático.
Desde seu livro de estreia, publicado em 2020 – Essência da alma: poesias e reflexões – é possível perceber na construção poética da jovem escritora Joizacawpy Muniz Costa um apego à leveza e à suavidade da linguagem, do raciocínio e das imagens poéticas. Mesmo declarando que “Há escombros em minha alma / Os quais eu preciso remover”, é possível perceber que esse peso que incomoda também serve como forma de alívio para quem sabe ser possível desfazer-se dele a qualquer momento. Transformar alguns incômodos problemas da vida em versos e páginas de poesia parece ter sido a opção desde o princípio do eu lírico eleito por essa professora, pedagoga, cronista e poetisa nascida na cidade de Santa Inês, criada em Monção e há alguns anos radicada na capital maranhense.
Agora, em seu segundo livro, a escritora continua fiel a seu estilo aparentemente simples, mas que oculta em cada verso algumas das especificidades humanas mais caras e raras. É facilmente perceptível que Joizacawpy Costa não trava lutas com as palavras, mas sim acaricia-as e mantém com cada uma delas uma relação de carinho e de cumplicidade. Em determinado momento ela diz que:
Não quero a obrigação de escrever,
Prefiro a leveza das palavras sem rigores
A leveza nascida na fonte da simplicidade
Gerada nas entranhas dos sentimentos.
Leveza que salta da alma
Feito sopro de felicidade.
E é esse não forçar as palavras, esse não acorrentar-se às regras impostas pelo artificialismo dos versos, o que aproxima o leitor da obra de Joizacawpy Costa. Ela não demonstra interesse em usar termos e palavras que estejam fora do universo linguístico da maioria das pessoas que leem poemas e crônicas. De certa forma, em seus textos, essa escritora busca ultrapassar barreiras respeitando limites, seus e das pessoas com as quais dialoga. Como boa observadora dos entornos da realidade, ela consegue transformar momentos corriqueiros em pequenas e delicadas obras de arte, seja em verso, seja em prosa.
O tom levemente coloquial de seus textos contribui para que a sensação de leveza e de bem-estar do leitor diante das palavras impressas nas páginas de um livro. Essa leveza transparece tanto em seus poemas quanto em suas crônicas. Sendo que há uma considerável diferença na construção e na recepção dessas duas modalidades. Nos versos, percebe-se que o eu lírico dá um mergulho em si mesmo, desnudando-se diante dos olhos do leitor ao apresentar suas angústias, suas palavras ditas e/ou silenciadas por motivos vários e seus desejos. São textos que apresentam um olhar dirigido para dentro, para o interior nublado pelas agruras do dia a dia, mas iluminado pela liberdade de poder livrar- se dos pesos do dia a dia a partir da libertação possibilitada pelas palavras.
Por outro lado, nas crônicas, o olhar do narrador é quase sempre para fora, para uma realidade que incomoda. São pequenos textos que buscam informar o leitor sobre realidades que nem sempre são visíveis a olho nu e que precisam da lupa das artes para serem visualizadas sob ângulos distintos. Nas crônicas, a professora, a pedagoga e a mulher atenta às mudanças cotidianas se sobressaem e, em um estilo que muitas vezes lembra a prosa de Rubem Alves, ela deixa diversas lições de vida e chama a atenção para detalhes que de tão visíveis, estão se tornando invisíveis, graças às inúmeras anestesias metafóricas a que somos submetidos diariamente.
Como “a vida de fato é uma grande escola, aprendemos desde o primeiro sopro de vida até o apagar da última chama”, este novo livro de Joizacawpy Muniz Costa pode ser visto como uma série de pequenas aulas sobre essa leveza que devíamos considerar para distribuir os inúmeros pesos cotidianos que podem nos incomodar. Conforme disse certa vez Ítalo Calvino: “Às vezes o mundo inteiro me parecia transformado em pedra.” Então, nada melhor que usar a arte para nos aliviar desse peso. E cada poema, cada crônica, deste livro é capaz de aliviar esses pesos que carregamos tantas vezes sem nos darmos conta.
Literalmente alguns poemas
Saltam das minhas mãos inquietas
As palavras dominam minha mente
E no meu fazer escrito elas são ditas
Ainda que eu esteja em silêncio
(Joizacawpy Costa)
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