
Cordel Brasileiro
*Esmeralda Costa
A DIVERSIDADE DE TEMAS DA LITERATURA DE CORDEL
O Cordel no Brasil, em sua primícia, trazia narrativas das situações vividas, de fatos políticos e cotidianos, trazendo também as lendas e crendices do seu povo. Voltado para a arte e cultura popular, o cordel foi tomando grandes proporções e hoje temos uma vastidão de temas nesta literatura. São obras que revelam o social, a história, a política, a economia, a geografia, o apelo de clamor, o alerta e as instruções para se prevenirem de doenças. São inúmeras as possibilidades de se passear pela ciência e pelas tradições através do Cordel.
É sem limites o potencial biográfico do cordel, quantas pesquisas simples e apuradas podemos encontrar de vultos históricos, de atores do cotidiano, dos tempos passados e da contemporaneidade.
Muitas peças publicitárias têm o cordel inserido com muita propriedade. Dentro também de dramaturgias, de telenovelas, já vimos clássicos onde o cordel foi focado com toda sua força. Dentro do contexto social, quantos convites de casamento são formalizados a partir desta literatura, quantas peças celebrativas de cerimonial, aniversários, bodas e muitas outras. Não se pode esquecer as inúmeras campanhas de alerta, de instrução e de prevenção que vemos cordelizadas. Agora mesmo, durante a Pandemia o Cordel fluiu muito, alertando sobre os perigos e os cuidados para se prevenir do Coronavírus e de outras doenças. Então, nós vemos que há um patamar muito vasto de possibilidades de uso da Literatura de Cordel. E nós cordelistas precisamos buscar e difundir cada vez mais estas inúmeras possibilidades, usando a nossa criatividade e cordelizando temas em diversidade.
TEMAS:
A DIVERSIDADE DE TEMAS CORDELIZADOS NO BRASIL
Desenhos Animados e Cordelizados
Pensando no público infantil e claro no sentimento de saudade que marca profundamente quem assistiu os desenhos que fizeram sucesso em décadas passadas, os poetas Ocione Soares (Joselândia - MA) e Raul Levyr Santana do Acaraú-CE) lançaram no mês de junho deste ano o cordel: Desenhos Animados do Passado, uma obra composta em sextilha (estrofes de seis versos) que promete cutucar a saudade e as lembranças de infância de muita gente, inclusive a minha.
Contos de Literatura Infantil Cordelizados
A professora e poetisa Sírlia Sousa de Lima, Natural de Mossoró, RN (residente em Natal), com sua grande capacidade artística e cultural é destaque como autora de várias obras de Literatura Infantil cordelizadas, dentre elas, Os três porquinhos, Branca de Neve e os sete anões, A Bela adormecida e muitas outras. É o Cordel encantando e conquistando não apenas adultos, mas também as nossas crianças.
Lendas Brasileiras em Cordel
O saudoso e admirável poeta Arievaldo Viana, deixou-nos um amplo acervo em obras escritas e vídeos enfatizando o cordel. Ressaltamos aqui o seu trabalho "Lendas do Folclore Brasileiro", obra que o autor fez em parceria com o ilustrador Jô Oliveira, trazendo para a linguagem poética e prazerosa da Literatura de Cordel, lendas como: A Mula Sem Cabeça, Curupira, Boto Cor de Rosa e outras.
Ditados Populares em Literatura de Cordel
Os ditados populares são expressões comuns que permanecem imutáveis durante anos, constituem parte importante da cultura, trazem ensinamentos e alguns são até engraçados. Criativo foi o poeta Paulo Filho (São João do Jaguaribe-CE), membro fundador da Academia Cearense de Literatura de Cordel ao compor uma obra em Cordel enfatizando nas estrofes muitos desses ditados. Parabéns, poeta pela sua criatividade!
Cordel Social: Um grito contra o feminicídio
A poetisa cordelista Raimunda Frazão (Campo de Pombinhas - Cantanhede-MA), aproveitou a linguagem poética do cordel para manifestar o seu grito contra o feminicídio, suicídio e violência. Um cordel com versos muito bem recheados de conselhos e que vale a pena ler.
Romance de Cordel
O poeta Marcos Silva de Custódia-PE (residente em São Paulo), encara o desafio de realizar um trabalho fascinante, um cordel com 144 sextilhas (estrofes de seis versos), e com um tema que parece coisa de novelas. Uma história cordelizada que sem dúvidas conquista em cheio o público leitor. Recomendo!
ENTREVISTA COM O PROFESSOR WILSON SERAINE
1 - Professor Wilson Seraine, desde quando o senhor se dedica à pesquisa da Literatura de Cordel?
As primeiras pesquisas sobre o cordel surgiram quando fomos iniciar o mestrado entre o IFPI e a UBRA, Universidade Luterana no Rio Grande do Sul em 2007, elaboramos o projeto para a pesquisa acerca de cordéis generalizados na área de Ciências e foi aprovado pelo pesquisador e professor Renato Pires. Então, fizemos o mestrado e o nosso trabalho resumidamente teve como título: "A Literatura de Cordel no ensino de Ciências”. Foi assim que a gente começou, mas eu sempre gostei de ler cordéis e inclusive, já tinha escrito alguns artigos para algumas revistas sobre o tema e já colecionava cordéis.
2 - Geralmente, somos influenciados por algo ou por alguém ao seguirmos determinado estudo. O que o influenciou a dedicar-se à pesquisa de cordéis?
Minha influência foi o poeta Pedro Costa, ele era editor chefe da revista "De repente", uma revista periódica de Cordel e cantoria aqui em Teresina. Infelizmente o poeta já nos deixou, mas ele me incentivava: - Vamos escrever, vamos escrever! E assim eu comecei a colecionar cordéis e escrever artigos para jornais e esses artigos eram publicados também na revista.
3 - Quais são os principais temas mais aprofundados em suas pesquisas?
São temas científicos, já que sou formado em Física e trabalho com Ciências. Inclusive já publicamos dois livros: "A Literatura de Cordel no ensino de Ciências" que foi nosso primeiro livro publicado a partir da dissertação do mestrado e o livro "A Radioatividade na Literatura de Cordel", onde fizemos um estudo em cima de vários Cordéis com análise e relatando o que é o Cordel e o o que é radiação. É um livro que tem boa aceitação e que surgiu a partir de um artigo que publicamos no Congresso RADIO 2019, que é o maior congresso da América Latina em radiações nucleares. Já publicamos também uma Antologia contendo cordéis gonzagueanos, onde pegamos o nosso acervo sobre Luiz Gonzaga e montamos um belo livro com ilustração de Jô Oliveira.
4 - Como o Senhor avalia a evolução do Cordel com a elevação ao patamar de Patrimônio Imaterial e Cultural do País?
Realmente eu não vejo muita diferença, enquanto evolução, mas a elevação de Patrimônio imaterial e cultural é importantíssima. É a elevação de uma arte, mostra que o Cordel está vivo e isso é fundamental.
5 - Sendo natural do Estado do Piauí, o senhor poderia citar três grandes referências da Literatura de Cordel piauiense?
Existem muitos, mas hoje eu cito: Mestre Zé Barbosa, Joames da Cordelaria Chapada do Corisco e Raimundo Clementino.
6 - O Estado do Piauí através das esferas administrativas tem dado ao Cordel suporte ideal para seu desenvolvimento?
A meu ver o cordel não tem apoio estatal em quase nenhum lugar do país. Desde 2019 estamos tendo um espaço para o Cordel no Salão do Livro do Piauí que não tem vínculo nenhum com o estado, mas deu apoio ao Cordel e aos cordelistas e fez um bom trabalho. Por outro lado, se o governo do Estado fosse dar suporte a tudo quanto é organização, seria bem complicado porque é muita coisa, tem pintura, tem dança, tem música e tantas outras artes. O governo do estado instituiu desde o ano passado a bolsa vitalícia mestres de Cultura para o pessoal que realmente prova ser mestre, mas isso engloba a cultura de um modo geral e claro que podem ser contemplados também alguns cordelistas e cantadores de Viola pra fazerem parte disso, afinal são cultura popular.
7 - Como o senhor avalia a abrangência do Conselho de Cultura do seu Estado?
Há oito anos faço parte do Conselho Estadual de Cultura e nacionalmente é declarado como um dos conselhos mais atuante. Temos sede própria e recentemente fizemos o plano estadual de cultura, coisa que poucos estados fizeram. Conseguimos fazer valer a lei dos Mestre de Cultura, tem estados que são apenas três por ano, nós em dois anos conseguimos emplacar 60 mestres. Além disso, temos muitas outras ações, patrimoniais, principalmente. A gente sempre encampa lutas e entra com projetos para a preservação material. Estamos sempre sugerindo ao IPHAN, questões de imaterialidade. E leis também, essa lei do mestre de cultura foi feita pelo conselho e chama-se Lei do Patrimônio Vivo. E estamos sempre encampando ações em prol da cultura do nosso estado. Durante a Pandemia tivemos lives culturais, temos teatro e mais diversos outros projetos, por isso que o nosso conselho é muito bem visto a nível nacional.
8 - A Procissão das Sanfonas, é um evento que nasceu através da iniciativa da Criação da Colônia Gonzaguiana de Teresina? Ela já teve algum dos seus eventos cordelizado?
Não. A Procissão das Sanfonas foi criada por Reginaldo Silva, Wilson Seraine e Vagner Ribeiro, muito antes da Colônia Gonzaguiana. Ela é ligada diretamente à vida e obra de Luiz Gonzaga, por isso ela acontece no dia 02/08, dia da morte do rei do Baião. Não temos, ainda, um tema cordelizado, mesmo porque quando a gente fala em Luiz se abrange Gonzaga como um todo e alguns fatos relevantes são relembrados com motes, mas com relação ao Cordel ainda não. Mas foi bom você ter colocado a questão, quem sabe no ano 2023 a gente pensa em incluir um grande cordelista para fazer parte da temática da Procissão das Sanfonas.
9 - Como pesquisador do Cordel o senhor tomou posse na Academia Brasileira de Literatura de Cordel em 2018. Na sua concepção o que representa para universo do Cordel o Cearense Gonçalo Ferreira da Silva?
Gonçalo Ferreira da Silva é um marco não só para o Cordel, como para a cultura brasileira como um todo. Ele criou a Academia Brasileira de Literatura de Cordel no Rio de Janeiro e a sua obra é marcante, tem abrangência e penetração. Já foi estudada em muitas Universidades e traduzida para vários idiomas, já virou tema de dissertações, TCCs e monografias, enfim, Gonçalo é um nome gigante não só do Cordel, mas da cultura brasileira em sua totalidade. No cordel ele é o número 1. O maior nome vivo do Cordel.
10 - Até que ponto seus passos de Professor se fundem com passos do cordel?
Eu não sou cordelista e como professor de Física não é fácil, mas eu já utilizei cordéis sim em exercícios com os alunos, às vezes até para identificar equívocos em alguma informação ou também para promover discussões em sala de aula sobre Física e Radioatividade. No livro: "A Radioatividade em Literatura de Cordel", a gente deixa aberta essa discussão em uma página para que cada professor por si só, faça discussões em sala de aula.
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Biografia: Wilson Seraine da Silva Filho nasceu em Teresina, capital do Piauí, em 29 de abril de 1966, filho de Wilson Cavalcante da Silva e Maria de Jesus Seraine da Silva. É professor, produtor cultural, memorialista, pesquisador, escritor e apresentador do programa semanal “A Hora do Rei do Baião” na FM Cultura de Teresina. Formou-se em Licenciatura Plena em Física na Universidade Federal do Piauí UFPI em 1988. É especialista em Proteção Radiológica em Aplicações Médicas, Industriais e Nucleares pela Faculdade Casa Branca/São Paulo. Concluiu Mestrado em Ensino de Ciências e Matemática pela Universidade Luterana do Brasil Ulbra/Rio Grande do Sul. Doutorando em Engenharia Nuclear no PEN/COPPE/UFRJ. Desde 1994 é professor de física do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Piauí (IFPI). É autor de 14 livros nos segmentos de educação e cultura popular, membro da Academia Brasileira de Literatura de Cordel, membro da Academia Brasileira de Letras e Artes do Cangaço, membro efetivo do Conselho Editorial da Editora da Universidade Federal do Piauí, desde 2018, membro efetivo e perpétuo da Academia de Ciências do Piauí e integra o Conselho Estadual de Cultura do Piauí, desde o ano 2012.
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