Nota do Editor: "(...) esta matéria, em referência, é um marco histórico inigualável. Chegou até a nossa plataforma através da imortal APB, Dione Mara Souto da Rosa, parente do Visconde de Souto, sem dúvida um marco tanto sócio-cultural quanto econômico, no Brasil. O jornalista Aroldo Murá, excepcional como sempre, traça uma biografia completa dessa história. O facetubes publica uma pequena parte. Mas, mesmo assim, o leitor terá ideia da grandiosidade tanto do Visconde, mas e principalmente, do Mecenas das Artes Brasileiras, Francisco Souto Neto. Deliciem-se, caros leitores." (Mhario Lincoln é editor-chefe www.facetubes.com.br).
Texto resgatado de: Aroldo Murá G. Haygert
(Enviado por Dione MS Rosa).
Não exagero, examino Francisco Souto Neto no mundo real em que viveu e vive. Nem sou hiperbólico, nem o comparo a Júlio II e/ou assemelhados. Sendo fiel ao que vi em Souto, sei que ele foi um mecenas no seu tempo e no nosso universo local. O que não deixa de ser bastante e importante.
Histórico. Isso foi.
Tento, com algum esforço, ficar dentro do possível neste mundo real em que o crítico de artes plásticas e animador cultural Souto Neto foi revelando e consolidando o seu mecenato, tendo por cenário maior o antigo Banestado em boa parte dos anos 70 a 90 do século 20, em Curitiba.
E por isso, e outros tantos motivos, examino o personagem com a raridade que de fato encarna: alguém que enxergou além do imediatamente visível no âmbito essencial da cultura. Não é essa, porventura, a qualidade que distingue pessoas com brilho muito próprio?
Com sua clara visão de futuro, ele foi utilíssimo a novas gerações de escritores, teatrólogos, músicos, artistas teatrais, e muito especialmente ao mundo das artes plásticas do Paraná. E alguns nomes consolidados, como Sylvio Back e Poty Lazzarotto.
Transe
O setentão de hoje mantém-se ativo, olhar forte, perscrutador de suas áreas de interesse. Nada parece passar-lhe à frente “gratuitamente”. Esses exercícios do homem de bom gosto e boa formação cultural se expressam agora em ritmo mais comedido, é certo. No entanto, com igual vigor psicológico / espiritual de dias passados.
Por momentos, vejo-o a examinar pausadamente as paredes do salão em que o entrevisto. Elas estão tomadas por telas a óleo e desenhos de artistas paranaenses, motivo suficiente para Souto me dar a impressão de que vivia um tipo de transe. Na verdade, um transe – imersão profunda e desligamento do mundo ao derredor – não raro entre os acostumados a contemplar artes.
Não mora mais nele o quarentão que pegou o peão a unha, quando convenceu presidentes e diretores do Banestado – o complexo bancário estadual do Paraná – de que haveria muito lucro para a instituição se ela apostasse em promoção cultural. Seus superiores eram basicamente homens do terra a terra, das cifras, dos números, dos lucros e perdas. Houve entre eles poucas exceções. Ele as registra, por honestidade.
Foto: Membros da Academia de Letras José de Alencar. Souto Neto ocupa a cadeira patronímica nº 26, de Emiliano Perneta. [A partir da esquerda: Dione Mara Souto da Rosa, Francisco Souto Neto, João Carlos Cascaes, Anita Zippin, Rubens Faria Gonçalves, Tânia Rosa Ferreira Cascaes, Hamilton Bonat e Celso Portugal].
Quem lucra?
Mas a maioria do alto escalão do banco era o tipo de gente que está sempre a se perguntar, como os latinos: “Cui Bono”, esperando lucros financeiros a cada gesto.
A pressa dessa fauna humana por lucros financeiros foi, no entanto, dobrada pela fala diplomática, a paciência meio beneditina, a catequese de quem se criara numa casa dominada por pais inteligentes, ligados à necessidade de conectar-se às dimensões do espírito e transmitir essa realidade aos filhos.
No lar de Souto, a fome d’alma seria sempre saciada. Um dos primeiros exemplos que o ainda menino observou foi a participação do pai em conselhos e direções de entidades culturais. Posições que depois, com a morte dele, Souto seria chamado a assumir, prosseguindo naquelas atividades voluntárias.
No jornal
Meu convívio com Francisco Souto Neto foi quase sempre cerimonioso, até. Ao abrigá-lo no Jornal Indústria & Comércio – cuja redação eu dirigia e na qual ele marcaria toda uma época com suas colunas sobre artes plásticas –, fui sendo introduzido ao ser humano que se mantinha alerta e maravilhado com as manifestações de espírito.
Foto: Vampirelle (personagem de Isabelle Aguilar), indica o livro de seu tetravô!
Nele encontrei não apenas uma alma boa, um cavalheiro, mas alguém disposto a decifrar as pisadas de uma geração que queria se expressar artisticamente. Nisso foi um mecenas, como poucos encontrei.
O fato de Souto abrir-se e abrir as portas do departamento cultural do Banestado aos novos valores não significou estar fechado aos chamados “antigos”. Poty, por exemplo, foi um dos primeiros e fortes objetos de suas atenções, me lembro bem. E mais: o aval que a querida amiga Adalice Araújo dava às ações de Souto Neto foi apenas mais um reforço a uma certeza minha: as páginas do jornal estavam, com ele, ajudando a escrever momentos singulares da vida paranaense.
Com o jornalista Rodrigo de Lorenzi promovi uma ampla entrevista com Souto, que aqui segue. Seguem igualmente observações e novas opiniões sobre o crítico de artes plásticas. E muito recomendo a leitura também, das aventuras do Visconde de Souto, trisavô de Francisco.
O LIVRO EM HOMENAGEM AO VISCONDE
Foto: O Visconde de Souto, trisavô de Francisco Souto Neto, em detalhe de óleo sobre tela de A. R. Duarte (1890), acervo da Beneficência Portuguesa, Rio de Janeiro.
Entre 2007 e 2013, em coautoria com sua prima Lúcia Helena Souto Martini, Souto escreveu a biografia de seu trisavô, o Visconde de Souto (1813-1880). Embora a obra permanecesse inédita, teve capítulos publicados na Revista do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro e na Revista do Instituto Histórico e Geográfico do Rio de Janeiro, e tornou-se um capítulo da série “Detetives da História”, apresentada pelo canal internacional The History Channel. O Visconde de Souto nasceu na cidade do Porto, em Portugal, e veio sozinho ao Brasil aos 15 anos, em 1828. Começou trabalhando na empresa Ferreira & Cohn, mas logo se estabeleceu por conta própria. Por volta de 1838, passou a dar à sua empresa o aspecto de um banco, tendo ele se tornado o primeiro banqueiro particular do Brasil. Sua casa bancária ficou popularmente conhecida como Casa Souto. Nos primeiros anos da década de 1840, a Casa Souto competia com o Banco do Brasil em carteira de depósitos: eram os dois bancos mais poderosos do Império.
Naquela época, ainda conhecido como Comendador Souto, comprou uma enorme área contígua à Quinta Imperial da Boa Vista e lá mandou construir uma mansão para ele e sua família, que ficou conhecida como Chácara do Souto. Em um dos extremos da propriedade chegou a formar um jardim zoológico, importando animais de três continentes.
Pela primeira vez os brasileiros puderam ver elefantes, leões e ursos. Tornou-se amigo de D. Pedro II, que o visitava em casa. Acompanhando os prodígios do Comendador Souto em terras brasileiras, o rei de Portugal, D. Luís I, criou o título Visconde de Souto por decreto, em 12 de dezembro de 1862, e outorgou-o ao ilustre portuense. Ele ainda foi fundador da Junta de Corretores que deu origem à Bolsa de Valores do Rio de Janeiro, fez parte da primeira diretoria da Caixa Econômica e presidiu a Beneficência Portuguesa. Numa outra chácara, na atual Floresta da Tijuca, mandou construir um oratório, hoje conhecido como Capela Mayrink, nome do seu último proprietário.
O Souto quebrou!
A Casa Souto faliu em 1864. Segundo Arthur Azevedo em Contos Ligeiros, “supor naquele tempo que o Souto quebrasse era o mesmo que acreditar na quebra do Pão de Açúcar”. Essa falência abalou o Brasil e foi noticiada até em remotos países como Nova Zelândia e Austrália. Uma comissão de inquérito concluiu pela inocência do Visconde na quebra da Casa Souto. De tão comentada, até papagaios, que tanto ouvir, aprenderam a repetir: “o Souto quebrou”! Mais de 600 livros compõem a bibliografia com referências ao Visconde e à Quebra do Souto. Entre elas, há citações ao Souto feitas por Machado de Assis, José de Alencar, Lima Barreto, Barão de Mauá, Barão do Rio Branco, João Calmon, Sérgio Buarque de Holanda e outras centenas, inclusive dos modernistas Manuel Bandeira e Carlos Drummond de Andrade.
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