Muitas coisas vão lembrar o Jô pelos programas de TV, palcos etc. Mas somente um pequeno grupo privilegiado de pessoas conseguiu privar da intimidade dele e conhecer o apartamento em que passou os últimos anos de sua vida, longe da TV.
O endereço: um prédio de esquina na Praça Esther Mesquita, no aristocrático bairro de Higienópolis, em São Paulo. Jô estava cercado de muitas obras de arte e uma biblioteca com inúmeros livros clássicos. Dentro desse apartamento de dois andares, tinha, além do escritório e ateliê, uma barbearia e uma capelinha.
Nesses seus 84 anos, 6 meses e 20 dias (ele faleceu neste 05.08.2022), a vida lhe proporcionou alguns momentos muito bons. José Eugênio Soares era natural do Rio de Janeiro. Único filho do empresário Orlando Heitor Soares e da dona de casa Mercedes Leal Soares. E por ter condições, passou parte da adolescência na Suiça.
Mas, depois que os negócios do pai fracassaram, ele e a família voltaram ao Brasil. Foi aí que procurou o pessoal do teatro para mostrar seus pequenos shows. Daí para o cinema foi rápido. Estrelou “Rei do movimento” (1954), “De pernas pro ar” (1956) e “Pé na tábua” (1957). Naquele princípio de carreira cinematográfica, destacou-se, como ator, na chanchada “O homem do Sputnik” (1959), de Carlos Manga.
Estreiou na TV em 1958, participando do programa “Noite de gala”. Logo destacou-se também como roteirista e passou a escrever para o “TV Mistério”, cujo elenco era de fazer inveja. Tinha Tônia Carreiro e Paulo Autran. Isso, na TV Rio. Ainda teve participação em “Noites cariocas”. Em seguida, escreveu e atuou em humorísticos da TV Continental. A partir daí, o Mundo o conheceu e aplaudiu.
Vamos falar do lugar onde acontecia a mágica. Seu apê no aristocrático bairro paulista, Higienópolis. Jô passava a maior parte do tempo em seu escritório, no andar abaixo do seu. (O prédio é 1 apartamento por andar). Lia, escrevia, desenhava, assistia à filmes.
O que chamava a atenção dos amigos que o visitavam era a decoração sofisticada por misturar estilos. Ele gostava imensamente de ficar relaxado na poltrona feita com bichos de pelúcia dos designers Irmãos Campana. Várias telas estavam nas paredes. Uma delas, levava a assinatura do artista da pop art Roy Lichtenstein. Tudo isso rodeado de sofás brancos. As paredes eram revestidas de madeira. Ainda se via ao fundo, um piano de cauda preto. Muitos porta-retratos e brinquedos clássicos, como carrinhos de metal. E como todo artista, Jô tinha uma peça incrível, na sala, um pouco maior que ele. Um Super-Homem em tamanho real.
As pessoas mais chegadas ao artista confidenciavam que vivia somente com os empregados de muitos anos, inclusive seu motorista que o levava à paróquia de Santa Rita de Cássia, da qual ele era devoto, no Pari, distrito operário da capital paulista.
A notícia do falecimento do humorista foi tornada pública através de sua ex-mulher, Flávia Pedra, hoje casada com a cantora Zélia Duncan. Jô teve um único filho chamado Rafael, portador de autismo, falecido aos 50 anos, em outubro de 2014.
O que fica? Uma abundância de talento, de classe, de inteligência. Sem dúvidas um dos últimos homens públicos de carisma real.
Jô disse: "Quando meus pais perderam tudo e sairam do Copacabana Palace fomos morar num quartinho alugado na praia do Juno. Lembro de meu pai chegando em casa e dizendo: 'amanhã teremos comida. Depois, eu saio para batalhar de novo'. Meu pai e minha mãe eram incríveis e trabalhadores. Não posso ter crise existencial com esse exemplo. Eles eram quase hyppies (...)".
E finaliza assim: "Medo da morte é um sentimento inútil. Um dia pergutaram para Chico Anísio se ele tinha medo de morrer. Ele respondeu: não, tenho pena! (...)".
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