Estou encantada com as novas músicas do Djavan e foi impossível escutá-las somente uma vez e não me contentei em apenas observar as impressões que obtive e não as compartilhar...
Keila Marta
Secretária regional da Academia Poética Brasileira/Seccional - Maranhão
A música brasileira, é sem dúvidas uma das mais ricas em diversidade e qualidade que existe, uma vez que sempre acompanhou a evolução no que houve e há de melhor nesse meio. Com diversas influências, seja da cultura europeia, indígena e africana, perpassando por diversas gerações e estilos, como o Samba, Choro, Bossa Nova e Música Popular Brasileira, foi formando uma linhagem de grandes compositores, letristas e intérpretes.
E assim é Djavan, um artista completo no quesito música, como cantor, compositor, arranjador, produtor musical, empresário e violonista, partícipe da abrilhantada geração que formou a nobreza da música popular brasileira, como bem citou o crítico de música Zuza Homem de Mello¹ em um curta-metragem. E, entre fortes elogios e discordâncias, o artista coleciona 25 anos de carreira, recheada de sucessos e a sua grande proeza se trata em transformar o difícil em fácil e conseguir registrar na memória do público de massa, letras e melodias bem trabalhadas, que carregam uma mistura do “simples” com o “complicado”. Mas, o fato é, algum brasileiro já teve um momento marcado por uma das canções do Djavan.
Passados alguns anos sem publicações inéditas e após a fase crítica da pandemia de covid-19, Djavan lança o álbum D, falando de amor e esperança com leveza e alegria, ao passo que propicia reflexões e abre possibilidades para pensar sobre situações quase banais ou aquelas mais desafiadoras que permeiam a vida, a exemplo da letra de Primeira estrada, em que o sujeito lírico fala de situação de paixão e em alguns trechos sugerem tanto um simples término de namoro, ou uma despedida que sinaliza o fim da vida,
Imploro pra você ficar,
Quem disse que fica?
Não fica.
[...]
Você se vai sem razão e leva o caminho
De vez...
Assim, D se configura numa sequência composta de 12 músicas que resgatam o bom hábito de apreciar o que é bonito de ouvir e ver (no caso daquelas registrada em clipe). Cada uma das faixas em separado tem suas particularidades, mas quando ouvidas sequenciadas percebe-se uma narrativa espetacular. A começar pela capa, ligeiramente óbvia, simples, mas bem-produzida que apresenta força, a expressividade e a subjetividade inerente ao artista. Quando se olha a capa, o que primeiro chama atenção são os pés, posicionados num passo largo e firme, permitem fazer dentre muitas, a seguinte leitura: o pé de trás simboliza o passado; o pé a frente, o presente; o olhar levemente para o alto, o futuro; e a sombra indica certas características e qualidades que o acompanha e passa por determinadas circunstâncias sem se modificar em essência. E vale destacar que o pé de trás passa a impressão que ele vem com um peso necessário para dar o passo seguinte sem bambear (o peso cultural), e o interessante é visualizar a imagem da esquerda para a direita, de baixo para cima.
Seguindo por essa linha, o álbum se desenrola entre calmaria, música lenta, um pouco triste, seguida de uma outra mais leve e animada, com pegada mais dançante e esse movimento se repete até a última, de modo que a primeira faixa dar prosseguimento a mensagem da capa, e funciona como uma introdução contada de forma dramática e a segunda “Num mundo de paz” se apresenta quebrando os efeitos que a anterior possa ter causado, e num todo essa sequência sai dos limites internos e dialoga com o que vivemos entre 2020-21 nos momentos incertos e aprisionantes provocados pelo coronavírus e que após as vacinações e outras medidas o mundo passou a respirar melhor e as pessoas de forma em geral passaram a dar mais valor a certos hábitos que antes funcionavam no automático.
Vem ver a tarde, amor
Nunca tal esplendor
Fez-se notar com tanta resolução
[...]
E aí pensar
Em tudo o que se vai fazer.
E avaliando o entorno das coisas
Abstrair
O que só nos faz perder
Pra que você possa me olhar
E querer tudo de novo
E contar com o que vai ter
e no sal de um beijo novo
Ter motivo pra viver
Por caminhar em duas linhas complementares, a história vai ganhando corpo de tal forma que há um ponto alto em relação ao conflito, que é marcado pela sexta música Beleza Destruída, gravada com a participação marcante do Milton Nascimento, onde é descrito o caminho para o caos, mediante a relação conflituosa do homem com a natureza e que pode ser o fim, e há um outro, quanto a felicidade, em Sevilhando, que revela a importância do negro, o impacto e a representatividade das vozes negras, a exemplo dele Djavan e do Milton, é uma música que toma o ouvinte de boas sensações, e possui uma mensagem marcante, logo de início, /Andaluz é o mar/ E o negro nosso trigo/Cantam pra confirmar/amor em cada abrigo/Onde os dois proclamam/Que só quem ama não teme o perigo e um outro trecho ainda mais divino /Ao se falar de vida/ Vê-se o quanto é tão sério/nada mais é a vida sede de um grande império (expressão que dialoga com a vestimenta de Djavan na foto da capa)/Deus é quem dá o caminho/Mas as pernas são as suas/trate de vencer/A tudo quanto for subida/Decida e o desfecho é uma celebração de muitas vozes ao som de Iluminado, que desperta para fazer o bem sem esperar retorno.
Fazer o bem
É sempre uma coisa dada
Sem esperar nada
Sem olhar a quem
Vamos sorrir
Pra não cair em cilada
Quem não rir de nada
Não sabe o que tem
Enfim, D é o resultado de uma produção requintada, uma sonoridade arrojada, com a combinação de instrumentos de corda (violão, guitarra e baixo), de sopro (flauta, saxofone, trompete, trombone de vara) e percussão. É a síntese do aperfeiçoamento, pois Djavan é exemplo vivo, do quanto as experiências culturais somadas ao talento, forma um humano sofisticado, forte, capaz de não renunciar à simplicidade e os valores que o mantém ligado às origens.
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Nota: Fala registrada no curta-metragem de Jorge Bodanzky por Zuza Homem de Mello, disponível em: https://youtu.be/xVJxMBUiSMs
Letra de músicas e imagem retiradas da discografia do Djavan disponível no site: https://djavan.com.br/discografia/d/
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