Nota do Editor: o Professor, poeta, escritor, militante cultural enfático, Dino Cavalcante, nos brinda hoje com uma crônica ao mesmo tempo curiosa e saudosa - para quem conviveu com uma figura quase estranha "um menino", como disse certa vez o intelecual José Sarney - sobre Rei dos Homens. Eu mesmo assisti a um ato insano com ele, no velho/novo/destruído abrigo da João Lisboa, centro de São Luís-MA. Certa ocasião, uma "patota" bastante conhecida pelas suas bagunças, num final de madrugada dessas, se encontrava reunida na loja do caldo de cana quando Rei dos Homens apareceu pedindo que lhe comprasse um copo com pão. O líder do grupo respondeu afirmativo, desde que ele sentasse em um formigueiro (ao pé de um arvoredo a alguns metros). Rei topou. E alguém gritou. Mas tem que ser só de roupas íntimas. O pedinte já se preparava para tirar as roupas e sentar no formigueiro, quando uma boa alma (o jornalista Ribamar Bogea, dono do Jornal Pequeno), que sempre ia ao abrigo após o fechamento da edição do dia, intercedeu e pagou o caldo de cana com pão, sem a necessidade de expor a figura ao ridículo. Essa eu assisti, caro Dino. Na verdade, são COISAS QUE MARCAM, nova seção criada aqui no nosso Facetubes, como marca igualmente este belo texto abaixo transcrito. Obrigado, amigo. Volta sempre:
Figuras Maranhenses: Rei dos Homens
Dino Cavalcante (https://dinodealcantarablog.wordpress.com/)
São Luís sempre foi uma cidade que teve (e ainda tem) muitos tipos singulares. Trata-se de homens e mulheres com uma particularidade que os torna visíveis, ainda que sejam pessoas pobres, excluídas, etc.
Um dos tipos mais conhecidos em São Luís do Maranhão foi, sem dúvida, Ivanaldo Godinho Oliveira, o famoso Rei dos Homens.
Era um tipo que andava geralmente com paletó e gravata, às vezes com duas calças, outras vezes, não usava o paletó, mas colocava duas, três camisas. Caminhava entre o Hotel Central e o Abrigo da João Lisboa, às vezes com um jornal dobrado debaixo do braço. Muitos atestavam que ele não sabia ler nem escrever, mas os que o conheceram na intimidade garantem que lia bem. Aos passantes, pedia um dinheiro ou um cigarro.
Foi tão conhecido e popular, que Zé Sarney dedicou um dos seus textos publicados na Folha de S. Paulo a ele – “Rei dos homens é um menino”: https://www1.folha.uol.com.br/fsp/opiniao/fz2412200407.htm
Segundo o cronista, “Rei-dos-Homens se dizia enviado de Deus e era em seu nome que vivia e pregava. O coitado era alvo de chacota geral, com aquela quantidade de roupas e cumprindo sua missão de pregar na porta das igrejas. Ele misturava as coisas. Dizia que São José era coronel da polícia, São João fora visto tomando banho de mar na praia dos Lençóis”.
Um dia, Rei dos Homens dizia a todos os seus conhecidos no centro de São Luís e no Monte Castelo, onde morava, que ia fazer uma campanha:
“Rei dos Homens vai fazer uma campanha. Se cada brasileiro der um real a Rei dos Homens, ninguém fica liso, e Rei dos Homens, milionário!”
Hoje Rei dos Homens é uma figura de nossa história, da nossa memória cultural!
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