Convidada: Natércia Moraes Garrido é professora, escritora e crítica literária.
Obs: Natércia Moraes Garrido foi indicada para receber a Comenda "Gonçalves Dias", alta condecoração da Academia Poética Brasileira (para não membros), por resgatar a memória (impressa) do ativista cultural, escritor, poeta e pesquisador maranhense Nascimento Moraes Filho.
Theotonio Fonseca é um poeta maranhense contemporâneo e veterano na escrita, cuja bibliografia tem se expandido de modo bastante prolífica desde 2014. Suas obras publicadas incluem: Poemas itapecuruenses e outros poemas (2014), O batucajé das Iaras (2016), As bodas de Sapequara (2021), Recital do sol na sagração da aurora (2022), Autobiografia de um sabugueiro (2022) e Prelúdio da lua na dormição da noite (2022). Este último tive a honra de prefaciar e o texto crítico compartilho com vocês a seguir. Alerto, de antemão, que a poesia de Fonseca está longe de ser aceita e compreendida em uma única leitura; não. Ela precisa ser dormida, sonhada e regurgitada para que os leitores possam aportar no cais profundo que impregna o ser humano: a reflexão de si mesmo.
O poeta francês Stephane Mallarmè alguma vez disse que a poesia é uma construção de per si, explicando que a lírica de um poeta constrói-se pela linguagem e mundo que ele determina para si. Espaços, silêncios, o retorno às origens: o que existe antes de Homero, que nos deixou de presente sua épica “Odisséia”? Existe um outro tempo, um tempo mítico, em que poesia e pensamento, ciência e mistério são uma só coisa.**
A modernidade poética nos faz ir além do conceito que um dia determinamos como belo e prazeroso, pois ao adentrar no século XX, o poeta constitui a visão afora por excelência, ao refletir sobre o caos e dele extrair a amálgama que une o pútrido ao viçoso. Theotonio Fonseca, em pleno século XXI, nos brinda com o desafio de propor um imaginário pleno de vivências, denúncias, mazelas e sim, esperanças. Não é porque nos deparamos com um eu lírico feroz, atormentado e denunciador que não conseguimos enxergar beleza na jornada da dor e da reconstrução.
O presente livro Prelúdio da lua na dormição da noite, para além do trabalho instigante e burilado com a linguagem, vem propor dois caminhos investigativos de leitura: o da música e o do épico. Poesia é música. Lirismo é som e ritmo. E é como uma melodia que se transmuta ora suave, ora célere, que a lira das vozes poéticas se manifestam, muitas vezes disposta timidamente nas extensas composições dos versos e escolhas sibilantes dos vocábulos (“salmodia ao crepúsculo, saudação à soturna sinfonia”), ou explicitamente disposta nos títulos de alguns poemas, como “Allegro ma non tropo” e “Oboé d’amore”.
Mas essa poesia persiste no épico, tanto em referências que desafiam qualquer bom leitor clássico – como o mito de Polifemo, como a própria Odisseia – quanto no significado tantas vezes pensado sobre a busca humana em direção à sua glória pessoal. As vozes poéticas desses textos são errantes, tal qual o Guesa de Sousândrade, e solitárias, deslocadas no percurso de sua busca identitária – elas sabem que o mundo não as recebe como deveria; elas terão que lutar para rasgar a veia que lhes humaniza. São EUs que, na incessante busca de si mesmos, seguem experimentando e sorvendo o mundo inebriante que os flagela.
O imaginário épico de Theotonio Fonseca se desvela a nós com a presença constante de monstros e ninfas e elementos do nosso próprio folclore como o cazumbá, a exemplo do poema “A epifania do cazumbá”. Ao unir reveses antigos aos atuais, como a luta do povo negro, percebemos que o homem só alcança redenção ao aceitar e envergar suas raízes. Exemplos disso são os belos “O despertar de Palesa” e “Vencidos e Degenerados”.
Theotonio Fonseca não nos poupa um só minuto da mensagem que insiste em propalar por meio de seu EU mais profundo: estamos sós e nossa ancestralidade poderá nos salvar de um futuro cada vez mais aterrador. O épico nesta obra como um todo se dedica a nos mostrar como as areias do tempo varrem a humanidade, ensejando um homem destinado à eterna busca solitária de si mesmo.
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** FRIEDRICH, Hugo. Estrutura da lírica moderna. São Paulo: Duas Cidades, 1978.
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