Pandemia, Rogério e Derrida
* Mhario Lincoln
A singularidade deste poema do imortal APB Rogério Rocha, filósofo dos bons desta nova geração do século XXI, atrai análises enormes, em função da narrativa poética na plenitude entre o transcendental e a poesia, fazendo com que o leitor siga uma linha tênue entre a visão tempestuosa da cena e a realidade do momento pós-embrionário de " ...um quase Apocalipse".
Aliás, um poema à base do pensamento de Jacques Derrida? Juro que pensei nisso por causa desse tom apocalíptico.
Rocha inclui, também, elementos não-filosóficos e transcendentais, bem intrínseco ao discurso filosófico.
Desta forma, a plástica do poema rogeriano nos faz repensar Derrida, na imersão entre a razão-mito-poesia. Sendo o incerto, naquela ocasião pandêmica, como usurpação das potências racionais e libertárias do ser humano.
O POEMA:
ROGÉRIO ROCHA é membro-efetivo da Academia Poética Brasileira
UM QUASE APOCALIPSE
Ando pelas ruas vazias;
as pessoas estão em suas casas.
Consegui desatar as minhas
amarras.
E persigo alguma face
como que perdido
em meio a todo esse
desastre.
Os sinais de trânsito piscam
intermitentes.
Nas rotatórias da vida não há mais carros.
Bares e casas noturnas já não nos perturbam
(é morta a algazarra).
Nas praças e bairros não vejo gente
mas sei que lá dentro dos muitos lares
há um mundo que pende em suspenso,
com medo, indeciso, ansioso.
Na jornada que faço
nos rumos de uma
noite morta
sinto o vento morno
em meu rosto nervoso
e recebo seu abraço
amoroso
enquanto
respiro
mais fundo do que em verdade é preciso.
Nas tv’s cobram-nos juízo,
mais isto e aquilo e aquilo.
Os noticiários anunciam
um quase apocalipse.
Mas não reclamo nem sofro:
sobrevivo.
E antes que penses em clamar por meu nome
ou investigar minhas entranhas
atrás de algum sentido não demovível
apresso o passo e corro mais rápido
que qualquer sentimento ruim.
Antes que as bombas explodam
no instante invisível
de um mundo incompreensível
que parece chegar ao fim.
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