
A COR DA PALAVRA
“Há que se juntar cada palavra”
E se as palavras tivessem cores?
Isso mesmo! Você digitaria uma palavra no seu notebook ou celular, e ela ― pum! ― surgiria em sua respectiva cor. Essa escrita ainda não é tecnicamente possível. Por enquanto, só o velho e cansado “negrito”. Mas a tecnologia pode dar um jeito nessa aspiração. E aí, uma dúvida improvável: de que cor seria a palavra “amor”?
Convencionalmente, amor seria vermelha. Mas nem tudo são flores no jardim das palavras. E, assim, parece inevitável a criação da OMP (Organização Mundial das Palavras), porque nem todas nascem com o DNA da cor como “sangue”, “floresta” e “leite”.
“Sol” seria amarela ou branca? A olho nu, o Sol é amarelo. Para a ciência, branco. E aí só mesmo elaborando o VCLP (Vocabulário Colorido da Língua Portuguesa, similar do VOLP, da ABL). E, nele, a classe das genéricas, para as de difícil definição, como “tempo” e “vento”.
Se ainda não têm cores, as palavras sempre tiveram “espírito” ― parte “inteligente e sensível” em cada entidade lexical. Por essa razão, falamos em “espírito da obra” e “espírito da lei”. Como esse espírito já provou ser suficiente para as línguas, às favas com as cores!
Na tradição judaico-cristã, as palavras surgiram do “nada absoluto” mediante um comando de Deus: “Haja luz!”. E a luz brilhou por causa da ideia de existência implícita no verbo “haver”. Em seguida, o Criador conferiu à criatura a missão de nominar tudo a sua volta. Em seu primeiro ato, Adão chamou sua companheira de Eva, a “mãe de toda a humanidade”. Ao mesmo tempo, o homem se descobriu com a faculdade de “pensar, ouvir e falar” ― marca que nos diferencia dos outros animais.
Agora imagine esta cena: depois de caminhar por dias no deserto, uma pessoa está exausta e sedenta. Adiante vê uma placa com uma seta: OÁSIS. Qual será a sua reação?
Não há como negar que a palavra é tudo. Porque tem. essa relação intrínseca com o universo dos sentidos. Vivemos ― no dizer do poeta Cassiano Ricardo (1895-1974) ― numa “ilha cercada de palavras por todos os lados”.
E se Deus nada tivesse dito? Teria criado tudo apenas com a sua boa intenção? Difícil responder. Fácil mesmo é provar que Deus não é apenas esse “cara gozador” da música de Chico Buarque, mas um “falador” compulsivo. O que mais se vê na Bíblia é: “Disse Deus”; “E assim falou o Senhor”. Seis milênios depois ― num outro viés ―, o professor israelense Yuval Noah Harari ressalta a habilidade de “fofocar” dos sapiens como determinante no desenvolvimento da linguagem falada.
Dizem que as palavras rodam por aí desde que houve luz (e com ela, as cores) na terra. Sem fronteiras, sem barreiras culturais ou intelectuais ― vivinhas da silva, no palco da interlocução. Nas páginas da ficção, fantasiadas do “Ler para crer”. Nos livros didáticos, apadrinhadas pelo “Penso, logo existo”. Nos rabiscos do aluno aplicado, desalinhadas; e "corretinhas da silva" na redação do ENEM.
Há muito queria escrever sobre a “palavra”. Esse anseio agarrou-se às páginas de “REDAÇÃO, PALAVRA & ARTE”, de Marina Ferreira (Atual Editora/2010) ― um tesouro de valor inestimável para estudo e fruição de textos inspiradores. E incrementou-se com um “discurso forte, penetrante, bem-articulado”, no conceito de Roland Barthes.
Essa percepção se destaca nas cores do verso na epígrafe deste ensaio. De forma magistral, João Batista do Lago esboça a ideia de utilidade da palavra no poema “Dialética da Sarjeta”, de seu livro “50 TONS DE PALAVRAS”.
Na Literatura, dois pontos se entrelaçam: a inspiração do autor e sua habilidade em dar asas à sua imaginação. E, aqui, convém salientar as palavras de Jean Paul Sartre: “Ninguém é escritor por haver decidido dizer certas coisas, mas por haver decidido dizê-las de determinado modo”.
Infelizmente, não é o que se percebe em muitos textos que circulam nas redes sociais e em alguns livros. Ideias mal-arranjadas como se fossem Literatura. Em versos turvos, prosa recortada para forjar um poema. Contos que não contam uma história ficcional, crônicas que mais parecem uma piada de salão.
Sinto inveja ao ver pessoas escrevendo com a facilidade e a frequência de quem faz uma lista de compras para o supermercado. Talvez motivadas por essa ânsia de ganhar “carinhas e palminhas” nas redes sociais. Felizmente, essa genialidade não me vê com bons olhos. Demoro-me em concluir um texto literário ― desconfiado de que está faltando ou sobrando alguma coisa. E haja coisas e sobras.
O prof. Fernando Novaes sempre me alerta para o fato de que “Literatura é a arte da palavra escrita esteticamente” (o advérbio é enfático, um gaiato no navio). De pleno acordo, Latino Coelho (1825-1891) ratifica: “De todas as artes, a mais bela, a mais expressiva, a mais difícil é, sem dúvida, a arte da palavra”. Sabiamente, o filólogo e ensaísta português dispôs “difícil” após as afetuosas “bela” e “expressiva”. Sua intenção era valorizar a habilidade em realçar as palavras como quem tece um tapete oriental.
Apesar disso, alguns abusam da disponibilidade da palavra, tentando inventar o que já está inventado. Um caminho torto em busca de uma notoriedade que entedia o leitor competente. Acho que nem Olavo Bilac nem Ruy Barbosa ousaram tanto em termos de “joguinho” com a linguagem escrita. Na opinião do prof. Jáder Cavalcante, “Até para brincar com a palavra é preciso conhecer sua morfologia, sua semântica, e a sintaxe da oração onde está agasalhada. Não é algo tão simples como chupar um pirulito”.
Rebatendo críticas à sua produção literária, Lya Luft (1938-2021) ― então colunista de Veja ― decretou: “A escrita é o território da minha liberdade”. Dona de texto impecável, a gaúcha e autora de “O Quarto Fechado” (Record, 2011) referia-se ao seu inescapável estilo de escrever sobre suas inquietações, criar suas histórias e idealizar suas personagens.
Até para sair da zona de segurança, um artista precisa ser “artista”. Entre esses, o prof. José Neres destaca “Zé da Luz, Patativa do Assaré, Manoel de Barros, Ascenso Ferreira e Catulo da Paixão Cearense”, que “fizeram das corruptelas linguísticas e dos desvios de linguagem o epicentro de suas palavras”. Antes, porém, o reputado mestre em Letras (UFMA) ― para o qual “nos estudos literários nenhuma palavra é definitiva” ― não deixa de citar Pound: “Bons escritores são aqueles que mantêm sua linguagem eficiente” (Na Trilha das Palavras, 2015).
Escrever textos literários é trabalho sério, seriíssimo. O escritor precisa se entregar à sua obra, sabedor de que ― pronta ― ela descansará em outras mãos. A compenetrada Clarice Lispector (1920-1977) desmistifica o oba-oba do fazer literário: “Não, não é fácil escrever. É duro como quebrar rochas”.
Nesse contexto, grande escritora brasileira é absolutamente enfática: “A palavra tem que se parecer com a palavra. [...] E a palavra não pode ser enfeitada e artisticamente vã, tem que ser apenas ela”. Esse “não pode” é certeiro, pois os alvos estão por aí, disfarçados com as cores de um modismo (ou ignorância) barato. Entre eles ― admissíveis e/ou suportáveis ―, o “gerundismo” (“vamos estar falando”), a saudação exagerada (“todos e todas”), “poeta” para designar a “mulher que escreve poemas”. Nesse último, um retrocesso num momento em que as mulheres lutam por igualdade de direitos. Ademais, “poetisa” mais sonora e atraente do que “poeta”.
Nunca esqueço duas lições que sempre me inspiram quando escrevo: “Busque sempre a palavra certa, evitando a quase certa” (Mark Twain); e “Carregar a linguagem de significado até o grau máximo possível” (Ezra Pound). Entre tantos mestres, Frei Beto é o que fala a língua do escritor. Seu “Ofício de Escrever” (Ed. Rocco, 2007) é uma faculdade de produção textual. Em suas lições, um exemplo de humildade: “Não sou a obra que faço. Ela é melhor e maior do que eu”.
A história da arquitetura revela a notável precisão com que os antigos egípcios construíam seus prédios. Da mesma forma, o texto literário precisa ser um projeto artístico cuidadosamente elaborado. No fundamento, o cimento da sintaxe. Na fachada, as cores da semântica. Na concepção, um artista que saiba explorar os aspectos plásticos das palavras, das emoções e dos sentimentos.
Confesso que sou um apaixonado pela palavra ― sublime expressão que realça as cores das minhas ideias e as páginas das minhas emoções. E que são testemunhas das minhas incertezas: (Tenho medo) De minhas palavras/ se deixarem intimidar,/ e, timidamente,/ refrearem a queda livre/ do meu livre pensar. (TRAVESSIA, p. 76, VIEGAS EDITORA)
Desde os tempos mais remotos, a palavra é objeto de afirmação e reflexão de homens das mais nobres estirpes. E inspiração para romances, poemas, músicas. Na versão cristã, o mais divinal reflexo do caráter divino: “Lâmpada para os meus pés é a tua palavra” (Salmo 119:105).
E, enfim, posso afirmar que a “beleza e a expressividade” da palavra não está em suas cores (arranjo ortográfico ou sonoridade), mas na “leveza e funcionalidade” que imprime ao texto e ao contexto de que é protagonista. Ou seja, algo como o pouso de um guará num galho seco de mangue.
Na aquarela da criação literária, as palavras brilham na imaginação do escritor como o Sol que desliza por trás do arrebol da tardinha; e no coração do leitor, como a Lua cheia que se veste de fulgor no início da noite.
E no espírito poético que realça as cores e a melodia do haicai de Carlos Seabra: Sonho colorido/ o Sol dança com a Lua/ você comigo.
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Eloy Melonio é membro da Academia Poética Brasileira
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