*Mhario Lincoln
Neste exato momento chego à página 186 do inebriante livro de Augusto César Maia, sempre amoroso, com sarcasmos temperados com humor e uma boa pitada de carinho com aqueles, como eu, que privo dessa amizade "Sex. Ah! Genário's".
Os dedos coçaram, então, imediatamente peguei minha velha Olivetti, empoeirada num canto da sala de estar - era de madrugada - tranquei a porta que dá para os quartos, improvisei uma banqueta na sacada de meu apartamento, no 18º andar e fui pensar no que havia lido até aquele momento em "No Exílio com Gutemberg". Aliás, nada mais original para um título de livro de crônicas.
Comecei a ver no Céu dessa noite fria beirando 10°, sem estrelas, nem lua, algumas figuras conhecidas de minha juventude na Ilha do Amor e as comparava com as narrações líricas e memoriosas, construídas com originalidade vivencial de Augusto, esculpidas nos mesmos paralelepípedos, d'antes navegados por mim e por ele, em nossa belle époque de juventude.
E junto com o autor, a patota inseparável: Chico Saldanha, Joe Trinta, Fernando Barreto, Ivan Sarney, Albino Teixeira, Airton Abreu, Giordano Mochel, Chico Coimbra, Antonio Nelson Farias, depois Bacarart, Wellington Reis, Erasmo Dias, Rosa Papagaio, Vlan..
Sem esquecer Valdelino Cécio, Nelson Brito, Mundinha Araújo, Patinho, Rosa Reis, Sergio Habib, Joaires Ribeiro, Zequinha Neves, Cazuza Baldez, Pedro Braga, João e Oséias Serra, Jorge Cordeiro, Ubiratan Souza, Zé Raimundo Lindoso, enfim, incursões ébrias e felizes dos Apicuns à Madre Deus; da Maioba ao Maracanã; da Camboa ao Canto da Fabril; não necessariamente nessa ordem.
Flutuando por essas passagens que o livro me provocou, comecei a escrever este texto. Claro que me emocionei diversas vezes, como na 33. Nessa crônica, menção a Antônio Maria, um dos maiores cronistas do país, de cuja lavra eu havia acabado de ler "Vento Vadio".
Percebi a beleza coincidente entre os dois autores, em cuja temática, em muito se parecem. Especialmente no quesito de escrever sobre o existencial, sobre a vivência cotidiana e diária, envolvendo as cidades e as pessoas que vivem em seus cenários.
Por um lado, Antonio Maria exalta, num dos trechos de “Vento Vadio”, a Bahia, Candomblés e Pais de Santo. Augusto César Maia, por sua vez, na página 27, faz quase a mesma coisa ao exaltar São Luís, Candomblés e Pais de Santo no texto "Quá, Eulália". Magnífico ao citar o babalorixá José Cupertino e os cantadores de bumba-meu-boi, um deles, “o lírico Humberto do Maracanã, o caboclo Guriatã, príncipe dos poetas boeiros”, que nunca deixava seu gargarejo de romã, antes de comandar seu batalhão. (Poesia pura, caro Augusto).
Outra exuberância lírica de ambos: “prefiro esperar o bonde, com sua música de ferro”, de Antônio Maria. “Já não existe a cidade quieta, repousada numa rede de varandas, que calava na boca da noite, o silêncio que não acontecia”. Imagem realmente digna de aplausos, colocando Augusto e Antônio Maria, num diapasão harmônico e delicioso de ler.
Essas seivas imaginativas dançam ao som das teclas da minha velha Olivetti portátil e mostram o quão sagrados são todos aqueles que inserem na hermenêutica sensível da alma, algo primordialmente único: selos colados na memória, como filatelista da saudade.
Muita emoção ao longo dessas 186 páginas de um Augusto vigoroso, intrépido e fiel a uma personagem importante, impregnada ao longo da obra. Ela é Dona Cora, citada com abundância, como se fosse um marcador de página, no périplo de um leitor com TDAH. Aí me vem aquela velha frase de Dom Shakespeare: “Lembrar é fácil para quem tem memória. Esquecer é difícil para quem tem coração”.
Dona Cora surge aí como uma personagem viva para explicitar a grandeza de espírito que ronda carnes e ossos setentões, mas não emudece a alma, o néctar, o sabor de viver em paz consigo mesmo.
Aí eu falo: “Haja Deus, quanta beleza”, caro Augusto. E mais: sou obrigado a chamar para sentar comigo Ruben Braga: “(…) Sim, só a amizade nos dá essa sensação de bem-estar e repouso (…)”. Exatamente isso!
Exemplo como esse nos leva a pensar na importância da simplicidade em quaisquer que sejam as criações artísticas. Portanto, a beleza contextual deste livro é diretamente proporcional aos sortudos; àqueles imersos nos cenários praticados nas crônicas de Augusto, onde, assim, o seu brilho terá o eco necessário e vivencial de como é lido e sentido.
Por isso, eu também sou um sortudo e também cheio de saudade de minha aldeia. E quero dividir essa máxima do autor, impressa às páginas 161 de "No Exílio com Gutemberg" : “Vivo neste exílio prazeroso, cá na cidade do Rio de Janeiro, com a cabeça na minha aldeia (…)”.
A mim só resta desejar, amigo querido, que você continue tragando o cheiro armorial do Rio e lustrando com seus olhos o Cristo Redentor.
Curitiba, 01.10.2022,
Mhario Lincoln
*Presidente da Academia Poética Brasileira.
MUSICA É VIDA Chiquinho França levou “Fissura” a Brasília, no Clube do Choro, território de encontro da música brasileira
SETEMBRO SETEMBRO AMARELO: “ATENÇÃO! SINAL AMARELO”
MUNDO NOVO “OBRAS LITERÁR(IA)S?”, crônica do professor e membro APB-MA, José Neres.
Mohana e Cassas “PLENITUDE HUMANA”: O LIVRO EM QUE JOÃO MOHANA COLOCOU O HOMEM DIANTE DE SI MESMO
Literatura Gótica Aluísio Azevedo Gótico: Lourival Serejo restitui uma vertente da obra do escritor ao debate literário brasileiro
EXCLUSIVO A CURIOSIDADE “MATA”. MAS, ANTES, DIVERTE — E ENSINA Mín. 12° Máx. 19°
Mín. 10° Máx. 22°
Tempo limpoMín. 13° Máx. 25°
Chuva
Esmeralda Costa ACLC celebra cinco anos de existência cultural e escreve página histórica
Marco Neves De Homero ao autoclismo português: 3000 anos de grego
Coronel Carlos Furtado FALMA: unidos, conquistamos espaço para a literatura maranhense
José Neres “OBRAS LITERÁR(IA)S?”, crônica do professor e membro APB-MA, José Neres.