A DOR SANGRA EM NOSSOS OLHOS
Joizacawpy Muniz Costa
José Neres com seu fazer poético em “A dor sangra em nossos olhos”, nos presenteia com uma poeticidade abundante, em estrutura de sonetos riquíssimos na costura poética de cada verso e de cada estrofe.
Para além de uma estrutura métrica impecável, Neres traz em forma de poema a realidade nua e crua que muitas vezes é desagradável. De um jeito sensível e atento ele sobrevoa todo um panorama da realidade social desigual, em especial a ludovisense, dispensando arranjos de “brilhos” trazendo a realidade que às vezes se mostra na fome, na orfandade, no que ele denomina de sub-viver.
“Fome inimiga e feroz mortal/Mercadoria que não se consome/Que não sai em coluna social/Famélicas crianças em orfandade/Social lutam pelo sub-viver/Mãos que pedem, roubam para comer/Restos de fétida sociedade...
O poeta externa toda sua indignação diante de um cenário social recheado de injustiça, traz para os versos um ar de revolta e denúncia. Evoca temas que muito são vistos, porém muito ignorados, principalmente por aqueles que devem resolver problemas de ordem social e humana. Mas para além dos que tem o compromisso oficial de resolver tais questões, traz também para nós cidadãos comuns momentos de reflexões sobre essas pequenas grandes responsabilidades e sobre nossas contribuições a essa sociedade ferida e marginalizada.
Para além desses aspectos de incômodo diante das duras realidades sociais, José Neres oferece nesse título outros aspectos com um fio de filosofia dentro de sua tessitura poética, onde o lirismo transborda o refletir.
“Na dura angústia em que me encontro/ Todo cheio de um vazio imenso/ Luto só por um pouco do nada/ para continuar vivendo.”
Onde cabe o entendimento da enchente do vazio? Ou o entendimento de um preenchimento pelo nada para continuar vivendo? Entendimento? Talvez algum, mas o aspecto filosófico é provocar indagações, e o autor o faz com maestria.
Em” A dor sangra em nossos Olhos”, cabe um pouco de tudo, sociedade, amor, mentira, desilusão, tudo cuidadosamente costurado por um lirismo elaborado da mais alta qualidade que o escritor tem a oferecer.
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