*Mhario Lincoln
(“AVISO:/ Tome cuidado/ Sou uma espécie de bomba atômica/ A qualquer hora/ Posso explodir de tanto amor”/VD).
"As águas de dentro irão vazar". Esse é o primeiro verso dessa obra gratificante. Assim começa a saga da jovem Vitória Duarte, autora de “Um mar de mim”.
Ela faz aflorar um dos elementos cósmicos mais importantes para a ciência da alma: a água.
A mesma água de Manuel Bandeira: "(...) A água não morre./ A água que é feita./ de gotas inermes". De Cecília Meireles: "(...) O choro vão/ da água triste, do longo vento,/ vem morrer-me no coração". De Mario Quintana: "(...) Um poema como um gole d'água bebido no escuro".
E mais: o filósofo Thales de Mileto, o primeiro teórico a formular um pensamento mais sistemático fundado em bases racionais, chegou a afirmar: “Tudo começa na água”.
Ora, qualquer um que se dispõe a ler esta obra, fatalmente vai sentir, nas entrelinhas, Bandeira, Cecília, Quintana e Thales. Aliás, que feliz coincidência!
Desde esse primeiro verso, Vitória Duarte cresce como uma tempestade lírica molhando o solo fértil da criação humana, no rumo inverso das concepções elementares cheias, na maioria das vezes, de magia e mitologia, da mesma forma como Thales também as refutou, com base no elemento água: "uma coisa simples como a água pode transformar a concepção filosófica, tornando-a não absurda.". Assim fez Vitória Duarte transformando o elemento poético, mergulhado em mar, em uma coisa múltipla e rica, mesmo sendo simples e singela.
O livro "Um mar de mim", sem dúvida tem a linguagem do coração, assim, simples. E porque essa linguagem "simples"? Perguntariam alguns. Então chamo para responder, Clarice Lispector: "(...). Que ninguém se engane, só se consegue a simplicidade através de muito trabalho". Ou Khalil Gibran, quando explicita: "A simplicidade é o último degrau da sabedoria". Conclui-se, destarte: é muito mais difícil fazer o simples, agradar com o simples, perceber o simples, interagir com o simples, vencer com o simples. E Vitória venceu com o simples, nesta sua obra vestibular.
“Ah, meu amar não é leve/ É loucamente exagerado/ E eu romântica/ Intensa em demasia”. Ou “AVISO:/ Tome cuidado/ Sou uma espécie de bomba atômica/ A qualquer hora/ Posso explodir de tanto amor”. Duas provas de que essa simplicidade explode por conter elementos incrivelmente retumbantes, numa correlação inversa aos soslaios românticos.
Em ambos momentos líricos, senti uma poesia moderna, sem preconceitos, nem conceitos clássicos, livre de um ‘apaixonamento-amoroso’ exacerbado, sem pregas conceituais, sem "...alinhavos melosos, em busca de 'caçar' uma rima", como disse, certa vez, Ariano Suassuna. E olha que o “caçar”, nesse epíteto tem o significado tal qual.
Confesso que "Um mar de mim" rejuvenesceu-me ao ver a poesia maranhense ganhar singularidade nova, um novo fôlego. O mesmo que Bruna Lombardi escreveu em seu Diário do Grande Sertão: “(…) talvez alguns queiram um respiro. Uma tomada de ar. Apenas isso...". Eu respirei de felicidade em ver a poesia ludovicense alçar voos e iniciar uma superação à acirrada disputa das sobras poéticas deixadas por figuras ímpares da poesia maranhense do século XX, sem dúvida, essa, importante base de sustentação de nossa história.
Ao ler este livro passei a ter certeza de que a diferenciada Vitória Duarte - “O mar não é perfeito (...)/ Sal nos olhos que confessa” - escrevendo assim, fará o coliseu ludovicense se desnudar das vestes clericais de antanho fazendo o olhar do leitor extasiar-se com uma poesia direta, eficiente, sem provocar estiramentos do músculo cardíaco, em razão da simplicidade ergométrica da sua bela lírica.
Posso afirmar, sem nenhuma dúvida, que a partir daqui, meus sonhos pululam. Com certeza irei me deparar com obras similares porque o Maranhão passa por um momento de grande euforia literária e que novas e novos poetas já acordaram e esperam um pequeno grito das placas tectônicas da oportunidade, para ebulirem como vulcões, inaugurando uma nova era aédica.
E como “’A memória é uma pele’/E ela nunca esquece”, na minha concepção, este “Um mar de mim”, ricamente ilustrado pela artista Isabela Pessoa, é um dos livros marcadores desse momento vaticinador, através do teodolito do hoje, a ser lembrado como uma mudança de página, como uma nova onda a quebrar no Golfão Maranhense, flamulando para sinalizar um profícuo momento na poesia da cidade chamada de "Athenas Brasileira".
Enfim, leio:
“Ainda lembro de sentar-me a beira/ A fim de contemplar o mar/ Quando de repente ouvi o amor/ No canto da sereia/ Pronto pra me afogar”.
Pura genialidade! Em cinco versos pluralizaram-se dores, amores, lendas e saudades. Pena que eu não tenha visto essa imagem. Deve ter sido abençoado por um dos maiores pores do sol do Mundo: o do quebra-mar da península da Ponta D’areia, na minha velha e saudosa Ilha de São Luís.
Que assim seja, Vitória!
Curitiba, 24.10.2022
Mhario Lincoln é presidente da Academia Poética Brasileira e editor-fundador da plataforma www.facetubes.com.br
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