Por muito tempo, a paz imperou no Reino das Classes Gramaticais, situado no sereno Vale da Linguística, onde viviam em harmonia há muitos séculos. Mesmo assim, era uma época em que vogava, em outras plagas, o costume de tomar o poder pela força. Destarte, num tenebroso momento de sua história, um verbo rebelde e seu bando se insurgiram contra a ordem estabelecida.
Liderados por Imperativo, um verbo arrogante e antigramatical, o bando tomou o poder, depondo o Rei Coesão e a Rainha Coerência, muito amados por todos. E, imediatamente, o déspota é conduzido ao trono de um reino historicamente pacífico.
Exilados na longínqua Atenas, rei e rainha sofriam com a triste situação de seus súditos. Mas não perdiam a esperança de um dia retornarem ao solo natal e tudo voltar ao normal.
Imperativo representava a classe dos verbos, que se julgava a mais expressiva de todas. E, dando asas a essa ideia de supremacia, o novo ocupante do trono passou a governar de forma autoritária. Em seu primeiro ato, determinou que as outras classes deviam abandonar a sede do reino para habitar áreas afastadas.
Dessa forma, cada classe teve de se estabelecer numa determinada região, sem comunicação umas com as outras. Era como se cada uma estivesse numa cela dentro de um calabouço. O reino logo se tornou um lugar melancólico, sem vida. Apáticas — sem a interação que lhes era peculiar — não podiam cumprir sua função comunicativa, sedimentada nos princípios da Organização Mundial das Gramáticas Normativas (OIGN).
Para os artigos, tornou-se difícil viver sem os substantivos, seus parceiros mais próximos. As preposições não conseguiam ligar as palavras em seus laços de interação. Os adjetivos — generosos em conferir atributos — não tinham mais a quem classificar ou qualificar. Sempre disponíveis para substituir os substantivos e acompanhar os verbos, os pronomes não conseguiam se posicionar nesse novo contexto. Acostumadas a estabelecer conexões, as conjunções penavam sem ter o que fazer. Malfadados os advérbios! Longe das tarefas que a boa prática gramatical lhes reservara, não dispunham mais de lugar, tempo, modo, nem os meios para continuar sobrevivendo.
Nesse cenário caótico, a classe dos verbos reinava absoluta. Sem seus desprezíveis pares, Imperativo e seus seguidores mais privilegiados resolviam tudo sozinhos. A nova ordem abalou as bases sociais e gramaticais do reino, e o palco da comunicação se ressentia de seus atores. Não havia mais poesia na prosa, nem ritmo e rimas nos poemas. A música perdeu seus tons melodiosos. Sem o encadeamento das ações e os sentimentos que configuram os enredos, romances e contos dormiam um sono ficcional. E, enfim, as narrativas perderam seu sentido, e já não se falava mais em literatura.
Essa situação perdurou até o tempo em que uma insustentável crise comunicativa afligiu a sede do reino, onde a aristocracia verbal deliberadamente se isolara. Não havia mais interação, e o silêncio das palavras se instalou sorrateiramente. Muitos verbos caíram em desuso, outros se flagelaram com sua própria demência e muitos outros se calaram sob a arte do indizível. Rei e corte não se entendiam mais. Suas festas eram de uma monotonia singular. Os cerimoniais e a pompa da liturgia não faziam o menor sentido. Até o dia do padroeiro “São Vocábulo” não era mais celebrado.
Tristeza e indiferença vagavam soltas na sede do reino. As ações perderam seus movimentos típicos, e os fenômenos não faziam mais ruídos. E um estado de desolação dominou cada sopro de vida que ainda resistia. Sem saída, o grupo dominante viu-se obrigado a retroceder e pedir ajuda. Num último suspiro de poder, Imperativo assinou um decreto permitindo que as classes gramaticais retornassem à sua condição original. E, simultaneamente, enviou uma comissão para negociar a volta de cada uma delas.
Apesar da boa intenção, os emissários não conseguiram muito. Tudo por causa da linguagem emperrada — sem sujeitos, predicados e complementos. O dito só não se perdia na rua da amargura porque os substantivos abstratos sumiram do mapa da sede. E o não dito fingia-se de morto na praça da agonia porque a decadência sempre precede o fim.
Numa nobre e espontânea iniciativa, o Rei Coesão, ainda deposto, sugeriu um encontro com os líderes de todas as classes. Num momento glorioso, dúvidas e sugestões foram apreciadas: Por que estamos nesta situação? De que precisamos? O que podemos fazer?
E todos comungavam com a ideia de que "a união faz a força".
Ao final do encontro, num discurso arrebatador, o Rei Coesão falou de acontecimentos históricos para reforçar a necessidade de unidade, relembrando os episódios bíblicos da "confusão da linguagem" na Torre de Babel, e da "divisão" das doze tribos de Judá após a morte do Rei Salomão.
Bastou um dia para chegarem a uma decisão conciliatória. E, enfim, Imperativo reconheceu a falta que essas classes faziam no vigente contexto sociocomunicativo. E, principalmente, constatou que uns sem outros não conseguiam ser todos. E que, sem união e liberdade de expressão, a ordem sócio-política jamais se restabeleceria.
Numa ação iminente — aproveitando o estado de fraqueza do grupo dominante — os líderes das classes gramaticais reentronizaram o Rei Coesão. E a paz e a compreensão reafirmaram as bases do status quo gramatical.
Enfraquecidos, Imperativo e seus comandados reconheceram publicamente sua arrogância e se confessaram indignos de perdão.
Coesas, as classes das palavras ― incluindo os verbos que se arrependeram e se reconciliaram ― legitimaram os fundamentos da normatização gramatical. Com uma comunicação plena, o resultado foi imediato. A vida voltou a pulsar no seio da sociedade e um grande alívio contagiou a todos. A rainha Coerência idealizou o "Gramaticafolia", festejo que, desde então, passou a fazer parte do calendário cultural do Reino.
A comissão de justiça decidiu exilar o subversivo Imperativo e seus comandados no inóspito Vale das Línguas Mortas. E, sob a égide da Gramática Normativa — agora com status de Constituição — o rei Coesão convocou representantes de cada classe para compor a corte restabelecida.
Desde então, a família real e os súditos passaram a valorizar sobremaneira seu mais precioso patrimônio — a “língua pátria”. E a arte de falar e escrever se tornou a pedra angular daquele reino.
Por fim, a comissão de cultura definiu a divisa que doravante deveria inspirá-los, emprestando dois versos de uma canção popular de um reino amigo: “Fundamental é mesmo o amor/ É impossível ser feliz sozinho”.
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