Dino Cavalcante
Há um relativo tempo – alguns dizem que no Século XIX outros afirmam que foi no final do Século XX – anunciou-se a morte da poesia. Ricardo Leão, numa instigante conferência realizada em Caxias-MA, em 1994, apresentou a um público apreensivo o que considerava ser o prenúncio da morte da literatura, com destaque para a poesia. Ficamos todos no auditório em estado de reflexão sobre os rumos de nossas vidas, saboreando, quem sabe daquele momento a uns dez anos, apenas os poemas já compostos pelos escritores. Nada de novo mais. Só os já escritos. A poesia iria se esgotar em face da vida moderna. Não seriam mais compostos o soneto, a trova, os versos de amor ou de desilusão. O homem teria apenas o passado para fugir da vida dura.
Nestas duas décadas do Século XXI, vimos a ascensão desenfreada das redes sociais, com destaque (no Brasil) para o WhatsApp e para o Instagram. Com os dedinhos na tela do celular, o leitor passeia pelo mundo virtual, acompanhando tudo o que lhe interessa no mundo. Às vezes, nem o que é do seu interesse, mas as redes sociais escolhem por você o que deve ser visto ou lido. E o leitor mergulha no mundo virtual, muitas vezes com informações esdrúxulas, mas que passam a ser relevantes.
Muitos se perguntam, nas reuniões, nas salas dos professores, o que fazer para trazer o leitor de volta para a poesia. Como competir com um mundo tão “fascinante” das redes sociais? Há muitos professores que, esgotados em sua luta, desejam apenas se aposentar ou deixar a profissão. Dizem que é uma guerra perdida. Com tantos vídeos, memes, posts, banners, etc., quem é que vai se lançar numa leitura longa e difícil como a de um romance ou mesmo de um conto mais extenso? Um aluno do Curso de Letras da UFMA justificou a sua não leitura de um artigo com uma frase no mínimo inusitada: “Professor, ninguém está com tempo nem para ler uma trova!”. Certamente que muitos não estão com tempo nem para ler uma trova (que gastaria 15 segundos), mas estão com tempo suficiente para assistir a mais de 100 vídeos (reels) do Instagram ou mesmo do TikTok. Duração: no mínimo 4 horas por dia!
Então o leitor que conseguiu chegar até este parágrafo deve estar se perguntando se de fato estamos vivendo já a morte da poesia. A resposta é não. A poesia não morreu e não morrerá nunca, pelo menos enquanto o homem habitar este planeta.
Como disse o escritor maranhense José Neres, a poesia morre todos os dias, enquanto nos agasalhamos, quando dormimos, enquanto repousamos, e renasce a cada nova aurora, com o nascimento de um novo dia. A poesia é eterna, porque está presente nas coisas mais simples da nossa vida. E basta que haja alguém com uma sensibilidade e com um gosto pela escrita que o poema nasce – já com desejo de ser lido, de buscar os leitores, mesmo que seja nas telas dos celulares, competindo com as “informações” das redes sociais.
Tomemos um exemplo. O poeta Afonso Celso ficou tão fascinado com uma visão que teve num dia, que resolveu registrar a cena e a ação num belíssimo poema – quase infantil, pelas rimas e pelo colorido:
ROSA
Rosa colhia sozinha
Lindas rosas no jardim
E nas faces também tinha
Duas rosas de carmim.
Cheguei-me e disse-lhe: Rosa
Qual dessas rosas me dás?
As da face primorosa
Ou as que colhendo estás?…
Ela fitou-me sorrindo,
Ainda mais enrubesceu;
Depois, ligeira fugindo,
De longe me respondeu:
“Não dou-te as rosas das faces
Nem as que tenho na mão:
Daria, se me estimasses,
As rosas do coração.”
O leitor que conseguir penetrar nos versos e entender a essência do poema, ressurgirá do “mergulho” literário muito mais humano e sensível.
Mas se a poesia não morreu e não morrerá, o que dizer dos leitores da poesia? Aí a questão é mais complexa para responder.
De fato, estamos vivendo um período difícil para a leitura de textos literários. Se por um lado, nunca se leu tanto no Brasil, por outro, nunca se leu tão pouco texto literário, sobretudo o poema. E não só as redes sociais foram responsáveis por esse fenômeno, mas a tevê, com suas séries intermináveis, com seus realities shows, com seus programas, etc., a vida urbana, com seu trânsito caótico, e tantas e tantas outras formas de entretenimento do mundo moderno (ou pós). O que dizer do jogo político, insano, com o seu fanatismo tenebroso, que estamos vivendo no Brasil?
Mas Helena Mendes, pesquisadora do GELMA (Grupo de Estudos em Literatura Maranhense), discorda veemente dessa questão. Para ela, não se pode falar em morte do leitor, quando, muitas vezes, ele nem nasceu ainda.
Devo dizer que estamos falando de morte no sentido metafórico, isto é, da não existência de leitores. Algo como uma peça em que os atores, o diretor, o figurinista, o sonoplasta e outros profissionais da arte cênica, depois de uma longa e exaustiva jornada de ensaios para que o espetáculo seja muito aplaudido pela plateia e pela crítica, mas que, na noite de estreia, apenas um público ínfimo comparece. A decepção de todos é indescritível.
Do mesmo modo, um livro de poesia em que o poeta gasta uma parcela significativa do seu tempo, se, na noite do lançamento aparecerem apenas 7 leitores para devorar os versos, a sensação do escritor é que a arte, como um todo, não só os leitores, morrerá.
A poesia – e a literatura como arte – não morre nunca, não nos abandona, não nos deixa um só dia, porque, como disse Ferreira Gullar, retomando Fernando Pessoa, “a arte existe porque a vida não basta”, mas o leitor...
MUSICA É VIDA Chiquinho França levou “Fissura” a Brasília, no Clube do Choro, território de encontro da música brasileira
SETEMBRO SETEMBRO AMARELO: “ATENÇÃO! SINAL AMARELO”
MUNDO NOVO “OBRAS LITERÁR(IA)S?”, crônica do professor e membro APB-MA, José Neres.
Mohana e Cassas “PLENITUDE HUMANA”: O LIVRO EM QUE JOÃO MOHANA COLOCOU O HOMEM DIANTE DE SI MESMO
Literatura Gótica Aluísio Azevedo Gótico: Lourival Serejo restitui uma vertente da obra do escritor ao debate literário brasileiro
EXCLUSIVO A CURIOSIDADE “MATA”. MAS, ANTES, DIVERTE — E ENSINA Mín. 12° Máx. 19°
Mín. 10° Máx. 22°
Tempo limpoMín. 13° Máx. 25°
Chuva
Esmeralda Costa ACLC celebra cinco anos de existência cultural e escreve página histórica
Marco Neves De Homero ao autoclismo português: 3000 anos de grego
Coronel Carlos Furtado FALMA: unidos, conquistamos espaço para a literatura maranhense
José Neres “OBRAS LITERÁR(IA)S?”, crônica do professor e membro APB-MA, José Neres.