*Natércia Moraes Garrido
O ano de 2022 se encerra com chave de ouro para as letras maranhenses: celebramos o centenário de natalício do poeta Nascimento Morais Filho em 15 de julho e o bicentenário de Maria Firmina dos Reis (cuja data de nascimento real é 11 de outubro de 1825, portanto deve ser revista). A autora, em especial, conseguiu finalmente ter sua relevância e voz reconhecidas no âmbito internacional. Firmina tornou-se a primeira autora negra homenageada na Festa Literária Internacional de Paraty (RJ). Em sua 20a edição, tal fato constitui-se algo inédito e revolucionário, e por que não dizer, histórico por si só.
Falemos dos ecos da FLIP. O anúncio do nome de Firmina na mídia, ainda no início de setembro, causou orgulho e satisfação aos pesquisadores da autora de longa data, principalmente os que trabalham e publicam textos no eixo Sul/Sudeste. Logo em seguida, com a divulgação da programação oficial da FLIP, o orgulho deu lugar ao desconforto nos conterrâneos maranhenses da autora, pois a priori, a organização oficial da festa literária simplesmente ignorou a existência óbvia do Maranhão neste momento, como se aqui não existissem estudiosos competentes que pudessem compartilhar os painéis de conversa com nomes ilustres da literatura brasileira.
O mais grave, no entanto, foi a omissão do nome do descobridor de Maria Firmina dos Reis: o também poeta e intelectual maranhense Nascimento Morais Filho, que a resgatou literalmente dos porões da Biblioteca Pública Benedito Leite. Percebi que todas as mini biografias de Firmina e resenhas literárias sobre sua obra que começaram a circular junto ao anúncio da FLIP em diversos espaços midiáticos patrocinados por editoras de grande a menor porte, começavam com as seguintes introduções: “não se sabe bem ao certo”, “sabe-se pouco sobre sua vida”, “sabe-se apenas que nasceu há 200 anos e publicou Úrsula, o primeiro romance abolicionista da literatura brasileira” etc. Enfim, textos vagos e mal elaborados, denunciando a falta de preparo e leitura de jornalistas culturais.
Urgia montar um plano estratégico e levar também o nome de Nascimento Morais Filho à FLIP, junto com sua obra, temporariamente esgotada, Maria Firmina: fragmentos de uma vida (1975). Todos ali deviam conhecer a verdadeira história, restrita apenas no âmbito acadêmico e raramente verbalizada: que sem ele e todo o seu pioneirismo de pesquisa, Maria Firmina nunca teria chegado tão forte, em pleno século XXI, a nós, leitores contemporâneos.
Portanto fui em várias rodas de conversa de editoras, dei entrevistas antes, durante e depois da FLIP, divulgando todos os esforços de Nascimento Morais Filho os quais culminaram em uma pesquisa que é referência primordial para qualquer pesquisador dedicado à Firmina. É por causa de Maria Firmina: fragmentos de uma vida (São Luís,1975) que sabemos que ela não deixou registro fotográfico, mas que mesmo assim, devido a conversas com os dois filhos adotivos da autora bem como ex-alunos, Morais Filho conseguiu estabelecer um retrato falado minimamente satisfatório.
É por causa de Maria Firmina: fragmentos de uma vida que sabemos que ela também foi compositora popular, pois lá estão letra e música de um auto de bumba-meu-boi, por exemplo; que ela fundou a primeira escola mista do Maranhão; que ela é a primeira mulher a escrever um romance no Brasil, com seu Úrsula (1860), o qual contém o primeiro discurso abolicionista em um texto ficcional.
É por causa de Maria Firmina: fragmentos de uma vida que sabemos sua real data de nascimento bem como outros dados biográficos; que temos acesso aos contos Gupeva (1861) e A Escrava (1887) além de inúmeros outros textos, como poemas diversos, enigmas e trechos do famoso Álbum (o diário íntimo de Firmina). Posteriormente – e por isso devemos agradecer e relevar os trabalhos de pesquisa de Nascimento Morais Filho – publicou-se Úrsula (1860) e Cantos à Beira-Mar (1871), como edições fac-similares em 1975 e 1976, respectivamente, sob supervisão de seu pesquisador e com apoio e verbas públicas do então governador da época no Maranhão, Osvaldo Nunes Freire.
Foi com todo esse discurso que fui à FLIP e participei de inúmeras rodas de conversa de editoras e canais de comunicação, a exemplo da Editora Conejo e do programa cultural carioca Bacellartes (conduzido pela Prof. Dra. Renata Bacelar), que também nos cederam espaços de fala. Em cada um desses momentos, os interlocutores diziam que não sabiam dessa história e perguntavam onde poderiam comprar Maria Firmina: fragmentos de uma vida, até porque mostrávamos o livro para fundamentar os discursos. Reforçamos agora o que dissemos na ocasião: Maria Firmina: fragmentos de uma vida terá sua 2a edição em 2023, pois é nesta data que celebraremos os 50 anos do grande descobrimento literário de Nascimento Morais Filho.
Outro momento memorável da FLIP foi ter mediado o painel de conversa “Maria Firmina dos Reis: a trajetória inspiradora da primeira romancista brasileira”, junto com os pesquisadores Agenor Gomes e Luciana Diogo, evento promovido pelo Instituto Da Cor ao Caso (plataforma maranhense) na famosa Casa de Cultura. Em tempo: a programação da Casa de Cultura faz parte da programação oficial da FLIP. Gomes, que também é natural de Guimarães, lançou em São Luís – e lá na FLIP também – o seu excelente livro Maria Firmina dos Reis e o cotidiano da escravidão no Brasil (São Luís: AML, 2022). Este livro, a partir de 2022, também deve constar nas referências obrigatórias sobre quem estuda tanto Maria Firmina dos Reis quanto quem estuda Nascimento Morais Filho. Durante o painel, Gomes fez referência em alto e bom som ao trabalho e ao nome de Nascimento Morais Filho, afirmando que para estarmos todos ali reverenciando Firmina, alguém teve que “abrir uma picada na frente primeiro.”
O resultado do meu trabalho de formiguinha na 20a FLIP serviu para angariar ouvintes que depois se tornaram falantes multiplicadores. Porque Maria Firmina é do povo, é de todos nós, conforme queria Nascimento Morais Filho. Mas o primeiro pesquisador de nossa ilustre e ousada escritora tem nome, sobrenome e luta, por isso esse nome tem que ser verbalizado e referenciado onde quer que Maria Firmina vá.
É justo e correto dizer que sem Nascimento Morais Filho, dificilmente uma voz feminina e negra do nosso passado histórico escravista teria alcançado tanto reconhecimento e tantas homenagens nos dias de hoje, ainda mais sendo nordestina e laborando como professora de primeiras letras na litorânea e inspiradora vila de Guimarães. O século XXI não aceita mais silêncios, omissões e principalmente, invisibilidades.
* Natércia Moraes Garrido é Doutoranda em Literatura e Crítica Literária (PUC-SP), professora, escritora e pesquisadora em literatura maranhense.
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