(*) Uma pequena homenagem a meu amigo, irmão querido, poeta Luis Augusto Cassas, neste raiar de um novo ano.
IN AGNUS AUGUSTUS
*Mhario Lincoln
Ah, Luis. Luis de todos os Santos, de todas as Ceias, de todos os Becos.
Luis de todos os jeitos, de todos os amores, de todas as dores.
Luis de todas as reminiscências, de todas as liturgias, de todas as paixões.
Luis de todos os evangelhos, de todos os vampiros, de todas as Alcântaras.
Luis de todos os peixes, de todos os filhos, de todos os deuses.
Luis de todas as britas, de todas as mortes, de todas as auras.
Luis de todas as óperas, de todos os shoppings, de todas as canções.
..................
Ah, Luis. Imola-nos com chuva de versos, como a faca que corta o flagelo insano dos desaedos, dos insensíveis, dos que sofrem da síndrome de Alice, para desmortificar a carne, para derrotar o jejum da clausura hipotética do pensamento.
Livra-nos do ascetismo litúrgico da ignorância. Prepara-nos para um novo ciclo. Espanta o Concílio de Latrão, desfolheia-nos da bula Vineam domini Sabaoth. Banha-nos com a canção de Ana e Antonio, sob as bençãos de São José de Ribamar, in Agnus Dei.
Porque você é a Poesia. Evoé, poeta!
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NE: Não é julho, mas é hora de banquete. Sejam banquetes da alma, de saudade. Não importa. O que vale é reproduzir essa obra-prima do poeta Luis Augusto Cassas, um dos nomes mais importantes da poesia brasileira contemporânea. A editoria do facetubes.com.br escolheu esse poema por inúmeras razões. Especialmente, por ser "(...) a mãe sempre um tema inspiratório por trazer a claridade do feminino mais profundo e por nos educar no caminho do belo e da vida. (Além do estômago, claro)", escreveu Cassas sobre esses versos. Brindemos, pois a grande ceia do espírito renovado.
O BANQUETE
Luis Augusto Cassas
(A minha querida Mãe Míriam, neste 27 de julho, na passagem de seu 9º ano na vida espiritual).
(*) Publicação no dia 26 de julho de 2022, no Facebook do autor.
A cozinha ocupava
o maior espaço
na morada íntima
Ao redor da mesa
pregava o espírito
suas lições extraordinárias
de enlouquecer top models
e dar água na boca
As bocas do fogão
acesas no coração
Mamãe era bom-bocado
na mesa de linho branco
distribuindo a sua arte
fogo alto e fogo brando
Panelas talheres e pratos
os utensílios domésticos
e o tempero do sentimento:
caminho da devoção
através do alimento
Por nossas mãos olhos gargantas
passavam frutos da terra água ar
provisões ultramarinas
secos e molhados
incluindo o delicioso sol
e uma insinuante lua
coreografados de desejo
objeto de delícias
Entre o cru e o cozido
o doce e o salgado
desenhava-se o excessivo
devorado e consumido
como caju no tacho
apurando o seu sentido
Quando papai era vivo
competia a biblioteca
com os sabores da cozinha
mas ávido o elenco cult
corrompeu-se com as sardinhas
Nosso trabalho com o fogo
era acender a ternura
pra não apagá-la a gula
Certo dia Freud
apareceu lá em casa
pra analisar a família
e quase perde a asa
(galinhas de parida
voavam sobre a sala)
Confundiu sopa c/ cuxá
e nunca mais Sigmundo
foi convidado a jantar
Lavoiseriamante
a vida se transformava
de libidinosa feijoada
em risoto de carne seca
enqto. os cordões umbilicais
enrolavam-se sob a mesa
sucumbindo à bacalhoada
pra retemperar a fraqueza
ou a um frango envergonhado
rebatizado à francesa
Lavava-se mágoa
c/ peixe-pedra e caldeirada
Fortalecia-se o caráter
quibe de forno e lentilhas
Criar raízes/ramificar
em algum lugar
principalmente o mar
— infestado de camarões
onde desabrochavam ostras
sururus e caranguejos
numa sinfonia marítima —
era a tara gastronômica
a farra pantagruélica
dos membros da família
“— Que é a vida senão morder
os lábios o amor as frutas
conjugar ser e haver
até verter a cicuta?”
cantavam em coro as louças
Éramos o sol da terra
querendo ser luz no mundo
sacrificando as centelhas
à liturgia do estômago
Luz! Luz! Luz! Mais luz!
Qto. mais invocávamos
os manjares dos deuses
no rodízio das estrelas
infiltravam-se à sobremesa
a sombra e os seus espinhéus
como setas na garganta
Vieram o diabetes e a dieta
a carestia e a moda do menos
mas resistia a matriarca
com seus poderes mágicos
grelhando carneiros na casaca
lançando a tristeza às favas
Seríamos nós mesmos o banquete
buscando dar expressão
à fome das palavras
na língua do coração?
Solo extraordinário
o dom do manjericão
e o cheiro da alfavaca
capturava o imaginário
da filha de Leão
perfumando o ar da casa
O sabor do saber
e o saber do sabor
vindos da infância da alma
florescido com ardor
transferiu-o mamãe aos netos
com expressa recomendação
de manter a tradição
unidos ao redor da mesa
repartindo afeto e pão
Assim preparou-nos c/ afinco
a todas as coisas que virão
tudo tem sabor e sentido
quando tempera-o a boa ação
seja do cotidiano amigo
partilhe o sonho e o feijão
pois o paraíso perdido
esconde-o o sol no coração.
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