A VISÃO HUMANA DE LOPES BOGÉA NO LIVRO “PEDRAS DA RUA”.
Apresentação: Mhario Lincoln
PARTE 01
Não há guia mais fantástico na literatura do Maranhão quando o assunto é conhecer as figuras humanas mais desumanizadas da cidade de São Luís do que “Pedras da Rua”, do meu amigo, jornalista Lopes Bogéa, com quem convivi diariamente no começo de minha profissão. O via sempre nos corredores da Rádio Timbira, nas rápidas passagens pelo Centro Cultural “Gonçalves Dias”, ou assistindo e dançando ao som do Sexteto Musical, que abrilhantou o carnaval do Casino Maranhense na década de 60. Não existia essa nomenclatura na época, mas se existisse, Lopes Bogéa poderia tranquilamente ser um artista “multifacetado”, além de ser um dos monstros sagrados da MPB, apimentada com composições maranhenses. Homem de convívio pessoal com João do Vale e Antônio Vieira, proporcionou por várias décadas, muitas emoções aos maranhenses, sendo aplaudido por intelectuais e artistas como Erasmo Dias, Nascimento Moraes, João Mohana, Mastro Nonato, Agostinho Reis, Cristóvão Alô Brasil, Frei Antonio Sinibaldi, Mario Cella, Paulo Nascimento Moraes, Jomar Moraes, Dagmar Desterro e Silva, Elvas Ribeiro (o Parafuso), Lago Burnett, Nascimento Moraes Filho, Travassos Furtado, Domingos Souza, entre outras centenas de amigos. Uma figura incrível e amada que compartilhou esse carinho e amor com as figuras que escolheu resenhar no livro "Pedras da Rua".
Neste 2023 completará, então, 35 anos do lançamento dessa importante obra, composta nas oficinas gráficas por Sodré e Isolda Soares, revisão de Orlandex Viana e a capa imortalizada de Elvas Ribeiro, o parafuso, este, como sonoplasta, foi um dos primeiros funcionários a trabalhar, desde a fundação, na primeira emissora de TV do Maranhão, ao lado dos irmãos Bacelar. E, às primeiras páginas, escreveu Bogéa, numa referência imensa aos homens e mulheres que conheceu nas ruas da cidade: "...a todas as figuras populares, azulejos, porcelanas e pedras de ruas, de todos os países do mundo, a nossa carinhosa e profunda homenagem...". Começamos hoje, pois, uma série de textos escritos por Lopes Bogéa, cantando as figuras originais que se perderam entre as carrancas da cidade, nossa Ilha do Amor.
Nesta ocasião, como editor-chefe da facetubes.com.br, plataforma cultural sem fins lucrativos ou publicitários de quaisquer espécies, reproduzo a crônica de Bogéa que fala de uma figura bastante conhecida e que ficou nos anais da história no episódio da Greve de 51, chamado popularmente de BOTA PRA MOER.
ESPECIAL "PEDRAS DA RUA", edição de 1988.
Autor: Lopes Bogéa.
BOTA PRA MOER
Antônio Lima era o nome próprio daquele pernambucano entroncado, de cor clara, cabeça à la Rui Barbosa, natural da cidade de Caruruaru (PE) e do qual os maranhenses recordam muitas histórias. Devido a sua impressionante inteligência, logo que aqui chegou foi batizado pela plebe de “Bota Pra Moer” e essa alcunha o acompanhou até o fim de sua existência. “Bota Pra Moer” era simplesmente impressionante, um matemático como até então nunca tinha aparecido igual em São Luís. Para quem não teve o privilégio de conhecê-lo, basta dizer que “Bota Pra Moer” chegava para uma pessoa e perguntava o dia, mês, ano e hora em que aquela pessoa nascera. De posse destes dados e num rápido cálculo que fazia mentalmente, dali a minutos respondia quantos anos, meses, dias e horas aquela pessoa tinha vivido até aquele instante. Outra faceta impressionante era ler (mas ler mesmo) um jornal de cabeça para baixo e ficava lendo com a maior naturalidade. Depois relatava tudo que os jornais estavam noticiando.
Ele usava sempre roupas de segunda mão que ganhava de famílias abastadas. Almoçava, jantava e, às vezes, dormia na residência do farmacêutico Garrido, proprietário da Farmácia Garrido, na Rua Grande. O farmacêutico não admitia que o chamassem pelo apelido e tinha, junto com sua esposa, uma estima muito grande pelo excêntrico matemático. (…). Os bolsos de “Bota Pra Moer” viviam cheios de pão, que ele com constantemente. Em outros bolsos guardava papéis e tocos de lépis para fazer seus cálculos. As vezes era contratado por firmas para sair fazendo propaganda de casas comerciais. Nessas ocasiões andava pelas ruas com duas placas, uma na frente e outra atrás, anunciando os produtos e preços da firma comercial que o contratara. E como ficava feliz e sorris quando os transeuntes paravam para olhar as placas que conduzia!
“Bota Pra Moer” gostava também muito de crianças, sempre tinha alguma coisa para oferecer aos petizes que o cercavam. Um de seus hábitos era fazer casinhas de papelão que vendia para as crianças, a preços módicos, porque, para ele, o importante era fazer felizes aqueles pequeninos seres. Outra mania do nosso personagem: colecionar nos bolsos, bolinhas de gude. Quando encontrava alguém disposto fazia aposta de como era capaz de engolir aquelas bolinhas e quase sempre ganhava trazendo as de volta na hora em que fazia as necessidades fisiológicas. Tirava as bolinhas da “massa fecal” e limpava, guardava-as novamente nos bolsos,& espera de novos apostadores.
São Luís é conhecida como “Ilha Rebelde” devido à célebre greve de 1951, quando o povo se revoltou contra a posse no governo do S Eugênio Barros. Um dia os grevistas entregaram a “Bota Pra Moer” a Bandeira Nacional e o colocaram à frente, numa marcha rumo ao Palácio dos Leões. Os grevistas to autointitularam de “Soldados da Liberdade”. Quando a turba chegou à Praça Pedro II e “Bota Pra Moer”" viu aquele monte de policiais em frente ao Palácio, com as armas em ponto de bala, prontamente entregou à Bandeira para o primeiro que aparece afirmando:
-Até aqui eu vim, mas daqui pra frente arranjem outro que seja mais doido do que eu.
Outros fatos pitorescos que se conta de “Bota Pra Moer”: certa vez telefonaram da residência do Sr. João Pereira, avô do Dr. Gabriel Cunha (que morava na Rua das Hortas), para a Farmácia Garrido, pedindo que fosse com urgência levar um medicamento para uma pessoa da família que estava passando mal. Nessa ocasião, o farmacêutico sempre pedia “Bota Pra Moer” para fazer tais entregas. E foi o que aconteceu naquele dia. Seu garrido tirou o remédio da prateleira, chamou “Bota” e deu-lhe o medicamente, instruindo-o quanto o endereço onde deveria entregá-lo.
“Bota Pra Moer” chegou à porta da casa do Sr. João Pereira e bateu. Não foi atendido, tornou a bater e nada. Insistiu mais uma vez a ninguém dava sinal de vida. Vendo uma janela aberta. “Bota” pulou a referida janela, foi até a varanda da casa, deixou o remédio em cima de uma mesa, voltou a pular a janela e retornou para a farmácia. Ao chegar aquele estabelecimento, seu Garrido perguntou-lhe:
-Como é, Antônio, deixaste o remédio la onde eu ta disse?
-Deixei, seu Garrido. Não tinha ninguém na casa e eu coloquei em cima de uma mesa.
A essas alturas, na residência do Sr. João Pereira, estava todo mundo estupefato, sem saber como aquele precioso remédio fora parar em cima da mesa, sem que ninguém tivesse aparecido. Já estavam considerando um verdadeiro milagre, quando Garrido telefonou a contou a presepada de “Bota Pra Moer”.
Em outra ocasião, o então Presidente Dutra estava em visita a São Luís, trazido pelo Senador Vitorino Freire. Como parte da programação Dutra e Vitorino foram pare o Estádio Santa Isabel, onde o Presidente deveria dar a pontapé inicial de uma partida entre Sampaio Corrêa e Moto Clube. Quando as autoridades adentravam ao gramado (como diziam os locutores esportivos) lá atrás ia "Bota Pra Moer", muito na dele, jogando iô-iô de tampa de panela. Nas arquibancadas a gritaria era internal. Todos se deliciando com o feito do "Bota". (Ou seja, ninguém mais prestou atenção ao presidente e ao Vitorino).
Pouco antes de “Bota Pra Moer” deixar este mundo, foi protagonista de outro episódio interessantíssimo. Tocava uma valsa numa das casas comerciais da Praça João Lisboa e nosso personagem desinibido como era, apanhou uma esmoler conhecida por Tiririca e com ela saiu valsando pelo calçadão em frente ao Moto Bar. Foi um acontecimento! Muita gente parou para ver aquele cal danando feliz em plena praça, deixando de lado as tristezas da vida
“Bota Pra Moer” costumava banhar-se e numa lagoa infecta que se formava na Rua Paulo Frontin (no hoje bairro do Retiro Natal), que na época estava sendo aterrada. Aquela lagoa era, para o "Bota", uma espécie de piscina, de rio ou de mar. Numa dessas vezes, vitimado por mal súbito, “Bota Pra Moer” pereceu naquela lagoa e seu corpo encontrado no dia seguinte por populares que ali transitavam.
O corpo de “Bota Pra Moer”, depois de autopsiado, foi entregue Faculdade de Medicina, onde os acadêmicos dele fizeram uso para se estudos. Mesmo morto, o conhecido matemático foi útil - ou continua sendo útil para os maranhenses...
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