A BULA DE MHARIO LINCOLN
Linda Barros, professora, atriz e membro APB
A vida é mesmo engraçada, às vezes é melhor nem se pensar nisso, porque ficamos à mercê das dúvidas, no vazio, procurando respostas para algo indecifrável. É impossível não começar esse texto com estes pensamentos de reflexão. Uma hora você é uma mera desconhecida, passa-se algumas horas apenas e sua vida dá uma guinada, é como se ultrapassássemos os portões que nos levam a outra dimensão e caímos no descompasso do tempo, límpido, claro, mas também obscuro.
O mundo literário é assim, às vezes de um instante a outro há um encontro com o inesperado. Do nada encontramos a fórmula que não estava tão distante assim, para o entendimento de muitas coisas, inclusive de si mesmo. O simples pode ser explicado. Aquilo que tanto nos questionamos às vezes está tão perto. É meio assim, que começamos a decifrar o possível ou impossível nos belos versos de A Bula dos Sete Pecados do intrépido autor Mhario Lincoln. Ao adentrar nessa estrada do imaginário, o autor já nos recebe com os mais belos, simples e verdadeiros versos que compõe a obra:
Do nada, alguém chega e, aê,
te dá o melhor abraço do mundo,
o melhor cheiro do mundo,
o melhor beijo do mundo.
FOI-SE A DEPRÊ!...
São a palavras assim, simples e de profunda eloquência que o ser humano deveria estar atento. Metaforicamente o “melhor abraço do mundo” pode e deve salvar os povos, se pudéssemos nos doar ao outro na pura essência da existência, talvez a humanidade pudesse descer do pedestal e olhar para baixo e ver o quão os seres humanos, são HUMANOS.
Nem de longe A Bula dos Sete Pecados pode-se dizer que seja um manual de ajuda, é sim uma leitura em que você se depara com um texto, que além de texto em si, nos leva a caminhos por linhas às vezes tortuosas e lineares, onde nós escolhemos que caminho tomar, que rumo seguir:
Fui e vim, ao largo de minha prepotência, lavando as mãos.
Foi-me dada a hora de ajuizar-me e reconhecer toda
penúria.
Foi-me concedido o direito de rever meus mimos e padrões.
A morte, foi-me companheira ao longo desses inteiros
anos.
A contestação das coisas está em nós mesmos, mas por que não dar razão ao que queremos? E, numa perspectiva de entretenimento, o autor faz com que tenhamos uma simples leitura, agradável, sem mais preocupações. No entanto, cabe a nós leitores mais atentos descobrir nas entrelinhas do texto, o verdadeiro caminho a seguir. Pois, o findar desta leitura, quem dá é o próprio leitor, que ao “fechar” o livro, deixa pistas para que, quem for um leitor mais aguçado, possa fazer um “passeio” pelas figuras de intertexto que compõe a obra.
O autor deliberadamente (ou não) ao compor cada verso de sua bela obra, faz com que o leitor, por menos exigente que seja, não fique só no superficial, mas que mergulhe nas entrelinhas de cada verso, pois em cada um, há uma simbologia a ser desvendada. O autor usa de uma métrica singular, com rimas simples. Parafraseando José de Ribamar Macau Dos Santos, mais conhecido como Ratinho, que participa da construção desta Bula, Mhario Lincoln, “deixa o leitor, bem à vontade para viajar em sua poesia leve e bonita, pois “ele (Mhario) é romântico sem ser pastoso”.
Por vezes, o autor percorre um caminho trilhado por figuras da nossa história, usando rimas brilhantes para contar ou desvelar ao leitor, personagens de singular importância no mundo da cultura mundial e contemporânea, como nos versos abaixo do poema “AH, HUMANIDADE”:
Como andam as bruxas de Blair
As bocas amargas sem fecho-éclair
os curtos-circuitos movidos a Éclair
as delícias das fragrâncias Belle-Aire?
Os amores de Dom Descartes, René
ou o ‘ver pra crer’, de São Tomé
As garras afiadas de François Voltaire
O vendedor de virtudes, Yang Zhu, até?
Como andam os moinhos de Quixote,
as muitas amantes de Sir Lancelot
o drama escarrado na morte de Pixote,
o Rei do Baião de Pé-de-Serra, do Xote?
Por onde anda, de Einstein, a relatividade,
Contra Kant, Auguste Comte, a sua positividade,
A saga de Simone de Beauvoir gritando igualdade
Acabou, Tomás de Torquemada, toda maldade?
No texto acima, o poeta nos força a procurar sumariamente saber quem são, o que foram e o que fizeram cada personagem, aliados a uma musicalidade que compõe cada verso, o texto vem carregado de intertexto, figura marcante que ajuda a compor tão singela e rica obra e que desafia o leitor a imaginar uma biblioteca, com suas prateleiras repletas de nomes tão importantes para a Literatura e para a Cultura.
E para não entregar, mas para aguçar a todos os leitores que se interessarem a “viajar” literalmente e descobrir qual seu pecado, Mhario Lincoln, não poderia deixar faltar em seu livro, coisas que acompanham a humanidade a milênios de anos, os prazeres (paixões), a essência da vida (coração) e o que sustenta o tronco humano (as chinelas):
CICLO DOIS
Ei moço!
Vc viu uma sandália perdida por aí?
Insiste em ficar sozinha
Do que agasalhar os pés de um Poeta que pisou em flores
Para matar paixões.
E para fechar, dizer que vida além de engraçada, ela é um ciclo, que tem início, meio e fim, como os Três Ciclos criados por Mhario Lincoln na BULA DOS SETE PECADOS.
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