Entrevista com Joseph Bruno
Por Renata Barcellos (Pós-doutora em Língua Portuguesa e Literatura Brasileira pela UFRJ)
Joseph Bruno nasceu em São Luís em 1985. É formado em Design pelo CEUMA. Autor de diversos mangás, HQ... Atualmente, sua obra está em exposição no SESC, do Renascença, até dia 17 de fevereiro. Conheci sua produção por acaso. Fui comprar ingressos para assistir a uma peça dia 21 de janeiro e, ao entrar no SESC, vi sua produção. Entrei, conversei com o responsável pela exposição e ele passou meu contato para o artista. O nosso bate-papo foi lá, logo após um temporal, em meio ao universo destes gêneros textuais ainda muito pouco trabalhados em sala de aula e apresentados aos futuros professores de produção textual e/ou literaturas.
1- Como foi sua trajetória? Seu mergulho neste universo de HQs e mangás?
Desde criança. Precisamente, em 1994, aos 11 anos. Dentro do ônibus, na volta para casa, conheci um familiar de Beto Nicácio (educador, animador, quadrinhista e escritor). A partir desde momento, tive a oportunidade de conhecê-lo. Apresentou-me o universo dos quadrinhos, dos super-heróis e principalmente do mercado de trabalho para um desenhista. Hoje, tenho o privilégio de trabalhar com ele. Um dos projetos foi Asa branca: traços de canções, 2012, cujo roteiro é de Iramir Araújo (mestre em História social, escritor, roteirista e editor).
2- Por que o interesse pela obra de Luíz Gonzaga? Como surgiu a ideia deste projeto?
A importância de Luiz para o Brasil foi enorme, suas canções e melodias trouxeram um sentimento de pertencimento para o nordeste e sua cultura e nosso foco foi transportar as letras das canções em um novo olhar voltado para o quadrinho. Nossa visão dentro do mundo que Luiz Gonzaga criou com suas incríveis canções.
3- Como você vê o espaço atribuído a estes gêneros textuais nas instituições de ensino básico e superior?
Infelizmente, ainda muito inexpressivo. Minha mãe é professora da educação básica. Antes da pandemia, chegou à escola um material didático com referência a estes textos (Buriti mais Português, 3° ano, PNLD 2019, organizada pela Editora Moderna). Mas, com o ensino online, não foram trabalhados. Por eu ser filho e transitar por este universo, ela os aborda ao longo de sua prática pedagógica.
4- O que diria aos professores e aos alunos sobre a importância da leitura na formação do cidadão?
Para todos, é fundamental ler!!! Leiam sempre. Qualquer um tipo e gênero textual.
Aos alunos: Não importa qual tema e texto. Leiam impresso, online...!!!
Aos professores, diria: incentivem os alunos a lerem. Estimule-os!!!
Os HQs, animes, mangás são muito importantes para instigar o pensamento e a criatividade. Contribuindo para a formação do cidadão crítico.
5- Como é o mercado brasileiro hoje? Qual a diferença para o do exterior?
Aqui, no Brasil, o quadrinista, o cartunista faz todas as etapas: roteiro, cenário. No Japão, há o assistente de cenário, o ilustrador, criador de personagem, animador. No Brasil, ainda tem a visão retrógada de que desenho é algo do universo infantil. Não se tem consciência de que há o profissional, por exemplo: cartunista, quadrinista, publicitário (cuja exigência de outros conhecimentos técnicos). No Japão, o mangá é um gênero textual constitutivo da cultura. Há classificação para as diferentes faixas etárias, temas... É equivalente a novela, no Brasil. Lá, todos leem direcionado a suas características. Ao término da leitura, é hábito deixar em espaços públicos para que outras pessoas possam ler.
6- Em São Luís há encontros de cartunistas e quadrinistas?
Sim, às vezes, promovido pelo AQMA (Associação de quadrinistas do Maranhão) cujo presidente é Wagner Elias. Ano passado, 2022, houve um no Shopping São Luís, promovido pelo MobilizaSLZ (https://mobilizaslz.com.br). Há também o MATSURI (https://www.instagram.com/matsurima/): evento de anime, mangá, cultura POP... com a direção de Miguel Braga. Última evento foi em 2022. Neste não, mas em edições anteriores, eu e meus companheiros do Quarta Camada realizamos concurso de ilustração para o encontro.
7- Você faz parte de um grupo intitulado Quarta Camada. De onde surgiu este nome? Quem são os integrantes?
É composto por 3 pessoas: eu, Joseph Bruno, Jefferson Ferreira, Joaquim Gonçalves Corrêa Neto. O nome do grupo foi atribuído por um amigo quando ia a minha casa tomar café e dizia que tinha uma 4° camada, em termos de qualidade. O objetivo do trio é incentivar projetos autorais. Criar um Revista/FANZINE, a fim de divulgar nosso trabalho, textos (anime, mangá), discutir sobre o mercado de trabalho...
8 - E, aqui, em São Luís, há espaço para as exposições?
Há espaços culturais: Museu Histórico e Artístico do Estado do Maranhão, Federação do Comércio, Federação da Indústria, Universidade Estadual e Federal do Maranhão, Praça Benedito Leite, Correios, Casa de Cultura Josué Montello, Convento das Mercês... Estou expondo aqui, no SESC da Renascença, por convite da amiga Paula Barros. Mas como há um descaso com a área cultural, em São Luís, estamos sempre procurando espaços para exposição...
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A IMPORTÂNCIA DO MANGÁ ENQUANTO ARTE
Vale a pena conferir o trabalho de Joseph Bruno!!! A exposição vai até 17 de fevereiro, de 9:00 as 17:00, na Sala Sesc de exposições, no Condomínio Fecomércio Sesc Senac, na Avenida dos Holandeses, S/N, QD 04, Jardim Renascença II, EM São Luís.
Para quem não conhece os gêneros textuais aqui apresentados, uma breve compilação de algumas reflexões de teóricos:
O principal ingrediente do mangá “é a capacidade de fazer as pessoas mergulharem nas histórias, transparecendo suas emoções e sentimentos e encantando os leitores”. Já os animes “assim como os mangás podem ser utilizados em sala de aula como uma ferramenta pedagógica”. (MANCUSO, 2010).
Para Secco e Teixeira (2008), os desenhos animados podem funcionar como uma ferramenta didática, “podendo proporcionar um elo entre o cotidiano dos alunos e o conteúdo a ser desenvolvido, fazendo com que a aula se torne mais atrativa e aumentando as possibilidades de interação entre professores e alunos”.
Conforme Fontanella (2004) o “desenho animado é um instrumento social com dimensões culturais e estéticas”.
De acordo com Barros (2015), “é necessário questionar se a relevante questão a ser examinada recai na tendência dos professores em obter os aperfeiçoamentos metodológicas que o trabalho interdisciplinar pede.”
Urge as escolas trabalharem animes, mangás... E os cursos de licenciatura incentivarem práticas pedagógicas para que estes textos sejam efetivamente trabalhados em sala de aula da educação básica à superior. É preciso explorar os múltiplos gêneros e tipos textuais!!!
Referências bibliográficas
BARROS, F. A interdisciplinaridade como um caminho possível para uma educação
integral. UFRGS Lume, Repositório Digital, 2015.
<<http://www.lume.ufrgs.br/handle/10183/117528>>.
FARIA, Mônica Lima. História e Narrativa das animações Nipônicas: Algumas
Características dos Animês dos animês. Disponível em:
http://fido.palermo.edu/servicos_dyc/encuentro2007/02_auspicios_publicaciones/actasr_diseno/a
rticulos_pdf/a4003.pdf.
FONTAELLA, Geci de Souza. Animação na Educação: O entre-entendimento na teia da
produção do sentido e sua mediação na educação. Actac do III SOPCOM, VI LUSOCOM E
II IBÉRICO – Volume IV, p 343 – 351. Disponível em:
<<http://bocc.unisinos.br/pag/fontanella-geci-animacao-na-educacao.pdf>>.
MANCUSO, Mario. Mangá e História em Quadrinhos são a mesma coisa! On-line.
Disponível em: <<http://tudibao.com.br/2010/09/manga-e-historia-em-quadrinhos.html>>.
SANTOS, J. C. F. dos. Aprendizagem Significativa: modalidades de aprendizagem e o
papel do professor. Porto Alegre: Mediação, 2008.
SATO, Cristiane A. O que é mangá? Disponível em:
<<http://www.culturajaponesa.com.br/index.php/entrevistas/cristiane-a-sato/.>>
SECCO, Marcello; TEIXEIRA, Ricardo R. Plaza. As leis da física e os desenhos animados na
educação cientifica. Sinergia – Revista do Centro Federal de Educação Tecnológica de São
Paulo, v. 9 n. 2. São Paulo, julho/dezembro 2008. Disponível em:
<<http://www.cienciamao.usp.br/dados/snef/_asleisdafisicaeosdesenho.trabalho.pdf.>>
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