Nesses meus (próximo) 70 anos, passei por várias fases: da profissional (altos e baixos) às fases existenciais de janeiro a agosto, passando por setembro, outubro, novembro e dezembro. Na minha fase mais "hard", fui buscar colhida em um dos jornais mais combativos do Maranhão: o "Jornal Pequeno", um gigante contra as coisas "milagrosas" que aconteciam abundantemente nos arredores do Castelo de Abrantes. Aliás, uma frase muito característica é aquela que fala "(...) tudo como dantes, no quartel-general em Abrantes."
Para me ajudar a explicar essa frase, chamo para entrar nesta prosa o pensador português Orlando Neves. Ele traz em seu "Dicionário de Expressões Correntes" (Editorial Notícias, Lisboa), a essência: "(...) Diz-se do que permanece sempre na mesma, sem alteração (...)". Desta forma, quando trago à baila essa máxima da região de Abrantes (PT) para o Maranhão daquela época, parece que se acolhiam, juntas, as ideias de lá, de Portugal e daqui, deste Nordeste sempre sofrido. Se não, vejamos o que conta Orlando Neves:
"Era o povo português, quando perguntado sobre 'como iam as coisas', no tempo da primeira invasão francesa [1807] que respondia: "...tudo como dantes, no quartel-general em Abrantes....".
Na verdade, as tropas francesas, comandadas pelo General Junot, entraram pela Beira baixa em 19 Novembro de 1807 e, sem enfrentar qualquer resistência organizada, chegaram a Lisboa no dia 30 Novembro. A família real portuguesa tinha entretanto escapado do país em direção ao Brasil, como havia sido acordado com os ingleses, meses antes. Por isso, à revelia de tudo e de todos, o povo, em rouquidão severa, sempre respondia a mesma frase porque viu o General Junot instalar, calmamente, o seu quartel-general em Abrantes. Completa o historiador Neves: "(...). Em Lisboa, nada se fazia com intenção de se opor à instalação do general francês. Ninguém lhe ousava resistir. D. João VI, então regente, zarpara. Daí que, quando alguém perguntava o que se passava, a resposta sempre era - tudo como dantes, no quartel-general em Abrantes. (...)".
Voltando a minha história e de meus espasmos solitários de regionalista, mesmo sob influência pré-juvecta de "Pink Floyd", "Rush", "Rick Wakman" e "Ermenson, Lake and Palmer", convido-os a ler o que se segue.
Destarte, divirtam-se com minhas (quase) loucuras.
MUITO ANTES DO ENLOUQUECER
(*) Mhario Lincoln
Minha Mãe, quando eu estava no auge de minha juventude ‘Sputnik’, uma ocasião chegou perto de mim, dentro da redação onde escrevia uma coluna diária no "Jornal Pequeno", o ‘órgão das multidões’, e após ler meu editorial do dia, esgarçando as algemas da sociedade concupiscente, da época, me disse baixinho no meu ouvido:
- Tu és louco de jogar pedra em ti mesmo, meu filho? Assim tua carreira morre aqui!
Era ou não era louco em espargir revolta diante de tantos "milagres" ineficientes acontecendo diariamente ao meu redor? Não reagiria, como as classes organizadas fizeram na invasão do General Junot em terras portuguêsas? E por que eu não reagiria se estava com a pena e o papel na mão e poderia vociferar através do maior jornal de oposição que o Maranhão? Por que não eu, vendo ruir todos os santos dias, sonhos e projetos, inclusive culturais, que poderiam ter embalado nossa adolescência pré-adulta de forma vigorosa? Por que não eu que lia, debatia e divulgava entre os poucos veículos de comunicação independentes, a saga de homens como o francês Arthur Rimbaud (1854-1891)? Porém, mamãe, como aquele rápido sopro, me fez apagar minha euforia prematura e inconsciente, o que não aconteceu ao meu "ídolo" daqueles tempos: Rimbaud, cuja sorte, inteligência e irreverência, tornou-se pavio de uma chama de vela, consumindo-se até a morte.
(...)
Tempos depois, ao ler um trabalho magnífico da confreira da Academia Poética Brasileira, escritora e poeta Dione MS Rosa, comecei a entender a existência de vários malucos-beleza ao redor da mesma saga que intentei possuir, sozinho. Diante dessa leitura necessária de "A prosa gótica de Álvares de Azevêdo em Noite da Tavrerna", é impossível não pensar em um monte de louquinhos com asas de anjo, como o próprio e inimitável Álvares de Azevedo (1831-1852). Esse cara deve ter sido literalmente fantástico - dizem que pessoas fantásticas ou fora da casinha da ignorância são loucos de pedra - para dar início a uma série literária de assombrar, pela dramaticidade.
E foi exatamente lendo esse brilhante ensaio de minha confreira, acadêmia APB, Dione MS Rosa, uma das únicas estudiosas da literatura nacional a escrever algo realmente significativo diante de “Noite na Taverna”, acabo ratificando exatamente o que falei acima e entendendo que não fui e nunca serei o único "louquinho do pedaço", que, pelo amor cego de mamãe, o parecia ser, especialmente, pelos meus reclamos absolutos, diante de uma sociedade ávida por liberdade e justiça social. Desta forma, vale compartilhar o texto sinóptico do livro de Dione MS Rosa:
“O gótico, inserido numa das categorias da literatura fantástica, aborda o lado mórbido e mais recôndito da alma humana, e instala a presença do não-racional, da desordem e do caos, evocando o primitivismo do inconsciente coletivo que povoa o imaginário cultural da humanidade. Em Noite na taverna (1855), de Álvares de Azevedo, há explícitas relações de componentes gótico-fantásticos que intensificam os aspectos sombrios e macabros do tema principal do romance, qual seja o Liebestod (associação de amor e morte), elementos que inserem a obra na segunda fase do romantismo brasileiro, o ultrarromantismo, uma corrente literária influenciada por atitudes não convencionais e pela poesia de Lord Byron. Os estudos de Howard Philips Lovecraft, Nöel Carroll, Tzvetan Todorov, Antonio Candido, Cileine Alves, Karin Volobuef e Daniel Serravalle de Sá são utilizados como apoio teórico para a análise da narrativa moldura e dos cinco contos nela encaixados. Nessa investigação, o conceito de horror gótico, teorizado por Carroll e Lovecraft, e a noção de insólito, desenvolvida por Freud, são privilegiados. No último capítulo, o romance gráfico Noite na taverna (2011) é brevemente discutido, e o processo de transposição para os HQs, do conto intitulado Solfieri, é descrito, com o intuito de mostrar que o interesse perene dos leitores pela obra de Álvares de Azevedo contribuiu para a valorização de seu projeto estético. (...)"
Parabéns, Dione. Arrepiante, espasmódico, diferente, uma visão além do espelho e muito além da imaginação.
Assim, pelo visto, e com toda uma experiência de vida ao longo desses anos, eu não era mesmo de todo, um louco solitário! Mesmo que tenha passado por um dolorido puxão de orelhas de minha eterna professora Zuleide Bogéa, no primário, por cantar o Hino Nacional em ritmo de Samba, ou, ainda, por arrancar ódio de alguns, por eu mesmo, sozinho, tentar jogar pedras numa 'genicídica' sociedade concupiscente.
Por isso quero mandar um recadinho para minha Mãe, onde esta mensagem telepática chegar, em algum lugar desse Universo, anos depois, em forma de plasma alumiado:
- Louco, eu, Mamãe? Sei que seu amor é relevante e sempre protetor. Mas a senhora mesmo sabe que eu sempre cometi minhas loucuras do jeito mais normal possível!!!!..
(*) Mhario Lincoln
Presidente da Academia Poética Brasileira
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