José Neres*
Escrita em 1872, pelo teatrólogo maranhense Artur Azevedo, a peça Amor por Anexins é uma das obras mais conhecidas e representadas nos palcos brasileiros. Então, quando aparece a notícia de que esse texto será novamente levado à cena, surge logo uma dúvida na cabeça de algumas pessoas: “Será que essa comédia de costumes do século XIX ainda pode divertir o público contemporâneo?”
A resposta tem sido dada nos últimos meses, com a nova montagem dirigida por Elias Andreato, com direção musical de Jonatan Harold e protagonizada por Cláudio Lins (no papel do histriônico Isaías) e Mariana Gallindo (interpretando a bela e jovem Inês). O público maranhense teve a oportunidade de conferir o espetáculo que esteve em cartaz no Teatro Napoleão Ewerton e, em pouco mais de uma hora, pôde presenciar a junção perfeita e bem humorada entre texto teatral, música e dança.
Com marcações precisas e domínio das técnicas vocais e corporais, os dois atores levaram para o público um repertório musical de primeira linha, com uma mescla de canções antigas e atuais, mas que convergiam para a temática central da peça e para o desenrolar das cenas. No palco, os músicos delineiam uma trilha sonora que acompanha os trejeitos e a personalidade das personagens, com algumas intervenções e interações que tornam o processo ainda mais dinâmico e criativo.
Mariana Gallindo imprime em sua personagem toques interpretativos que levam a plateia a um tipo de riso que não interfere na compreensão da trama. O mesmo ocorre com o ator Cláudio Lins, que também aproveita seus dotes musicais e boa presença de palco para compor um Isaías bastante malicioso e cheio de picardias. O casal de atores demonstra bastante sintonia e fazem com que uma situação que é teatralmente forçada ganhe contornos de naturalidade estética bastante verossímil.
O cenário minimalista remetendo a uma mistura de vintage com clássico e Pop Art ficou perfeitamente adequado à proposta do espetáculo e de alguma forma imprimiu uma dinâmica de alegria e de saudosismo ao mesmo tempo. O moderno e o tradicional se encontrando em um mesmo local, em sintonia com os adágios de Elias e os devaneios de Inês, entre a opulência e a necessidade.
Os dois atores ficam tão à vontade no palco que até mesmo os breves momentos de desconcentração passaram quase despercebidos para a maioria das pessoas da plateia. De modo geral, foi uma apresentação brilhante de um texto brilhante, com atuações espetaculares. A breve interação com o público nos momentos finais deu um toque de humanização a uma peça que, apesar de antiga, nestes tempos ditos modernos, ainda há espaço para arte, teatro, anexins, talento e bons momentos.
Como quem espera sempre alcança, valeu a pena esperar pelo espetáculo. Todos os aplausos foram merecidos.
José Neres é professor, escritor e membro da Academia Maranhense de Letras.
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