Eu sou o Henrique Duailibe e hoje eu vou falar um pouquinho do meu projeto "Cozinha no Escuro". Esse projeto surgiu depois da minha perda da visão em 2015. Quando eu voltei a cozinhar o processo, foi doloroso porque eu passei por depressão. Mas consegui vencer com a ajuda principalmente do Deus, maior criador e do meu Jesus Cristo, que tanto amo!
Eu tento seguir ao máximo os caminhos dele e a partir dessa força e do apoio da minha família, eu sempre tive esposa, filhos, mãe, irmãos e amigos, pude perceber - pós cegueira eu - quem eram os verdadeiros amigos que estavam perto de mim, porque é nessas horas que a gente observa isso. Então ao me reinventar na música pude perceber também que a culinária tinha muito a ver com a música inclusive com sons.
Eu descobri sonhos na culinária. E ao fazer arroz eu descobri o som do arroz cozinhando, o som do arroz pronto. Isso é uma coisa fantástica. Então eu levei em torno de quatro meses para estudar como voltar a cozinhar, a minha primeira fronteira. Mas a minha primeira barreira a ser rompida foi voltar a passar café como eu passava com água quente que é uma coisa muito perigosa para pessoa que não enxerga. Mas como sou muito teimoso, comprei uma cafeteira elétrica.
Eu nunca aceitei barreiras na minha vida. Então eu consegui depois de quatro meses passar café de novo do modo tradicional com filtro, tal e a água quente. Após isso eu comecei também a estudar uma maneira de cozinhar de novo, porque eu já cozinhava. Então, um certo dia eu falei para minha esposa que eu queria fazer um risoto. Ela disse, que parecia ser perigoso e tal, não sei o quê. Mas só que, antes de eu falar com ela, eu já tinha planejado tudo. Eu já sabia onde estava cada coisa. Eu já tinha estudado a cozinha. Então, como nesse dias eles iam sair os três a Márcia, o Henrique e a Yasmin para irem a uma consulta médica, eu aproveitei da situação e então eu fiz a minha primeira receita, depois que eu perdi a visão: um risoto. Eu sempre fui muito criterioso e na hora de cozinhar fiz com muito cuidado. Quando eles chegaram, eles não acreditaram que eu tinha cozinhado.
No mesmo lugar que eles me deixaram eles me encontraram só que com uma diferença, com um aroma diferente no apartamento que era o cheiro do risoto. Eles provaram acharam saboroso e a partir daí eles deixaram eu cozinhar, não criaram mais problemas. A partir desse momento eu comecei a fazer as comidas e tal e fui sentindo a necessidade de compartilhar essa minha vitória com outras pessoas e também com deficientes visuais para que eles pudessem também ser mais independentes. Então veio a ideia do "Cozinha no Escuro".
Talvez eu seja um dos precursores, né? Um dos primeiros a fazer um projeto desse tipo no Brasil e talvez o único no Maranhão, né? Eu chamei um amigo meu lá da Assembleia Legislativa do Estado, onde trabalhava, um editor, muito amigo, Júnior Draw, mas é Reinaldo Junior e ele topou fazer esse primeiro vídeo filmado todo no celular. Eu fiz toda a receita do risoto de frango. Coloquei de fundo trilhas com minhas músicas de CDs meus colocados no meu canal no YouTube.
Ele pegou os áudios e fez toda a edição desse vídeo que durou em torno de treze minutos. Não foi feito nenhum roteiro, foi todo improvisado mesmo por mim. Eu fui falando, fui fazendo e na hora ele editou. Ele é muito bom editor e fez toda a edição do vídeo, seguindo todo o roteiro que a gente fez durante a filmagem e ficou muito bom o resultado. Logo depois eu fiz a receita de bolo de trigo. Meu amigo George Gomes fazendo uma visita para nós e eu aproveitei para pedir que George filmamasse. Ele filmou. Tanto que no vídeo aparece, as vêzes, eu chamando o nome dele, falando e tal. Pois bem. Ele filmou e um amigo de Marco Duailibe, meu irmão, fez a edição desse vídeo lá na produtora que Marco o trabalhava.
Então veio esse outro vídeo. Tenho esses dois vídeos na internet, no canal "Cozinha no Escuro" que eu espero continuar com esse projeto quando estiver com uma cozinha mais acessível porque eu mudei para minha casa de novo e a cozinha é muito grande. Quando eu otimizar mais o espaço, volto a fazer mais receitas para compartilhar e poder tornar a vida das pessoas cegas mais fáceis.
Eu não tenho intuito nenhum de ser um chefe de cozinha. Minha ideia é fazer da vida das pessoas com deficiência visual mais fáceis ensinando medidas de segurança na cozinha para que elas possam fazer as suas receitas com segurança sem nenhum tipo de risco. Tanto que num dos vídeos eu falo que o ideal é o cego não trabalhar com o fogo e sim comprar um um fogão daqueles com sensor né? Que tem hoje que quando você pega você não se queima ele só aquece a respectiva panela daquele sensor que é um fogão elétrico. Entendeu? Ele tem um sensor que é de proteção para pessoa não se queimar. E a panela específica para aquele tipo de boca elétrica.
Eu sempre indico para as pessoas cegas. Eu faço no fogão tradicional porque eu sou um cego teimoso e eu gosto de romper as barreiras. Mas eu indico como medida de segurança para as pessoas que não enxergam, usar o fogão elétrico para poder não ter risco e usar a faca de serra para poder na hora de cortar os ingredientes, saber o limite de cortar entendeu? Porque a faca sem serra fica difícil do cego saber o limite na hora de cortar. O tamanho do corte pode passar do limite e cortar a pessoa.
Tem toda essa dica que eu dou nesses dois vídeos. Ficou muito legal o resultado e eu espero poder daqui para frente continuar com esse projeto tão bacana chamado "Cozinha no Escuro". Valeu gente, um abraço.
O PRIMEIRO VÍDEO DO PROGRAMA "COZINHA NO ESCURO"
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