O BOFE E O FOFÃO
*Mhario Lincoln
Muitas vezes sentei nos bares da vida com Lopes Bogéa para conversar. Outras vezes, em pé, no Abrigo da ‘João Lisboa’, comendo pão com manteiga e ovo e um copo de abacate ou caldo de cana, renovando as forças, para continuar pelas madrugadas ludovicenses, sempre esperando uma colombina desgarrada, com olhos de seda e uma estrela na testa, subindo pela ‘28 de julho’, sedenta de fome.
Enquanto ‘nossas colombinas’ não chegavam, eu pedia para Bogéa contar suas histórias sobre personagem públicas de nossa velha São Luís. Todas, tornadas lenda, através do livro “Pedras da Rua”, escrito por esse incansável biógrafo-pregoeiro.
Hoje, transcrevo duas dessas. Afinal, estamos em período carnavalesco e o mais festejado do carnaval da Ilha é, sem dúvida, a figura assombrosa do “Fofão”, com máscaras (tradicionais) feitas de camadas de papel-jornal e cola, moldadas em cima de uma base feita de barro, as mais feias possíveis, vestindo macacões muito largos, confeccionados com tecido estampado e guizos nas pontas da gola, das mangas e das pernas.
Não sei porque cargas d’água, o personagem citado por Lopes Bogéa em seu livro, foi alcunhado pela cidade inteira de “fofão”. Será que existem coincidências? Vamos descobrir, abaixo:
FOFÃO DA MODA
*Lopes Bogéa (Pedras da Rua)
"Fofão da Moda vigiava os mangues da Maroca, por alguns trocados.”
Ele era preto, baixo, gorducho, mais se assemelhando a um barril de chope. Vivia no bairro do Desterro e, entre os seus parceiros diários de birita, figurava o celebérrimo "Isqueiro", muito conhecido naquela área toda, e até mesmo em datas recentes, no Desterro. Chamavam-no "Fofão da Moda" e era hóspede da famosa "Pensão Madeira", um barracão erguido no terreno, onde posteriormente funcionou a IPEMA, uma indústria de pesca que já desapareceu do cenário. Mas nosso personagem gostava mesmo era de dormir debaixo de uma amendoeira, ao ar livre: ali mesmo, ele fazia sua comida, dentro de uma lata de flandres que punha sobre um tripé, espécie de fogão muito conhecido do caboclo maranhense pelo nome de "tacurubas". Ali era o seu lar, o mundo de "Fofão da Moda".
Por aquela época, a libanesa conhecida por Maroca era quem vendia mangue para aquecer as caldeiras das fábricas de tecidos e fornecer energia. Maroca era também fornecedora da ULEN, empresa que se encarregava de fornecer água e energia para a cidade, hoje desmembrada e conhecida por CEMAR e CAEMA.
O mangue era uma matéria-prima muito importante para o fornecimento energético, de modo que os fornecedores, assim como Maroca, tinham "vigias" para guarnecer seus metros de mangues, depois que estes eram tirados e colocados em lugar apropriado. "Fofão da Moda" vigiava os mangues da Maroca, por alguns trocados. Ele se dedicava, também, a fazer mandados e carretos e; com isto, ia garantindo o necessário à sua subsistência e pagar a pinga do dia-a-dia.
Se alguém quisesse, contudo, ver "Fofão da Moda" exagerado completamente dominado pelo rancor, era só chamá-lo pelo apelido, em tom de zombaria como costumavam fazer os barqueiros, carreiros e desocupados.
O homenzinho virava uma fera, chamava nomes horríveis, não respeitando ninguém. Ele esbravejava: "Olha, seu filho duma cadela, dá lembrança pra tua mãe, que já deve estar com muita saudade de mim".
"Fofão da Moda" já deixou de circular há muito tempo, pertence hoje ao mundo dos mortos. Permanece viva apenas a lembrança de sua figura exótica.
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BOFE
*Lopes Bogéa (Pedras da Rua)
“Eu não sou de trabalhar, seu moleque, meu pai trabalhou demais e eu nasci cansado”.
Ele era um homem baixo, entroncado, de cor escura, medindo aproximadamente 1,45m de altura. Pelo corpo tinha umas enormes pintas brancas, que se repetiam, em menor tamanho, nos lábios. Nunca vimos "Bofe" descalço. Ele sempre agasalhava os pés em sapatos de segunda mão, que ganhava nas suas solicitações diárias. Gostava também de vestir calças folgadas de linho branco, que, por serem grandes demais, precisavam de cordas ou barbantes para se ajustarem à cintura.
"Bofe" não tinha um ponto certo para a sua faina diária de pedir esmolas. Era comum, entretanto, vê-lo pela Praça João Lisboa, principalmente nos chamados Abrigos Novo e Velho, ou pela Travessa do Comércio ou Humberto de Campos. Na hora do almoço ele se tocava para o Colégio Maristas, que ficava anexado à Igreja da Sé, no Palácio Arquiepiscopal. Lá, os Irmãos Maristas lhe davam um prato de bóia e, depois do "rango", ele ia se postar à porta do "Palácio da Justiça Clóvis Bevilacqua", onde ficava importunando a desembargadores, juízes e advogados pedindo-lhes alguns trocados. A esses ele chamava de colegas e aos transeuntes ele também estendia a mão encardida, solicitando uma "gaita", que era como, em termos de gíria, dinheiro.
O pedido era sempre acompanhado de uma risadinha de deboche, mas quando alguém lhe negava a esmola, "Bofe" ficava brandindo um pequeno cacete que sempre conduzia à mão, chamando o que havia lhe negado os trocados de pão duro, ordinário, safado, moleque. E concluía sempre sua catilinária com um "Aguenta, patife!", como se, dessa forma, ficasse com o peito completamente desagravado.
"Ei moço, escorrega um dinheirinho pra cá!" Esse era o clichê do nosso irrequieto personagem. Vez por outra, ele se dirigia ao Restaurante Aliança, na Rua de Nazaré, onde os proprietários, lusitanos, sempre davam jeito em algum bagulho pra ele comer, o que fazia lambendo os beiços: "Bofe" aproveitava as escadarias do Tribunal para dormir, protegido pela deusa da Justiça.
Francisco Magalhães de Almeida era um jornalista que trabalhava no Tribunal de Justiça. Magalhães, como o conhecíamos, também baixo e entroncado, certa vez chamou "Bofe" a perguntou-lhe se ele não poderia ir deixar-lhe um cacho de bananas em sua residência, na Rua de São Pantaleão, 474. "Bofe" mediu bem Magalhães, da cabeça aos pés, e sacou a curiosa pergunta:
-Escuta aqui, ó baixinho, essas bananas estão verdes ou maduras? - Por que é que tu perguntas? redarguiu Magalhães, meio intrigado. E "Bofe" concluiu cinicamente:
- É porque se elas estiverem maduras dá pra eu levar. Vou comendo o que for possível e o que sobrar fica pra ti, safado. Eu não sou de trabalhar, seu moleque, meu pai trabalhou demais e eu nasci cansado. Me respeita!
Dizendo isto, ele soltou o seu tradicional gritinho de deboche e voltou a estender a mão aos transeuntes, pedindo uma esmolinha, por favor. Talvez por essa e mais algumas outras, "Bofe" foi "despedido" de seu "emprego" na porta do Tribunal. Foi convidado a ir pedir esmolas noutra freguesia, porque ali já estava muito manjado. Foi daí que ele se transferiu para a porta dos Correios e Telégrafos, na Praça João Lisboa, em São Luís-MA,
onde ficava na escadaria a cumprir sua sina diária. Ali mesmo, protegido pela marquise, ele dormia a sono solto, até o dia raiar.
Certa manhã, ele estava iniciando sua tarefa, quando passou por perto dele uma vistosa madame, cheia de elegância, bonita e perfumada. Ele estendeu a mão àquela linda senhora e, como costumava falar engolindo as letras, saiu-se com seu costumeiro pedido:
Banca bonita ‘cheilosa’, dá um trocado pra mim, dá?
A elegante madame olhou-o por cima dos ombros de modo reprovativo e, em largas passadas, subiu em direção ao Correio. Logo em seguida, pela mesma escadaria, descia o diretor da repartição, Dr. Raimundo Mendes, conhecido por "Tracajá de Colete". Ele se dirigiu a "Bofe" e falou como se estivesse muito zangado:
- Olha aqui seu atrevido, tu não respeita as pessoas? Sabe quem é aquela senhora? É minha esposa e vou mandar-te prender, pilantra.
Dr. Raimundo Mendes julgou que, com aquilo, "Bofe" ia tremer nas bases, mas, qual nada! Com a cara mais limpa deste mundo o esmoler retrucou ao seu interlocutor:
- Olha aqui, seu doutor, escorrega logo um trocado, negão...
Dr. Raimundo Mendes, que era uma alma boa e generosa, esboçou um sorriso, puxou da algibeira uma prata e entregou-a a "Bofe", para, em seguida, retornar ao seu gabinete.
E, enquanto o doutor subia as escadas, "Bofe", irreverente e cínico, disse alto e de bom som:
Mal empregado. Uma banca tão bonita e ‘cheilosa’, se casar com
um negão feio da peste!
Se alguém queria ouvir os mais recentes lançamentos em palavrões, era só chamar "Bofe" pelo apelido. Ele tinha uma verdadeira coleção de raridades nesse campo. Quando estava sendo construído o Estádio Municipal ‘Nhozinho Santos’, o saudoso amigo Nagib Féres, na época presidente da Federação Maranhense de Desportos, consentiu que "Bofe" se hospedasse em baixo das escadarias das arquibancadas. Ele passava a noite ali e, de dia, ia esmolar no canto da Fabril, ficando na parada de ônibus que existia ali. Quando os ônibus paravam ele pedia a esmola aos passageiros, mas se alguém lhe negava a trocado ou o chamava pela alcunha, ele ficava brandindo o cacete na lataria do coletivo até que este desse a partida, soltando aqueles palavrões.
Num dia qualquer "Bofe" amanheceu morto. Seu corpo foi conduzido para a Faculdade de Medicina e lá colocado num tanque de formol para servir de estudos pra rapaziada. Talvez aquela mesma moçada que gostava de deixá-lo furioso, chamando-o pelo apelido.
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