A TRAVESSIA DE EUCLIDES
*Mhario Lincoln
Logo que abro aleatoriamente o livro "Travessia na Pandemia", desse incrível Euclides Moreira Neto, e me deparo, às pgs 29, com crônica sobre os 40 anos da greve da meia passagem, em São Luís, me vem à cabeça, em primeiro lugar, lê-lo por inteiro. Em seguida, me aparecem recordações sobre "O Sétimo Selo", cuja direção e roteiro é de Ingmar Bergman. A passagem original do filme é a seguinte:
Após dez anos, um cavaleiro retorna das Cruzadas e encontra o país devastado pela peste negra. Sua fé em Deus é sensivelmente abalada e enquanto reflete sobre o significado da vida, a Morte surge à sua frente querendo levá-lo, pois chegou sua hora. Objetivando ganhar tempo, o cavaleiro convida-a para um jogo de xadrez que decidirá se ele parte com a Morte ou não. Tudo depende da sua vitória no jogo e a Morte concorda com o desafio, já que não perde nunca.
“Travessia na Pandemia”, enquanto durou sua composição, era um tabuleiro de xadrez, onde seu autor, o professor e cineasta (coincidência?) Euclides Moreira Neto, desafiava a Morte, também! Aliás, todos os humanos deste Planeta, nessa ocasião, foram desafiados pela Morte.
Uns perderam, outros ganharam. Moreira Neto ganhou esse jogo, transformando seus dramas e medos existenciais neste belo apanhado de sensações líricas, numa prosa cromática de alto valor prático e persuasivo, dada as condições em que o Planeta se encontrava naqueles meses de muita angústia.
A importância deste trabalho extrapola o igualitário, o mesmismo, o antipático, o acadêmico chato e ilegível, porque com inteligência e experiência de há anos, Euclides vacina seu enredo incluindo altas doses de fenômenos sociais e culturais.
Às vezes vociferando contra o explícito abandono das 'forças' político-sociais vigentes às coisas da terra, outras vezes rememorando fatos e histórias que povoam o coletivo imaginariamente real dos dias de antanho.
Não é uma obra de vaticínio médico. Porém, é uma forma inconteste de Euclides 'vacinar' sua própria cabeça pensante e dividir com os leitores, suas preocupações, anseios e algumas intimidades, até então, espalhadas por outros livros dele. É fácil enxergar esses excertos rememorativos e inteligentes neste “A Travessia da Pandemia”.
Euclides Moreira Neto, destarte, não esquece igualmente, a sua essência: cinema e suas variações envolvendo a cultura regional. É um grito sociocultural de amplo espectro, sob o manto pandêmico, em um momento de reflexão interior, de um diálogo com sua própria obra, em seu próprio contexto, expondo a si mesmo na tela projetada, no stadium da vida, sem quaisquer medos.
“Os fazedores de cultura, os grupos e a grande maioria de nossa gente, que são responsáveis pela fantástica diversidade de nossas manifestações populares, têm se virado sozinhos, como se estivessem órfãos da interlocução oficial (...)” (EMN).
E essas avaliações, crônicas, opiniões, ideias e reclamos são fruto da direta interferência e das implicações sociais, as quais não se restringem à contaminação pela doença, mas à contaminação pelo desprezo da coisa pública, das tradições, dos enredos de uma 'Athenas Brasileira', das revitalizações de pontos históricos, do clamor da cultura popular, dos alertas contra ideologias insanas o que, assim como a doença, na época, não possuíam soluções práticas.
Enfim, ler "Travessia na Pandemia", é um bálsamo para todos aqueles que amam Cultura. Que amam Cinema. Que amam São Luís. Que amam manifestações regionais e lutam por tudo isso. Um grito! Antes de um apelo. Uma verdade! Antes de soslaios apaixonados. Uma razão! Antes de amancebados uivos ideológicos.
Como se vê, no jogo de xadrez com a Morte, Euclides Moreira Neto ganhou.
Xeque-Mate!
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Mhario Lincoln
Presidente da Academia Poética Brasileira.
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