MULTIVERSO: uma antologia de versos
Eloy Melonio, membro da Academia Poética Brasileira
Pode parecer estranho, mas o verso — assim como a vida — é uma experiência que se nos impõe e se refaz a cada instante. Em outras palavras, o verso se confunde com o multiverso — “conjunto hipotético de universos possíveis”. E tudo cabe nesse ambiente de extensão ilimitada. Os versos mais diversos, os menos conexos, e até os mais dispersos. Um pouco perplexo, ouso parodiar o homem de Nazaré: “A cada verso o seu próprio mal”.
É tanto verso que a vida se perde neste fluxo do tempo. O dia é o verso oculto da noite. A noite, fonte cósmica da poesia. Sob o calor do Sol, o verso se protege à sombra do imprevisível. E, à noite, alguém diz baixinho que “todos os versos são cálidos”.
Nesta introspecção, você vai descobrir que o multiverso é muito mais complexo do que se imagina. É como se o hoje não cuidasse do amanhã e se esquecesse do ontem. Como se aqui não fosse o lugar onde estamos, e ali, onde queríamos estar. Essa é a “possibilidade” de cada dia. Porque viver é mergulhar na luz, quando dia, e escapar das trevas, quando noite. Pisar nas pedras frias aqui, desviar da areia quente ali.
Seria o verso uma vicissitude da vida? Ou vice-versa? Não posso dizer, e não sei se isso, de alguma forma, lhe interessa, mas...
Às vezes penso que o verso não existe. Que é pura imaginação de quem se embriaga com o aroma da fantasia — palavras de sonhador, versos de fingidor. Alguns podem achar que o verso só existe no universo da escrita e da leitura. Mas o poeta faz de conta que o verso voa solto por aí. E que os dois até se dão as mãos para um passeio: “deixa o verso me levar, verso leva eu”.
E, subitamente, achamo-nos nas entrelinhas deste universo de múltiplos versos versando sobre a vida.
Na enciclopédia do verso, a gente pode experimentar outras sensações ― deixar-se enlevar pelo desconhecido, pelo inimaginável — verso-vivenciando espantos, surpresas. Na literatura universal, uma constatação: versículos estão para o Cantares (Cântico dos Cânticos) assim como testículos estão para o Kama Sutra.
Numa perspectiva poética, tirei um tempinho para perscrutar algumas possibilidades do verso neste multiverso:
· e num dia escuro a poesia se fez luz: o primeiro verso
· um verso aforístico jamais será um verso afrodisíaco
· neste estranho universo, um verso voando pode ser um disco voador
· verso que é verso agarra-se à poesia feito marisco na pedra
· um verso velho só pensa em se aposentar ou se tornar um alquimista
· dizem que um fake verso vive infernizando as redes sociais
· “two beers or not two beers” ― nem todo verso é o que parece ser
· um verso sozinho não faz verão; dois versos juntos, versos nunca serão
· um verso no meio do caminho não é merda nenhuma
· a aranha arranha o verso e o verso arranha a aranha: isso, sim, é uma façanha
· mais vale um verso voando do que dez dormindo numa página fechada
· versos reversos são vilões das séries de ficção sobre o multiverso
· se o verso fala, conversa; se se cala, desconversa
· de verso para verso: você é o verso que quiser ser
Dito isso, fica o verso pelo não-verso, ou vice-versa. Mas, se você encontrar um verso voando por aí, não deixe de perguntar de que universo ele veio ou para qual universo está indo. Aí está a chave do Multiverso.
Estranho? Sim. Talvez. Não.
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