RECORDANDO E VIVENDO
*Mhario Lincoln
Em uma de minhas colunas diárias, publicadas por quase 10 anos (em dois períodos) no glorioso "Jornal Pequeno", mais especificamente no dia 26 de maio de 2000, uma foto mostrava o professor Euclides Moreira Neto, um dos abençoados criadores do "Guarnicê-Cine-vídeo" com o artista plástico Ciro Falcão. Como se vê, Euclides sempre foi um nome ligado não só à cultura nacional, como também à cultura regional do Maranhão onde, ao longo de seu período (antes, durante e depois) no Departamento de Assuntos Culturais/UFMA, construiu inúmeras atividades que engrandeceram o Estado, no nível Brasil.
Esta semana, 23 anos depois, ouvi uma entrevista dele, numa emissora de rádio ludovicense, sobre o Carnaval. E olha só a aula que ele dá quando o assunto - Casinha da Roça -, manifestação única e que torna-se pública durante o período momesco de São Luís.
É indiscutível a experiência e bom senso de Euclides Moreira Neto quando o assunto é cultura maranhense. especialmente a cultura carnavalesca.
Por isso, em recente entrevista a uma emissora de rádio de São Luís-Ma, ele falou sobre uma das tradições que quase foi extinta, mas que, com esforço fervoroso de alguns, ela volta trazendo muita história em suas palhas. Refiro-me à Casinha da Roça, que transforma o Carnaval da Ilha num momento de tradição pura, com culinária autêntica e cheiro de boa comida tomando conta das ruas e becos e pelos quatro cantos da passarela do samba.
Olha só a aula que Euclides dá, ao falar sobre a Casinha da Roça:
"(...)
- Bom, sobre a Casinha da Roça, eu acho que vale destacar que foi uma manifestação criada pelos pobres, pelas pessoas que moravam na periferia, já que elas não podiam brincar à vontade, junto ao centro da cidade, com as famílias mais abastadas.
Foi uma forma de que alguns praticantes da cultura popular, do carnaval, dos entrudos, encontraram de serem diferenciados. Assim surgiu uma espécie de ‘corso’ ambulante, com os valores e as simbologias identitárias do homem do campo. Isso é muito significativo, porque foi sucesso imediato.
Ao longo dos outros carnavais foram surgindo várias casinhas da Roça em São Luís. Depois, ficou a do seu Elpídio, que hoje é mantida pelo Lázaro, lá da Madre Deus, desde a década de 90.
Infelizmente o poder público nunca viu com a devida atenção essa manifestação, o que é ruim, porque a casinha da Roça, como valor identitário do carnaval maranhense, é uma manifestação única. Só tem na nossa região. Nela, são reunidos os valores das tradições culturais herdadas pelos africanos, pelos indígenas e pelo próprio branco europeu.
Não sei se em 2020 a manifestação Casinha da Roça saiu, eu sei que no período da pandemia não saiu, e era o momento da gente retomar essa manifestação como símbolo único do carnaval maranhense, como símbolo único, como o são os blocos tradicionais.
Seria muito bom se o poder público olhasse isso com o olhar de um produto que vende também a nossa cultura. Um produto que potencializa o tambor de crioula, potencializa os costumes indígenas, os costumes africanos, os costumes religiosos, porque tudo está embutido simbolicamente nessa montagem desse corso ambulante que se chama Casinha da Roça, que, também, dá um destaque especial para a gastronomia local, porque ela é dinâmica, ela é viva.
Enquanto os brincantes acompanham esse corso, parte dos brincantes acompanham a pé no entorno da Casinha da Roça, outra parte está dentro da casa praticando os seus afazeres de um lar, por exemplo.
Eles estão cozinhando, eles estão fazendo caranguejo, eles estão fazendo a pamonha, eles estão fazendo o churrasco, o cuxá, a pipoca e terminam distribuindo isso para o público que aprecia a manifestação. E isso é muito bacana.
E a indumentária? Há toda uma decoração que faz com que essa Casinha da Roça se caracterize como uma casa da gente humilde, uma casa do povo que é sofredor. E isso causa uma aura, como diz Michel Maffesoli nos seus estudos, “...uma aura coletiva e faz com que as pessoas deem um olhar diferenciado e fiquem cada vez mais admirados”, sem contar com a sonoridade.
A batucada do tambor de crioula, e outras batucadas das manifestações do nosso carnaval, também estão ali presentes. Os músicos estão ali presentes, os percursionistas estão ali presentes, e faz com que essa Casinha da Roça seja um elemento super significativo, super diferenciado e único. Por isso, ser trabalhado como investimento da cadeia criativa e da cadeia produtiva do Carnaval, da cultura e do turismo. (...)".
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