Renata Barcellos (BarcellArtes)
“Uma festa repleta de energia” (Jorge Eduardo - Diretor de harmonia da Lins Imperial)
O Carnaval é uma das festas populares mais conhecidas no mundo ocidental. Sem dúvidas, a maior festividade do Brasil. Isso é um fato inquestionável! Se gostamos ou não, é nossa opinião, um direito nosso. Mas precisamos (re) conhecer a sua importância no cenário cultural brasileiro. Segundo o dicionário Houaiss, a palavra “carnaval” é originária do latim “carnis (= carne) levare” (=tirar, sustar, afastar), cujo significado é “retirar a carne”. No italiano, “CARNEVALE” (séc. XIV) e, no Francês, “CARNEVAL” (1552) e a ortografia atual “CARNAVAL” (desde 1680) e nas outras línguas europeias adotadas ainda no século XVII.
É consenso entre a maioria dos historiadores que os primeiros registros de festas carnavalescas datam de cerca de 10 mil anos AC. Tratavam-se de grandes festejos pagãos regados à comida e bebida, tudo em comemoração às colheitas e louvor às divindades. Alguns dizem que a origem teria sido no Egito, onde as pessoas festejavam mascaradas em homenagem à Deusa Ísis e ao Touro Apis; outros, na Grécia, onde celebrava-se a volta da primavera e cultuava-se o Deus Dionísio. Ou, na Roma Antiga, lá, os romanos cultuavam os deuses Baco, Saturno e Pã.
Por volta do século XI, durante os carnavais medievais, no período fértil para a agricultura, homens jovens se fantasiavam de mulheres e saíam às ruas e aos campos durante algumas noites. Diziam-se habitantes da fronteira do mundo dos vivos e dos mortos e invadiam os domicílios, com a aceitação dos que lá habitavam, fartando-se com comidas e bebidas e também com os beijos das jovens das casas. Como bem disse a psicóloga e escritora Rute Borges dos Santos, o problema não é o carnaval e sim cada pessoa tem um jeito de ser único para curtir o Carnaval e tirar proveito da festa. Mostra um lado de quem elas realmente são”.
No decorrer da Idade Média e com a consolidação da Igreja Católica, houve uma busca pelo controle dos festejos da população. Isso porque as festas eram vistas como exageros. Portanto, propensas a práticas enxergadas como pecaminosas. Assim, durante esse período, a Igreja estabeleceu a Quaresma — período de 40 dias que antecede a Semana Santa e é marcado pela contrição e pelo jejum.
Durante o Renascimento, nas cidades italianas, surgia a commedia dell'arte, teatros improvisados cuja popularidade ocorreu até o século XVIII. Em Florença, canções foram criadas para acompanhar os desfiles, que contavam ainda com carros decorados: os trionfi. Em Roma e Veneza, os participantes usavam a bauta, uma capa com capuz negro que encobria ombros e cabeça, além de chapéus de três pontas e uma máscara branca.
O Carnaval foi trazido para o Brasil pelos colonizadores portugueses. Os historiadores afirmam que a festividade estabeleceu-se no país entre os séculos XVI e XVII e teve como primeira prática o entrudo. Essa brincadeira fixou-se primeiramente no Rio de Janeiro e era realizada dias antes do início da Quaresma. A sua manifestação mais tradicional era conhecida como “molhadelas”. Nelas, as pessoas jogavam líquidos malcheirosos umas nas outras como água suja, lama e urina. Também eram usadas águas aromatizadas. Além disso, era um momento de flertes. Foi proibido em 1841. Mas, no século XV, o Papa Paulo II permitiu que as festas ocorressem na frente de seu palácio e, assim, continuou até meados do século XX. Conforme o antropólogo Roberto DaMatta, autor do livro "Carnavais, malandros e heróis", o carnaval é “um momento de liberdade. É um dos poucos em que você pode sair de si mesmo em uma sociedade extremamente hierarquizada”. Ponha-se no lugar do outro!!!
Depois surgiram os cordões e ranchos, as festas de salão, os corsos e as escolas de samba. Afoxés, frevos e maracatus também passaram a fazer parte da tradição cultural carnavalesca brasileira. Marchinhas, sambas e outros gêneros musicais foram incorporados à maior manifestação cultural do Brasil. A festa começou a se “abrasileirar” em 1899, com a primeira marchinha feita por Chiquinha Gonzaga: “Ó abre alas”. O samba passou a se popularizar a partir de 1917. Durante o governo de Getúlio Vargas, com investimentos e licenças para ocupar as ruas, os desfiles cresceram e a festa passou a se tornar parte da identidade nacional.
A partir do século XIX, os bailes começaram a popularizar-se, e, com a criação de sociedades carnavalescas, foram levados para as ruas. Consolidava-se o hábito de mascarar-se durante o Carnaval brasileiro. A primeira escola de samba brasileira surgiu em 1928: Deixa falar (anos depois, tornou-se a "Estácio de Sá", que existe até os dias atuais e é reconhecida pelo IPHAN como a primeira escola de samba do país) e, no mesmo ano, é fundada a Estação Primeira de Mangueira. Este ano, a Estácio de Sá homenageia o poeta romântico Gonçalves Dias (em ano de seu bicentenário: 10 de agosto de 1823 – 3 de novembro de 1864): “Berço do samba é batuque, é toada //Terra da Palmeira onde canta o sabiá
Um fogo arde do meu coração // São Luís, São João, viva a Estácio de Sá”. Viva a literatura como enredo de samba!!! E o carnaval como tema de textos literários como "O país do carnaval”, de Jorge Amado; Resto do carnaval, de Clarice Lispector e A máscara, de Sérgio Rodrigues.
Na década de 1930, o samba e os desfiles das escolas de samba tornaram-se elemento fundamental do nosso Carnaval. O sucesso das escolas de samba levou à construção e inauguração, em 1984, do Sambódromo, o local no qual os desfiles acontecem na cidade do Rio de Janeiro. Segundo o dicionário Cravo Albim da música popular brasileira, samba é: “drible de corpo, uma combinação improvisada de movimentos que ninguém do mundo consegue fazer igual ao brasileiro”.
Independente de qual é a origem do carnaval, hoje a festa tem diferentes características em cada região e é a celebração mais aguardada para muitos brasileiros e turistas. Ao longo do século XX, uma série de ritmos e danças passaram a fazer parte do Carnaval brasileiro. Atualmente, ritmos como o samba, o maracatu e o frevo são seus símbolos. Transformou-se Na principal festa popular brasileira a partir da década de 1930. E, também, há os blocos de rua como O cordão do Bola Preta e Cacique de Ramos, no Rio de Janeiro; e Fofão, em São Luís. De acordo com o multiartista Uimar Junior, este tem “como objetivo o resgate deste personagem, das marchinhas, as músicas maranhenses. Na segunda-feira de Carnaval 2023, na rua do Passeio, às 16 horas, haverá o II Encontro de Fofões de São Luís, acompanhado pela maravilhosa banda Mararítmos”.
Cabe ressaltar que o carnaval de rua tem se descaracterizado em muitas regiões. Onde estão as marchinhas? Músicas genuinamente típicas deste período de carnaval como Mamãe eu quero, Cachaça e Me dá um dinheiro aí. Hoje, estão sendo substituídas DESCARADAMENTE por outros estilos. Conforme Uimar Junior, “Queremos o carnaval genuinamente maranhense. Nossa identidade cultural com Tambor de Criola, bloco do Fofão...”. O governo precisa valorizar a cultura local. Dar oportunidade aos artistas da região. Respeitar este período que o povo tem para extravasar. Abaixo a descaracterização do Carnaval!!!
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