*Mhario Lincoln
Ontem conversei demoradamente com um amigo que tem um trabalho incrível na área de Literatura Nacional. Dono de uma livraria comunitária. Ele compra livros e os disponibiliza em forma de empréstimo, além de ter na própria livraria um espaço para editoração e correção gramatical de textos, romances, ensaios ou livros poéticos elaborados pela comunidade em que está inserido.
Durante a pandemia, conseguiu publicar dois livros de frequentadores dessa sua biblioteca. Pagou do próprio bolso, com muito sacrifício.
“Aí foi o problema” – disse-me esse amigo – “pois os autores receberam os exemplares e nunca mais voltaram, nem para deixar um pra mim, autografado”.
Com base nessa historinha, fiquei pensando na seguinte premissa: quando Hannah Arendt cunhou a expressão “… a banalidade do mal…”, numa clara acepção à mediocridade do não pensar, foi muito mais além, pois tal conceito, nada tem com o desejo ou a premeditação do mal, alinhado ao sujeito demente ou demoníaco.
Há algum tempo havia concluído que essa banalidade do mal, então, dizia mais respeito aos seres mesquinhos, medíocres, de pouca reflexão, extremamente egóicos, desprovidos de quaisquer resquícios de coletividade.
A triste conclusão é que mais pessoas banais se lhe apresentam nos variados círculos da vida humana, como no caso da livraria do meu amigo. Lembrei-me também de uma das minhas frases bem simples, mas que representa alguma coisa perto do que Hannah quis dizer: “Briga com alguém, corre para mim. Arruma outro alguém, foge de mim”.
É dessa banalidade que as pessoas que sempre ajudam o outro, se referem. Tanto que o livreiro encerrou a conversa com a seguinte frase:” (...) em minhas atividades diárias, a única intenção (ainda) é vislumbrar algo grande para meus parceiros de literatura. Contudo, vez por outra, grandes decepções. Talvez nem pela personalidade banal, e sim, muito mais, pela ignorância da não-evolução, insistindo em não tirar os guarda-olhos, empecilhos de olhar para os lados ou para trás”, finalizou.
Destarte, a mim me parece estarmos num triste momento em que se vê muitos grupos interessados, apenas, em conseguir seus 15 minutos de fama; e não, em fazer a diferença dentro da coletividade.
Mais uma vez me leva a repensar o conteúdo do livro “Assim Caminha a Humanidade”, (tradução nacional e cinematográfica), drama baseado no romance de Edna Faber, brilhante escritora norte-americana.
Cá com minhas teclas, há de se pensar, depois de exemplos doídos desses, se as pessoas que se doam a outras, devem ou não afunilarem suas ações a pro, porque, nem sempre há feedbacks favoráveis, mas nunca necessários.
Tanto esforço por um coletivo melhor, porém, sem o reconhecimento, puro e simplesmente de um trabalho vigoroso, consistente e com amplos resultados coletivos. Isso mereceria um aceno, sim!
Todavia, nem sempre é a realidade. Em alguns momentos há desfaçatez, e pior: uma imensa ingratidão; o mais pobre, dos grandes defeitos do espírito.
Sendo assim, há de se questionar – como o faz neste momento – esse meu amigo livreiro: “vale a pena tanta dedicação diante de exemplos tão pobres de espírito, sabendo-se que essa é a verdadeira essência de cada um deles?”
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*Mhario Lincoln é presidente da Academia Poética Brasileira
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