Publicado pela editora Folheando, 2021, o livro Cinelândia impacta, sobretudo, por transliterar uma realidade exposta a preconceitos e/ou dificuldades de toda a ordem. Realidade que, aliás, subsiste numa sociedade estigmatizada pelas diferenças sociais, econômicas, políticas, educacionais, humanas... Por isso as imagens poéticas de Cinelândia são, significantemente, desprovidas de regalias e/ou glaumors decorrentes da mais-valia, do stablishment e da filosofia do 'time is money', pois expõem, amiúde, o lado mais fragilizado e mais esquecido da sociedade em todos os sentidos.
É para esse lado, porém, que o poeta aponta uma das suas antenas para captar o poético antes mesmo dele se dissipar pelos subterfúgios ou simulacros do cotidiano, e assim revelar, irretorquivelmente, a própria desumanização do ser pela negação e pela indiferença ou, então, pelo efemerismo tão redundante no mundo contemporâneo, para o qual Bauman afirma que "nada é feito para durar". A não ser, talvez, a arte que o reinventa a partir das suas contradições, intolerâncias, cruezas, necessidades etc., onde "crescem as favelas/[...]/sem água, sem remédio." (p 63) ou por onde "a cidade não esconde/os moradores de rua." (p 68), sempre embrulhados em papéis destituídos de encantamento(s). Contudo, para Shelley, "A poesia é um espelho que torna belo o que é disforme", como, por exemplo, nestes versos: "Iriana mora na rua./foi comida pelo pai;/ pariu cinco filhos na calçada./nunca aprendeu a sonhar,/mas dorme no papel./sob os carinhos do/filho." (P. 55).
Daí Freud ser preciso em dizer que "[...] somos feitos de carne e osso, mas temos de viver como se fôssemos de ferro" para suportar tantas mazelas, entre as quais sobressaem crimes, drogas, corrupções, dores, abandonos etc. Por outro lado, a esperança é esfacelada toda vez que "a cada quatro horas/uma criança com menos de treze anos/é estuprada no Brasil."(p 46). Sem dúvida, a poesia rodrigueana reproduz/reprocessa a realidade com a tinta mais dolorosa e mais impactante das palavras, tornando, com isso, visível o que Paul Klee denomina de invisível dentro do visível. Por isso a necessidade de refletir o tempo todo sobre os antagonismos e infortúnios que sobejam em nossa existência, pois, afinal, conforme Jigoro Kano, "Sem oposto nem contrastes, a vida não é vida.", ou então como supõe Paulo Rodrigues: "cada um protesta como pode" (p 66).
Do vocábulo Cinelândia obtém-se "Cine" e "lândia". O primeiro, um substantivo que demarca as atividades inerentes à sétima arte; o segundo, termo adjetival, land, derivado do alemão/inglês, exprime a ideia de espaço territorial, lugar geográfico. Pode-se afirmar então que 'Cinelândia' é o lugar do filmico no poético. Essa ideia está implícita na estrutura (estética) do livro como um set de filmagem dividido em quatro partes: Claquete, Cena 1, Cena 2 e The End., cujo roteiro subtende as distopias humanas tratadas simbolicamente pelo poeta. Recorrendo à ideia sheaquespereana de que "[...] todos os homens e mulheres não passam de meros atores. [...] E cada um no seu tempo representa diversos papéis.", o poeta pinça algumas personagens da vida real para viver as cenas poéticas da sua Cinelândia. Na verdade, são personagens que interpretam o papel de si mesmas, mas sem ensaios prévios. Papel que, conforme Marx, exorta a condição humana de ser o autor e ator da própria história. Cada uma dessas histórias é registrada com a câmara das palavras em diferentes perspectivas, como a destes versos-cenas do poema Glauber (p 62):
o menino carrega um balde;
busca água em qualquer parte.
o sertão é uma unha de gato.
o menino morde
um pedaço de pano;
a irmã quebra o pote.
A poesia, neste caso, retrata a existência humana em suas vertentes mais dilemáticas, mais emblemáticas e mais dramáticas, como, por exemplo, a subumanidade (poética) dos que vivem no sertão às expensas da própria sorte. Um sertão ressignificado na metáfora "uma unha de gato". Metáfora que arranha a pele e a alma de quem precisa desafiá-lo o tempo todo para sobreviver. Em contra partida, o poeta acredita que um dia "o lixo não será o alimento/de nenhuma criança." (p22). Ou que "A vida já não precisa/pedir descontos:/madrugar nos mercados,/esconder-se da fome." (p. 24). Ou ainda que "a porta da rua/se abriu para uma criança." (p.53). Muitas situações adversas condicionam o existir humano no século XXI, sobretudo, para quem está à margem ou vive na linha de pobreza. A consequência disso obviamente é vivenciar uma realidade que "não embala o sonho,/na manhã." (p 51).
É por isso que o poeta, e também produtor, cinegrafista, figurinista, editor, diretor etc., projeta na tela dos versos tanas cenas inspiradas na realidade para que o espetáculo do poético seja contemplado por meio de imagens linguísticas ou semânticas com efeitos catárticos. É assim que a consciência do leitor torna-se ungida pelo óleo refinado da lírica de Paulo Rodrigues, possibilitando ouvir, desse modo, o grito agudo ou o canto de indignação e desespero das palavras... Ou será da poesia?
José Rafael de Oliveira
Médico, membro SOBRAMES/MA
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