EXCERTOS
*Facetubes, grupo de pesquisa
"Para se compreender o fenômeno Sousândrade, talvez ainda mais nitidamente do que acontece com outros escritores, é preciso não reduzi-lo a fórmulas". (Luiza Lobo).
De acordo com um das obras clássicas sobre Sousândrade, escrita por Luiza Lobo - "Épica e Modernidade em Sousândrade", para se compreender o fenômeno Sousândrade, "talvez ainda mais nitidamente do que acontece com outros escritores, é preciso não reduzi-lo a fórmulas.". Abaixo, alguns excertos, retirados da publicação original.
MODELO ROMÂNTICO
"O modelo romântico se constituiu, para Sousândrade, numa mescla brasileira de Lord Byron - o grande ídolo dos nossos românticos - e do maranhense Gonçalves Dias, nove anos mais velho. Um ideal tão amplamente híbrido naturalmente seccionou a consciência do personagem Guesa em duas facetas: a de herói romântico, europeu, envolto em uma trama épica, política, idealista, semelhante à do Childe Harold, de Byron, e a de herói indígena, buscando buscando salvaguardar seus valores em meio a uma crescente destruição provocada pelo colonizador europeu. A originalidade de Sousândrade, à diferença de Gonçalves Dias, reside no fato de ele não se prender a um perfil já consagrado pelo indianismo brasileiro, como o de Alencar, que tornava o índio um herói quase inverossimil, apesar da sua derrota histórica".
VIAGEM PARA A AMAZÔNIA
"Sousândrade viaja e observa o índio no Amazonas, de 1858 a 1860, e descreve o rito provavelmente dos Tariana ou Ize como um sinal de decadência. Este rito orgiástico de iniciação sexual comunitária se tornou moralmente inaceitável para ele, conforme está no Canto II. Quando escolhe, como herói de O Guesa, a vítima de sacrifício mítico a ser perpetrado pelos índios muíscas da Colômbia, amplia as fronteiras do indianismo brasileiro para um perfil sul-americano, colando-o ao índio inca peruano e muísca colombiano. Sua defesa do índio assume um nível mais amplo e simbólico, mostrando o valor de sua cultura, língua e religião antes da chegada de uma civilização mais forte, a europeia. À medida que acompanhamos a viagem do Guesa rumo à Corte (Cantos I, 1852, VI, 1857), ao Amazonas (1858), à Europa via África (Canto VII, 1852-1900) e pela América do Norte, Central e do Sul (Cantos IX a XII, 1871-1878), percebe- mos que o poema trata não apenas do índio que vivia em terras brasileiras, ou do índio peruano (inca) ou colombiano. (...)"
MACHADO DE ASSIS
"Ao contrário, Machado de Assis, em lugar de buscar a defesa de valores puros, aceitou o fenômeno do hibridismo literário e da interpenetração cultural e imantou sua obra com todas as influências disponíveis. Sousândrade, como Machado, na medida em que aceitou a influência estrangeira, também pôde criar de dentro dela um conceito de nacionalidade próprio. Este método de trabalho lhe permitia reaproveitar, em O Guesa, fatos da história da América Latina, como a atuação de Bartolomé de las Casas ou dos irmãos Gutierrez, ao modo de José María Heredia, poetizando-os e integrando-os na evocação de seu personagem principal, o Guesa, espécie de alter ego do autor. Jamais se preocupou com a questão da nacionalidade, no sentido estreito do termo, enquanto nacionalismo temático. Ao contrário, era na mescla de culturas que encontrava o que se consti- tuía em especificamente nosso. Ele foi um exemplo do processo de colagem parafraseadora, que constituiu, quase 70 anos depois, o cerne do Modernismo, como praticado por Oswald de Andrade no poema Pau-brasil e por Mário de Andrade no capítulo "Carta pras Icamiabas", de Macunaína. (...)"
PERCEPÇÃO DE SÍNTESES DE INFLUÊNCIA
Sousândrade talvez tenha sido o primeiro autor brasileiro a perceber a importância da síntese de influências estrangeiras na literatura nacional. Esta percepção se tornaria, no Manifesto pau-brasil, de 1924, e no Manifesto antropófago, de 1928, um dos requisitos básicos do Modernismo: deglutir o estrangeiro e metamorfoseá-lo. Hoje ela parece ter-se tornado a mais forte tônica da literatura latino-americana, com Carlos Fuentes, Lezama Lima, Gabriel García Márquez, entre outros, que passaram a aceitar influências estrangeiras para criticá-las ideologicamente, de dentro da própria cultura, incorporando-as e desconstruindo-as. Mas foi Sousândrade, um dos primeiros a reverter, em pleno Romantismo, a noção de "cor local", tão cara a Victor Hugo no Prefácio a Cromwell, a cor transnacional. (...)".
O GUESA
O Guesa é, sem dúvida, o maior exemplo existente no Brasil, antes do Modernismo, de mescla estilística, no dizer de Erich Auerbach. Nele Sousândrade explorou as variações entre personagens românticos e diversos tipos de índios brasileiros, muíscas e incas, e criou o estilo épico com fragmentos cômicos (nos Cantos II e X). Optou por uma troca sucessiva de papéis, vivendo diferentes personagens e vendo-se como testemunha de várias mudanças políticas, na linha do Childe Harold, de Byron.
NA POESIA, DIVERSAS DIVINDADES
Na sua poesia, combinou diversas divindades indígenas, como a deusa das águas, lara ou Uiara (na grafia que era utilizada no século XIX, segundo Barbosa da Silva e Câmara Cascudo), e deusas incaicas, como Chasca ou Vênus, Mama Quilla ou a lua. Também inventou uma semideusa, Virjanura, provavelmente corruptela de Virgem Pura. Seu personagem principal, o Guesa, é a vítima do sacrifício dos índios muíscas da Colômbia e se identifica com a figura grega de Prometeu, o rebelde, que impregnou com frequência o Romantismo mundial: Prometeu, o rebelde, interpretado como uma primeira encarnação de Cristo.
REVISÃO DE SOUSÂNDRADE
Depois dos estudos mais sistemáticos sobre Sousândrade, iniciados por Fausto Cunha, em ensaio de 1955, posteriormente coletado em livro, foi sem dúvida a obra de Augusto e Haroldo de Campos, Revisão de Sousândrade, publicada em 1964 e desde 2002 em terceira edição, que melhor abordou a obra do poeta, embora continha quatro cantos do Guesa errante, num livro intitulado Obras poéticas. Em seguida saíram mais duas edições em Nova York, em 1876 e 1877, sendo que esta última já incluía o Canto VIII, contendo o "Inferno de Wall Street". Na edição definitiva do Guesa errante, ampliada e denominada O Guesa, publicada em Londres, possivelmente em 1884,16 o Canto VIII foi renumerado como Canto X e passou a incluir aquele fragmento do "Inferno de Wall Street", bastante ampliado.
DISCUSSÃO IMPORTANTE
Uma importante discussão a respeito dos dois controvertidos fragmentos é exatamente definir até que ponto o limerick determinou a sua forma de composição. É provável que já na sua viagem à Europa, em 1854-56, durante a qual esteve também na Londres da rainha Vitória, Sousândrade tenha travado contato com a forma popular do limerick, espécie de verso jocoso infantil ou de cunho indecente, imortalizado pelo livro The book of limerick, de Edward Lear, composto em Londres entre 1832 e 1835 e publicado em 1846. Os irmãos Campos afirmam sem questionamento que Sousândrade empregou o limerick. Mas seria o caso de se perguntar até que ponto o Canto II, na forma em que apareceu inicialmente no Semanário Maranhense, em 1858, guardava semelhança com as formas românticas ibéricas encontráveis também em poemas de Gonçalves Dias? Comparando-se as diversas publicações dos dois fragmentos, nota-se que o poeta aproximou bastante a forma inicial da "Dança de Tatuturema" do limerick e de recursos gráficos da imprensa, durante sua estada em Nova York. (...)".
TÃO EXTENSO QUANTO ODISSÉIA
Deve-se levar em conta, entretanto, por mais importante que seja o levantamento das dramatis persona efetuado pelos irmãos Campos a respeito da Nova York habitada por políticos e religiosos no período posterior à Guerra Civil, que cada um dos fragmentos dos Cantos II e X não ocupa mais de 30 páginas num conjunto de 350 páginas com aproximadamente 14 mil versos, e que é, portanto, tão extenso quanto a Odisseia, de Homero, que constitui um dos modelos de epopeia para Sousândrade. Ambos os fragmentos são, contudo, fundamentais, uma vez que denotam originalidade do maranhense, que neles concentra aspectos humorísticos, que em Homero aparecem difusos na Ilíada e na Odisseia. Mesmo assim, pareceu-me primordial considerar aqui não só os dois curiosos e pioneiros fragmentos, como também todo o corpo da epopeia O Guesa.
----------------------
Há um valor promocional do livro em: https://www.estantevirtual.com.br/livros/luiza-lobo/epica-e-modernidade-em-sousandrade/872971376
MUSICA É VIDA Chiquinho França levou “Fissura” a Brasília, no Clube do Choro, território de encontro da música brasileira
SETEMBRO SETEMBRO AMARELO: “ATENÇÃO! SINAL AMARELO”
MUNDO NOVO “OBRAS LITERÁR(IA)S?”, crônica do professor e membro APB-MA, José Neres.
Mohana e Cassas “PLENITUDE HUMANA”: O LIVRO EM QUE JOÃO MOHANA COLOCOU O HOMEM DIANTE DE SI MESMO
Literatura Gótica Aluísio Azevedo Gótico: Lourival Serejo restitui uma vertente da obra do escritor ao debate literário brasileiro
EXCLUSIVO A CURIOSIDADE “MATA”. MAS, ANTES, DIVERTE — E ENSINA Mín. 12° Máx. 19°
Mín. 10° Máx. 22°
Tempo limpoMín. 13° Máx. 25°
Chuva
Esmeralda Costa ACLC celebra cinco anos de existência cultural e escreve página histórica
Marco Neves De Homero ao autoclismo português: 3000 anos de grego
Coronel Carlos Furtado FALMA: unidos, conquistamos espaço para a literatura maranhense
José Neres “OBRAS LITERÁR(IA)S?”, crônica do professor e membro APB-MA, José Neres.