Março, mês das mulheres: homenagem a Rosa Mochel Martins
Renata da Silva de Barcellos (BarcellArtes)
“Ando atrás do meu tempo. Quem o vir por aí, avisar-me em tempo. Ele é ligeiro e poderá voltar, mas há outros tempos por aí em voos rasantes”. Rosa Mochel Martins.
Da série “Como vai valorização da cultura maranhense?”
Infelizmente, a resposta é: o Maranhão continua sem memória, sem dar visibilidade aos grandes artistas locais. Desde que aqui cheguei nunca tinha ouvido o nome da professora, geógrafa, historiadora e engenheira agrônoma Rosa Mochel Martins (nasceu no dia 19 de janeiro de 1919, no Município de Miritiba, hoje, Humberto de Campos e faleceu no dia 2 de fevereiro de 1985, em São Luís). Encontrei-a (por acaso) pesquisando mulheres renegadas pela história desta região. Como tenho minhas raízes no interior do Rio de Janeiro (Carapebus), tudo que diz respeito à flora e à fauna me são caros. No ano de seu centenário, em 2019, foi homenageada pela 13ª Feira do Livro de São Luís (FeliS). Nesta, foi exibido um curta-metragem organizado pela sobrinha Alice Mochel. E também participante de uma mesa-redonda para discorrer sobre a tia.
Mesmo sendo recente e em um evento literário de grande divulgação na mídia local, hoje, perguntando a estudiosos, poucos a conhecem. Uma lástima dada a grandiosidade da contribuição desta pesquisadora para o desenvolvimento do Estado do Maranhão. Segundo a professora Ana Luiza, do Departamento de Letras da UFMA, “é uma pena não se falar sobre ela. Gosto dela. Mulher de garra. Desafiou o seu tempo”.
De fato, precisa ser estudada, valorizada! Cabe destacar que para esta homenagem foi organizada uma coleção pela professora Claudett de Jesus Ribeiro (ver foto dos 3 exemplares). Segundo a pesquisadora “foi viabilizada por meio do acervo doado pela família Mochel. Assim, sendo possível a realização do sonho da amiga de divulgar sua obra para a sociedade maranhense”. Quem se interessar pelo material, só fazer contato com a organizadora Claudett, a quem também é extensiva a homenagem ao Dia da Mulher. De acordo com ela, A coleção está “disponível na Biblioteca Rosa Mochel, em Humberto Campos. E já foram entregues 5 kits para 20 bibliotecas comunitárias, na área da Cidade Olímpica e da Operária. Em breve, serão entregues em outras como na área de Bacanga e Maracanã”.
Em mês da mulher, vale lembrar que ela foi a primeira a se formar em engenharia agrônoma pela escola de agronomia do Maranhão (hoje, integrada a UEMA). Vale destacar que ela criou a Casa de Alice, espaço para crianças e jovens, onde eram oferecidos cursos de artesanato, música e teatro. Já, em 1988, o herbário da Universidade Estadual do Maranhão (UEMA), para aulas práticas do curso de Agronomia intitulada Fazenda Escola do Campus da UEMA de São Luís. Lá, é a Reserva Florestal Rosa Mochel, espaço de pesquisa e experimentação do curso de Ciência Agrária da UEMA. Há mais de 7 mil espécies. De acordo com a escritora Mary, “foi uma mulher importante preocupada com a questão ambiental”.
Era Bacharel em história e geografia, foi professora de geografia de escolas da educação básica de São Luís, como o Liceu Maranhense, Colégio São Luís, Colégio Rosa Castro, Escola Técnica e Senac e também da Universidade Federal do Maranhão, além de ter ocupado cargos de assessoria técnica em vários órgãos do estado. No que se refere à educação, sua preocupação foi com a de crianças e jovens. Isso a fez produzir materiais didáticos do Ensino Fundamental à Educação Superior.
Em 21 de junho de 1972, no Maracanã, foi a inauguração do Ginásio Unidade Integrada de 1° Grau, "Major José Augusto Mochel", (durante muito tempo a única da região a possuir o antigo ginásio: 5° ao 8° série). Deve-se isso a colaboração de Rosa cujo nome da instituição é de seu pai. Vale ressaltar que ela se mudou para o bairro onde viveu até falecer na década de 80. Lá, dedicou-se ao desenvolvimento do sistema educacional e ao estudo da flora e fauna da região. Quanto a esta, o Parque do Maracanã, reserva administrada pela Secretaria do Meio Ambiente, era o sítio São Miguel de Rosa Mochel e de seu marido Ezelberto Martins (engenheiro agrônomo e professor universitário) com cerca de 300 hectares onde matas e rios eram preservados pelo casal. Já em relação àquele, na década de 70, no governo de Haroldo Tavares, foi secretária de Educação e cultura do São Luís. Em sua gestão, levou pela primeira vez o Bumba Meu Boi ao teatro Arthur Azevedo e publicou obras de profissionais da área das Artes, de Medicina...
Além dessas atividades, Rosa Mochel também dedicava-se a retratar o quotidiano por meio da literatura. Escreveu e publicou prosa e verso. Um exemplo é o poema Ontem e hoje: “(...) Terra danada // Não olha a pobreza // Céu que não vê // O povo sofrer // Por que este ano // Não quer chover? (...)".
Como geógrafa, auxiliou o renomado geógrafo e engenheiro maranhense e um dos fundadores do Instituto Histórico e Geográfico do Maranhão (IHGM), Dr. José Eduardo de Abranches Moura (irmão de Dunshee de Abranches) na elaboração da “nova Carta do Estado”. E nos estudos das linhas divisórias e demarcações dos municípios de Coelho Neto, Buriti, Urbano Santos, Colinas, Pedreiras, entre outros. Também escolheu nomes de ruas dos bairros próximos ao mar (Calhau e São Francisco) relacionados à flora e à fauna maranhense. No poema Miritiba sempre, sua terra natal, relata: “De suas origens, posso dizer: // Um Aldeamento Indígena que cresce // E se transforma em Freguesia. // É a influência do governo colonial. // Após a independência // Ganha o título de Vila // Passando mais tarde a Município”.
Como adoro Juçara, fiquei surpresa ao descobrir ser ela quem criou e organizou junto com a comunidade a tradicional “Festa da Juçara”, no bairro do Maracanã. Sua importância foi fundamental na fundação e organização de várias entidades nas áreas nas quais atuava, como o CREA/MA, do qual foi umas das fundadoras. No texto intitulado Tempo, Rosa Mochel diz: “ ...Tempo de Juçara, de outubro a novembro... Isso é Maracanã, São Luís. Teve tempo de se organizar, mas um outro tempo surgiu e mudou a feição...”.
Também publicou diversos estudos sobre agronomia, folclore, geografia e história, em destaque a obra Conheça o Maranhão de 1971, editado pelo SIOGE: “é de uma riqueza imensa nas disponibilidades físicas e no valor humano. É por isso que neste abecedário há muita coisa a ressaltar e a descobrir. Vamos ter ideias novas e iniciativas em comum. Nada de formalismo, que este livro é uma comunicação recíproca” (p. 11). Rosa Mochel foi membro efetivo do IHGM e ocupou naquela agremiação a cadeira de número 9, patroneada pelo cronista colonial Bernardo Pereira de Berredo e Castro. Como bem disse o professor Antônio Ailton, “é uma autora e intelectual com muito a se explorar”.
Sendo assim, o acervo literário de Rosa Mochel foi organizado pela professora Claudett de Jesus Ribeiro em 3 obras compondo a Coleção comemorativa Rosa Mochel 100 anos: "O mundo Lendário do homem", "Em busca da primavera" e "Textos escolhidos". Parabéns, Claudett pelo primoroso trabalho. Ao realizar o desejo de Rosa, proporciona a divulgação de seus textos em prosa e verso. Há muito a ser explorado e transformado em objeto de pesquisa de graduandos, mestrandos e doutorandos. Um tesouro a ser descoberto! Abaixo uma breve apreciação da coleção:
Em "O mundo Lendário do homem", por meio da geografia, de fatos históricos e de lendas, Rosa Moche relata alguns acontecimentos como o rei de Portugal D. Sebastião, a origem da cidade de São José de Ribamar, a menção à Ana Jansen, aos indígenas de "Tembé", a questão da mulher: “Numa mulher não se bate nem com uma flor”...
Em 1977, lançou "Em busca da Primavera". Obra esta é integrante do Programa de Ação Cultural do Serviço de Imprensa e Obras Gráficas do Estado do Maranhão (SIOGE). É um conto de Rosa Mochel no qual ela relata a história de um menino e a sua relação com a natureza: “O menino morava em frente a uma pequena praça... Das trinta mudas ali plantadas, doze morreram... quatorze sumiram como por encanto e quatro conseguiram sobreviver...”. Trata-se de uma bela mensagem transmitida pela escritora.
Já em "Textos escolhidos", Rosa Mochel relata fatos biográficos, vivências quotidianas, menção à geografia... Há aspectos que me despertaram atenção: tom de crítica, de descontentamento: De quem é o arroz: “O chefe é chefão// João é peão”; de questionamento: Meu protesto: “ora essa // é ou não é?”; seu tom de apelo, súplica em alguns textos como em Preciso sair: “Eu preciso sair // Só para não pensar // na confusão desta vida // e apenas me distrair // só andar, andar, andar”; e Tempo “Utilize bem o seu tempo. Não se deixe tragar pela falta de tempo”. Este último fragmento trata desta temática atemporal.
Além da Literatura, diversas áreas do conhecimento refletem sobre o seu significado: Filosofia, Psicologia... Há décadas Rosa Mochel já percebia a importância da sua otimização. Portanto, é tempo de mergulhar na escrita desta mulher tão atuante, de ler a coleção em comemoração aos seus 100 anos e a obra Conheça o Maranhão, de publicar textos científicos com base nelas, conhecer o herbário UEMA, de prestigiar a Festa da Juçara... Viva Rosa Mochel!!!
Finalizo esta homenagem com agradecimentos a professora Claudett de Jesus Ribeiro, pela coleção disponibilizada e esclarecimentos, a Alice Mochel pelas informações e material (inclusive as fotos) e a Raimundo Campos Filho pelas orientações, parceria sempre. E com outro fragmento de Tempo: “O que é tempo? ... O tempo é elástico ... importante é saber usá-lo”. Sigamos o exemplo de Rosa Mochel e cuidemos de nossa flora e fauna.
MUSICA É VIDA Chiquinho França levou “Fissura” a Brasília, no Clube do Choro, território de encontro da música brasileira
SETEMBRO SETEMBRO AMARELO: “ATENÇÃO! SINAL AMARELO”
MUNDO NOVO “OBRAS LITERÁR(IA)S?”, crônica do professor e membro APB-MA, José Neres.
Mohana e Cassas “PLENITUDE HUMANA”: O LIVRO EM QUE JOÃO MOHANA COLOCOU O HOMEM DIANTE DE SI MESMO
Literatura Gótica Aluísio Azevedo Gótico: Lourival Serejo restitui uma vertente da obra do escritor ao debate literário brasileiro
EXCLUSIVO A CURIOSIDADE “MATA”. MAS, ANTES, DIVERTE — E ENSINA Mín. 12° Máx. 19°
Mín. 10° Máx. 22°
Tempo limpoMín. 13° Máx. 25°
Chuva
Esmeralda Costa ACLC celebra cinco anos de existência cultural e escreve página histórica
Marco Neves De Homero ao autoclismo português: 3000 anos de grego
Coronel Carlos Furtado FALMA: unidos, conquistamos espaço para a literatura maranhense
José Neres “OBRAS LITERÁR(IA)S?”, crônica do professor e membro APB-MA, José Neres.