Quarta, 02 de Setembro de 2026 17:40
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Brasil BEM-VINDO NERES

Silvio Brito representa uma valorização da diversidade e da pluralidade da música brasileira.

Neste texto de José Neres, o reconhecimento da contribuição do artista para a MPB, ampliando o conhecimento da diversidade de estilos, no cenário musical e histórico. Silvio representa a raiz do imaginário do povo brasileiro.

04/03/2023 13h31 Atualizada há 3 anos atrás
Por: Mhario Lincoln Fonte: José Neres/Silvio Brito
José Neres
José Neres

O CRÍTICO SILVIO BRITO ONTEM, HOJE E SEMPRE

José Neres

(Especialmente para o Facetubes)

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Um dos grandes sucessos musicais do ano de 1976 foi o disco Há 10 mil anos atrás, do cantor e compositor Raul Seixas. No meio de faixas antológicas, como Meu amigo Pedro, O Homem, Os números e a canção que dava nome ao LP, havia uma composição eivada de ironias, escrita pela parceria de Paulo Coelho com Raul Seixas, intitulada Eu também vou reclamar. Em determinado trecho, o ouvinte entra em contato com os seguintes versos:

 

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Dois problemas se misturam

A verdade do universo

E a prestação que vai vencer

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Entro com a garrafa de bebida enrustida

Porque minha mulher não pode ver

Ligo o rádio e ouço um chato

Que me grita nos ouvidos

Pare o mundo que eu quero descer (Eu Também vou reclamar – Raul Seixas)

 

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O que parece apenas uma situação corriqueira de alguém dividido entre questões filosóficas e o mundo prático, com as contas que devem ser pagas e as tentativas de compreender os enigmas do Universo, esconde algumas referências a outros compositores e músicas bastante populares na época, como é o caso de Belchior (nos trechos “Agora sou apenas um latino-americano / Que não tem cheiro nem sabor” e “por que eu sou rapaz latino-americano que também sabe se lamentar) e Hermes Aquino (nos trechos: “falam em nuvens passageiras / mandam ver qualquer besteira / e eu não tenho nada pra escolher” e “e sendo nuvem passageira / não me leva nem à beira / disso tudo que eu quero chegar”). 

Outro alvo de Raul Seixas em "Eu também vou reclamar" é Silvio Brito, autor do sucesso "Pare o mundo que eu quero descer", que é textualmente citado na letra composta por Raul Seixas e Paulo Coelho. Para muitas pessoas que começaram a se interessar pela música brasileira a partir deste início de século XXI, o nome de Sílvio Brito pode soar como estranho ou mesmo fazer parte do universo do desconhecimento. Porém, trata-se de um dos mais importantes artistas da história de nossa música. 

Natural da cidade de Três Pontas (MG), Silvio Ferreira Brito nasceu no dia 10 de fevereiro de 1952. Desde a infância interessou-se pela música e tornou-se multi-instrumentista, além de requisitado compositor e intérprete de repercussão nacional. Alguns de seus sucessos até hoje são lembrados tanto pela harmonia quanto pela composição que misturava críticas sociais e um jeito inusitado de ver o mundo. Farofa fá, Tá todo mundo louco, Pare o mundo que eu quero descer, Espelho mágico, Do jeito que o diabo gosta e Nos becos da vida podem ser consideradas algumas das obras essenciais para a compreensão da história da música brasileira. 

Ao se parar para ouvir as letras cantadas por Sílvio Brito na década de 1970, temos a impressão de que se trata de algo escrito há poucas semanas, poucos meses ou no máximo há alguns anos. Basta ouvir os seguintes versos de Pare o mundo que eu quero descer para se chegar a essa conclusão:

 

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Pare o mundo que eu quero descer

Que eu não aguento ouvir mais

Falar em crise do petróleo...

Que vai aumentar

E pensar que a poluição

Contaminou até as lágrimas

E eu não consigo mais chorar.

E ainda por cima

Ter que pagar pra nascer

Ter que pagar pra viver

Ter que pagar pra morrer. (Pare o mundo que eu quero descer)

 

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Em seu sucesso Tá todo mundo louco, lançado em 1975, o autor de Espelho mágico já se declarava ouvinte e possível fá de Raul Seixas, como pode ser visto no fragmento abaixo:

 

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Essa música foi feita num momento de depressão

Eu tava com saco cheio

Com raiva da vida, com raiva de tudo

Fiz essa música pra encher o saco de todo mundo

É uma música sem graça

Sem métrica, sem rima, sem ritmo

Com muitos erros de português

Ah mas ninguém tem nada com isso

Porque a música é minha

Eu faço dela o que eu quiser

Eu fiz tudo pra não fazer um plágio

Mas ela saiu muito parecida

Com a música do Raul Seixas

(...)

E você que tá ouvindo essa música

Num tem nada com isso

Deve tá me achando um chato, enjoado

Num liga "prisso" não (Tá todo mundo louco)

 

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Silvio Brito sempre demonstrou grande preocupação social em suas letras. Até mesmo os temas vinculados às questões ambientais e às desigualdades sociais vinculadas à visão capitalista que, nos inícios dos anos de 1980, começavam a ser debatidos com maior intensidade mereceram uma atenção especial por sua parte, como é o caso da música Do jeito que o diabo gosta, na qual pode ser encontrado o seguinte trecho:

 

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E muitos ricos morrendo de raiva

E muitos pobres morrendo de fome

São tantos mares, florestas e rios

Tudo destruído por mentes de pessoas

Em nome de um progresso vazio (Do jeito que o diabo gosta)

 

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Os versos iniciais dessa canção podem ser bastante elucidativos de uma época em que a exploração do ser humano não tinha mais como ser jogadas para baixo de um belo tapete ideológico ou para trás de uma cortina de fumaça midiática. As notícias veiculadas nas manchetes de jornais e expostas nas imagens dos noticiários da TV serviam de inspiração para os compositores que viam na música um excelente veículo para expor uma crescente indignação que, mesmo filtrada pelo trabalho estético com a palavra, não deixava de ser contundente e desafiadora.

 

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Hoje estourou mais uma bomba nas bancas

Com mais notícias sobre assaltos e crimes

Corrupção, pornografias e sequestros

A inflação, a gasolina e a crise

São tantas guerras, neuroses e vícios

É até parece que o nosso planeta coitado, já virou um hospício (Do jeito que o Diabo gosta)

 

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Em um mundo em que nada vem de graça para as pessoas, onde se “tem que pagar pra nascer, tem que pagar para viver, tem que pagar pra morrer”, Silvio Brito sempre lembrava que isso deveria ter origem em uma sociedade que valorizava (e ainda valoriza!) os bens materiais e um sucesso que precisa ser compartilhado como se isso fosse a atitude mais importante do mundo. A própria sociedade parece conspirar para que essas desigualdades persistam, como pode ser visto abaixo:

 

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Nossa! Que planeta engraçado

Onde já se nasce enrolado

Meio de cabeça pra baixo e agachado

Careca, sem dente e endividado (Careca, sem dente e pelado)

 

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O pior de tudo é que todos esses problemas sociais apresentados pelo compositor mineiro em sua obra persistem ao longo dos tempos. Não importa qual o ano, século ou década, parece que nada foi equacionado e todas as fraturas sociais continuam expostas, embora quase sempre dissimuladas por aqueles que se consideram donos do poder, das situações e até das pessoas.

 

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Tempo, não tem tempo de razão em frações de segundos

Quase dois, quase dois mil anos depois

Mil homens morrem em ação no frio, asfalto da cidade grande

Quase dois, quase dois mil anos depois

A paz não existe no peito, o céu não pertence mais aos passarinhos

Foguetes o atravessam em busca de destruição

Quase dois, quase dois mil anos depois

Quando eu levantei os braços, falei de paz e amor, ninguém me entendeu

Me chamaram de sonhador

Quase dois, quase dois mil anos depois

Quando eu abaixei os braços, falei da minha angústia, do meu desespero

Ninguém me entendeu

Me chamaram de poeta (Quase dois mil anos depois)

 

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Longe de ser o chato citado por Raul Seixas e por si próprio em algumas de suas composições, Sílvio Brito deve ser visto como um dos mais criativos artistas de nossa música e merece todo o respeito, a admiração e os aplausos dos admiradores das artes em suas diversas modalidades.

Não sou de dar conselhos, mas eu, após concluir a leitura deste texto, iria procurar nas inúmeras plataformas de música, as canções aqui citadas e faria a seguinte reflexão: o que aconteceu para um compositor/intérprete desse jaez tenha sido abandonado nas milhares de estradas da vida e do sucesso? Se não houver resposta, pegue o primeiro espelho que encontrar e faça a pergunta:

 

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Espelho meu, espelho meu

Diga se no mundo existe alguém

Mais louco do que eu

Mais que culpa tenho eu de ser assim tão desligado

Se os conflitos do meu tempo me deixaram pirado

Se eu ando distraído devo estar perdido

Dentro dos meus sonhos procurando paz

Cuidado rapaz! (Espelho Mágico)

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Nota do editor: necessário para as artes brasileiras, o texto de José Neres, resgata um dos compositores incríveis da MPB. Destarte, o Facetubes aproveita e mostra, em vídeo, um pouco desse grande artista brasileiro. (Não original do texto).

Vídeo-Bônus

Vídeo do acervo pessoal do cantor e compositor Silvio Brito onde ele canta as canções   Tá Todo Mundo Louco / Farofa-Fá / Espelho Mágico no Programa Silvio Brito pela Rede Vida de Televisão. (Recuperado do youtube: https://www.youtube.com/watch?v=V6X2UBnMfcU)

Se inscreva : 

Youtube: https://bit.ly/3lOyPsj 

Instagram: https://bit.ly/3wRfLih 

Facebook: https://bit.ly/3lSwc92 

 

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Lino Seixas, coover do RaulHá 3 anos atrásSantiago do ChileQue surpresa muito grata. Ao passar por este sítio encontro seu apelo, sr. Neres. Vez por outra é muito interessante o resgate de pessoas que fizeram a verdadeira música brasileira, hoje tão mudada e esfacelada. Junto-me a você, caro brasileiro.
SergioHá 3 anos atrásSão Luís do MaranhãoOi Mhario. Vou te mandar pelo te Menssenger o link desse vídeo que o cara fala aí embaixo. Será que dá pra reproduzir? é muito interessante a entrevista que ele dá a Veruska Boechat. Interessantíssima.
Lucas PradoHá 3 anos atrásBelo MG Horizonte Nessa polêmica entre Raul e Silvio foi o Paulo Coelho que meteu a colher para que ambos se tornassem amigos e tocassem juntos nos shows. Seria bom que os responsáveis por este site colocassem no ar um vídeo do youtube onde aparece a voz de Paulo falando para Raul receber o Silvio. Foi um estouro.
Lalá PinhaHá 3 anos atrásVaginha MGO silvio cometeu um grande erro ao plagiar ouro de tolo do raul seixas. ele diz até hoje q foi uma homenagem, mas a critica da época reputou como plagio e isso acabou fazendo descredibilizar a carreira desse mineiro muito bom. outros afirmam que raul gostou da coisa e o convidou para cantar juntos e foi então que a carreira dele explodiu. são estórias e histórias., né?
Solange Mitra, jornalistaHá 3 anos atrásSão Paulo SPOutro dia encontrei o Silvio perdido por aí e logo engatei a mesma pergunta de sempre. E aí Silvio, tá todo mundo loco mesmo? Ele respondeu na bucha. - Tá sim, menos eu. Recordei muitas coisas boas nesse texto.
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