O CRÍTICO SILVIO BRITO ONTEM, HOJE E SEMPRE
José Neres
(Especialmente para o Facetubes)
Um dos grandes sucessos musicais do ano de 1976 foi o disco Há 10 mil anos atrás, do cantor e compositor Raul Seixas. No meio de faixas antológicas, como Meu amigo Pedro, O Homem, Os números e a canção que dava nome ao LP, havia uma composição eivada de ironias, escrita pela parceria de Paulo Coelho com Raul Seixas, intitulada Eu também vou reclamar. Em determinado trecho, o ouvinte entra em contato com os seguintes versos:
Dois problemas se misturam
A verdade do universo
E a prestação que vai vencer
Entro com a garrafa de bebida enrustida
Porque minha mulher não pode ver
Ligo o rádio e ouço um chato
Que me grita nos ouvidos
Pare o mundo que eu quero descer (Eu Também vou reclamar – Raul Seixas)
O que parece apenas uma situação corriqueira de alguém dividido entre questões filosóficas e o mundo prático, com as contas que devem ser pagas e as tentativas de compreender os enigmas do Universo, esconde algumas referências a outros compositores e músicas bastante populares na época, como é o caso de Belchior (nos trechos “Agora sou apenas um latino-americano / Que não tem cheiro nem sabor” e “por que eu sou rapaz latino-americano que também sabe se lamentar) e Hermes Aquino (nos trechos: “falam em nuvens passageiras / mandam ver qualquer besteira / e eu não tenho nada pra escolher” e “e sendo nuvem passageira / não me leva nem à beira / disso tudo que eu quero chegar”).
Outro alvo de Raul Seixas em "Eu também vou reclamar" é Silvio Brito, autor do sucesso "Pare o mundo que eu quero descer", que é textualmente citado na letra composta por Raul Seixas e Paulo Coelho. Para muitas pessoas que começaram a se interessar pela música brasileira a partir deste início de século XXI, o nome de Sílvio Brito pode soar como estranho ou mesmo fazer parte do universo do desconhecimento. Porém, trata-se de um dos mais importantes artistas da história de nossa música.
Natural da cidade de Três Pontas (MG), Silvio Ferreira Brito nasceu no dia 10 de fevereiro de 1952. Desde a infância interessou-se pela música e tornou-se multi-instrumentista, além de requisitado compositor e intérprete de repercussão nacional. Alguns de seus sucessos até hoje são lembrados tanto pela harmonia quanto pela composição que misturava críticas sociais e um jeito inusitado de ver o mundo. Farofa fá, Tá todo mundo louco, Pare o mundo que eu quero descer, Espelho mágico, Do jeito que o diabo gosta e Nos becos da vida podem ser consideradas algumas das obras essenciais para a compreensão da história da música brasileira.
Ao se parar para ouvir as letras cantadas por Sílvio Brito na década de 1970, temos a impressão de que se trata de algo escrito há poucas semanas, poucos meses ou no máximo há alguns anos. Basta ouvir os seguintes versos de Pare o mundo que eu quero descer para se chegar a essa conclusão:
Pare o mundo que eu quero descer
Que eu não aguento ouvir mais
Falar em crise do petróleo...
Que vai aumentar
E pensar que a poluição
Contaminou até as lágrimas
E eu não consigo mais chorar.
E ainda por cima
Ter que pagar pra nascer
Ter que pagar pra viver
Ter que pagar pra morrer. (Pare o mundo que eu quero descer)
Em seu sucesso Tá todo mundo louco, lançado em 1975, o autor de Espelho mágico já se declarava ouvinte e possível fá de Raul Seixas, como pode ser visto no fragmento abaixo:
Essa música foi feita num momento de depressão
Eu tava com saco cheio
Com raiva da vida, com raiva de tudo
Fiz essa música pra encher o saco de todo mundo
É uma música sem graça
Sem métrica, sem rima, sem ritmo
Com muitos erros de português
Ah mas ninguém tem nada com isso
Porque a música é minha
Eu faço dela o que eu quiser
Eu fiz tudo pra não fazer um plágio
Mas ela saiu muito parecida
Com a música do Raul Seixas
(...)
E você que tá ouvindo essa música
Num tem nada com isso
Deve tá me achando um chato, enjoado
Num liga "prisso" não (Tá todo mundo louco)
Silvio Brito sempre demonstrou grande preocupação social em suas letras. Até mesmo os temas vinculados às questões ambientais e às desigualdades sociais vinculadas à visão capitalista que, nos inícios dos anos de 1980, começavam a ser debatidos com maior intensidade mereceram uma atenção especial por sua parte, como é o caso da música Do jeito que o diabo gosta, na qual pode ser encontrado o seguinte trecho:
E muitos ricos morrendo de raiva
E muitos pobres morrendo de fome
São tantos mares, florestas e rios
Tudo destruído por mentes de pessoas
Em nome de um progresso vazio (Do jeito que o diabo gosta)
Os versos iniciais dessa canção podem ser bastante elucidativos de uma época em que a exploração do ser humano não tinha mais como ser jogadas para baixo de um belo tapete ideológico ou para trás de uma cortina de fumaça midiática. As notícias veiculadas nas manchetes de jornais e expostas nas imagens dos noticiários da TV serviam de inspiração para os compositores que viam na música um excelente veículo para expor uma crescente indignação que, mesmo filtrada pelo trabalho estético com a palavra, não deixava de ser contundente e desafiadora.
Hoje estourou mais uma bomba nas bancas
Com mais notícias sobre assaltos e crimes
Corrupção, pornografias e sequestros
A inflação, a gasolina e a crise
São tantas guerras, neuroses e vícios
É até parece que o nosso planeta coitado, já virou um hospício (Do jeito que o Diabo gosta)
Em um mundo em que nada vem de graça para as pessoas, onde se “tem que pagar pra nascer, tem que pagar para viver, tem que pagar pra morrer”, Silvio Brito sempre lembrava que isso deveria ter origem em uma sociedade que valorizava (e ainda valoriza!) os bens materiais e um sucesso que precisa ser compartilhado como se isso fosse a atitude mais importante do mundo. A própria sociedade parece conspirar para que essas desigualdades persistam, como pode ser visto abaixo:
Nossa! Que planeta engraçado
Onde já se nasce enrolado
Meio de cabeça pra baixo e agachado
Careca, sem dente e endividado (Careca, sem dente e pelado)
O pior de tudo é que todos esses problemas sociais apresentados pelo compositor mineiro em sua obra persistem ao longo dos tempos. Não importa qual o ano, século ou década, parece que nada foi equacionado e todas as fraturas sociais continuam expostas, embora quase sempre dissimuladas por aqueles que se consideram donos do poder, das situações e até das pessoas.
Tempo, não tem tempo de razão em frações de segundos
Quase dois, quase dois mil anos depois
Mil homens morrem em ação no frio, asfalto da cidade grande
Quase dois, quase dois mil anos depois
A paz não existe no peito, o céu não pertence mais aos passarinhos
Foguetes o atravessam em busca de destruição
Quase dois, quase dois mil anos depois
Quando eu levantei os braços, falei de paz e amor, ninguém me entendeu
Me chamaram de sonhador
Quase dois, quase dois mil anos depois
Quando eu abaixei os braços, falei da minha angústia, do meu desespero
Ninguém me entendeu
Me chamaram de poeta (Quase dois mil anos depois)
Longe de ser o chato citado por Raul Seixas e por si próprio em algumas de suas composições, Sílvio Brito deve ser visto como um dos mais criativos artistas de nossa música e merece todo o respeito, a admiração e os aplausos dos admiradores das artes em suas diversas modalidades.
Não sou de dar conselhos, mas eu, após concluir a leitura deste texto, iria procurar nas inúmeras plataformas de música, as canções aqui citadas e faria a seguinte reflexão: o que aconteceu para um compositor/intérprete desse jaez tenha sido abandonado nas milhares de estradas da vida e do sucesso? Se não houver resposta, pegue o primeiro espelho que encontrar e faça a pergunta:
Espelho meu, espelho meu
Diga se no mundo existe alguém
Mais louco do que eu
Mais que culpa tenho eu de ser assim tão desligado
Se os conflitos do meu tempo me deixaram pirado
Se eu ando distraído devo estar perdido
Dentro dos meus sonhos procurando paz
Cuidado rapaz! (Espelho Mágico)
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Nota do editor: necessário para as artes brasileiras, o texto de José Neres, resgata um dos compositores incríveis da MPB. Destarte, o Facetubes aproveita e mostra, em vídeo, um pouco desse grande artista brasileiro. (Não original do texto).
Vídeo-Bônus
Vídeo do acervo pessoal do cantor e compositor Silvio Brito onde ele canta as canções Tá Todo Mundo Louco / Farofa-Fá / Espelho Mágico no Programa Silvio Brito pela Rede Vida de Televisão. (Recuperado do youtube: https://www.youtube.com/watch?v=V6X2UBnMfcU)
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