Arte: Mhario Lincoln
O DIA DA GRANDE CHUVA
@Rogério Rocha (ABP)
No dia da grande chuva a cidade parou.
Veio do céu a água de décadas,
a lavagem de milênios, de eras,
que ninguém esperava .
Eis que naquele dia tudo foi chuva,
tudo foi escuridão, naquele quase dia,
naquelas quase horas de nossa quase vida.
Naquela quase noite, rápido escureceu.
Pensei que fosse hora de pedir arrego.
Pedir a conta e dar o fora.
O grande dilúvio varreu a cidade.
Esvaiu-se em veios e vãos
e tomou quase tudo o que havia
para se tomar ainda.
Nada mais funcionou...
Palavras nas bocas cerradas.
Olhos apáticos sem força ou brilho.
Artérias pulsantes entupidas
luminárias, vídeos e fachadas.
Traidores furtando-se às risadas.
Tesouros vis soterrados nas minas.
Peitos abertos sem receberem estaca...
O céu era cinza, o mar era cinza, o verde era cinza.
A chuva, grande chuva, ninguém pensava,
fosse descer naquela tarde, como rio
de ordem celeste, caindo sobre as cabeças.
O ar mais denso foi sisudo querubim.
Pensei mesmo que fosse o fim.
Desceu de tudo na enxurrada,
Eu vi! Eu via tudo pela vidraça.
Passou muita coisa levada pela água.
Muito lixo, muita terra, pedaços de nada,
Pedaços de cada pedaço das farsas montadas.
Rolaram ódios, vidros de verdes garrafas,
Sem cartas, sem farpas, latas de óleo,
barquinhos de papel (eu não vi)...
mas, por certo, em algum lugar, passaram.
Dejetos de gente, projetos de gente (sementes que não vingaram),
gente que vale pouco, gente que vale nada...
Tudo passou, tudo passava, todos passaram.
Desceram pelos regos na grande enxurrada.
As mulheres que não me amaram,
as vi passarem nos meios fios,
caindo nas valas...
Como iam rápidas!
Que bela imagem, num dia de chuva!
A cidade nunca viu tanta chuva,
como no dia que esteve perto do fim.
A cidade não sabe o que a aguarda
quando o dilúvio sair de dentro de mim.
#poesiacontemporânea #versosurbanos #cidade #chuvas #sentimentos
ART NOUVEAU DO RESTRITO
@Osmarosman Aedo, Acadêmico da APB
Não nego!
Eu quis ser asa sim
Ainda que pertencesse a uma mosca;
Eu quis contar histórias sim
Mesmo com os eventos
Contorcendo-se devido minhas versões estranhas;
Eu quis ter garras sim
Ainda que o protesto da águia
Fosse sobre não ter força na língua;
Eu quis me comportar sim
Mas o ego desgovernado que me compõe o ímpeto
Só permitiu que chegasse até o uso de suspensórios...
Não nego!
Eu tentei evitar tentativas,
Mas o que me propôs a fama
Estava aquém de minha sabedoria;
Eu tentei sustentar sonhos,
Mas o que vi nos pesadelos
Me fez crer que nem toda noite são nupciais;
Eu tentei redirecionar as intenções
Mas quando dei por mim
O enfrentamento era com sabres, não com palavras...
Não nego!
Fiz o que pude
Para não transgredir nenhuma mariposa,
Mas a luz do lampião (lambrequim de postes)
Simplesmente não se permitiu alumiar
Nem as portas nem o que delas
Poder-se-ia repaginar destinos...
Nego não ter sugerido antes de o dia ter terminado.
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