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Brasil TEXTOS ESCOLHIDOS

Em mais uma crônica interessante, Eloy Melonio, membro da APB, compara a tabelinha entre dois jogadores à interação autor-leitor

"(...) É tanto artista que já não dá mais para se fazer um filme de cowboy...". EM

12/03/2023 12h29 Atualizada há 3 anos atrás
Por: Mhario Lincoln Fonte: Eloy Melonio/Tabelinha
autor: Eloy Melonio
autor: Eloy Melonio

 

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TABELINHA PERFEITA

 

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Ainda rapaz, ouvia maravilhas sobre a dupla de atacantes do Santos F.C. — a famosa tabelinha Pelé e Coutinho da década de 60. E cheguei a ver, no “Canal 100”, suas jogadas espetaculares na telona do Cine Éden. E a plateia masculina, como se fosse a torcida do time paulista, esbaldava-se em gritos.

 

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Bons tempos, aqueles! Tempos que nunca saíram da minha memória e que derrotam o senso comum, pois “o que é bom dura eternamente”.

 

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Essa imagem é para ilustrar outra tabela igualmente espetacular, que se desenrola no campo das “letras”, onde jogam o autor e o leitor. No futebol, os jogadores de um time vestem a mesma camisa. Nas letras, os artistas vestem cores diferentes.

 

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Pretendo aqui ater-me à “arte da escrita”. E começo com uma falta técnica: alguns artistas ainda não entenderam em que consiste essa arte e como exercê-la. Daí uma falta grave: um monte de escrevedores se apresentando como “literatos”. Isso me lembra de um adágio dos tempos de rapaz: É tanto artista que já não dá mais para se fazer um filme de cowboy. Explico: nesse gênero cinematográfico (western), geralmente havia “um” artista (o “mocinho”, o cara do bem) e os bandidos. Acho que uma das poucas exceções foi “Sete Homens e um Destino”, filmaço de 1960, com Charles Bronson, Steve McQueen, Yul Brinner, entre outros. 

 

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A dupla do futebol virou sinônimo de “tabelinha perfeita”. Não eram os únicos a executar essa jogada, mas eram “os caras”. A tabela já era comum nos campos de futebol, mas a dupla santista tornou-se um fenômeno. Porque o que faziam ia além das linhas do normal. E esse futebol de alto nível não demorou a fazer outro golaço: conquistou o título de futebol-arte.

 

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Com essa comparação, espero deixar clara a minha intenção. O artista não é apenas alguém que se veste de artista, mas aquele que — na grande área da arte — distingue-se por sua genialidade.

 

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Onde está o problema, então?

 

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Segundo os especialistas, nas quatro linhas da produção literária. E, nessa questão, destaco uma definição categórica: “literatura é a arte da palavra escrita esteticamente”. Escrever, todo mundo escreve, mas encantar o leitor, aí já é outra jogada.

 

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Com autoridade, o prof. Afrânio Coutinho arremata: “A literatura é uma arte (...) produto da imaginação criadora (...) e cuja finalidade é despertar no leitor o prazer estético”. É nessa fruição que se estabelece o diferencial entre o que é e o que não é literatura, como exemplifica Jean-Paul Sartre: “Ninguém é escritor por haver decidido dizer certas coisas, mas por haver decidido dizê-las de determinado modo”.

 

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Para não perder a jogada, repito uma citação de que gosto muito: “De todas as artes, a mais bela, a mais expressiva, a mais difícil, é sem dúvida a arte da palavra” (Latino Coelho). Ou seja, palavras que jogam um bolão no “coração do pensamento”, como canta Chico Buarque numa canção. 

 

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Não tenho dúvida de que as palavras dão asas à imaginação. Pois é nesse voo que estão os efeitos da criação artística. E é sob esses ventos brandos que Marina Ferreira (autora de Redação, Palavra e ARTE, Atual Editora) traduz o tema desta crônica: “Os textos não se movimentam no vazio. Existe toda uma realidade circundante, um sistema de valores, uma história e uma memória que fazem dos textos discursos”.

 

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A tabelinha autor-leitor é a cena na qual rolam as ideias como se fossem uma bola de futebol. O autor imagina a jogada e passa a bola. Se o passe é dado com precisão e beleza, certamente terá implicações na percepção do leitor. E assim como o Richarlison (Seleção Brasileira, 2022), o leitor aplaudiria e agradeceria com elegância. E o resultado: um gol de placa.

 

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Nunca me esqueci do entusiasmo com que um amigo — no meio de uma festa com o som nas alturas — tentava me convencer a ler um livro. Seus argumentos não davam a mínima para o papo fora de hora. Depois de quase seis anos, lembrei-me dessa jogada. E, pesquisando sobre o livro na Amazon, entendi a razão de seu apreço pela obra. Seu passe foi tão certeiro que hoje já estou decidido a ler “O Jogo da Amarelinha” (1963), do argentino Júlio Cortázar.

 

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Dia desses, outro amigo me passa a bola, tentando me vender “Ovo”, uma das crônicas maravilhosas de Luís Fernando Veríssimo. E aí, encanto e identificação imediatos: “(...) o rendado marrom das bordas tostadas da clara, o amarelo provençal da gema...”.

 

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Recentemente fui surpreendido por dois autores de minha cidade, ambos me pedindo para “revisar" (Nada profissional, por favor!) romances que acabaram de escrever e que entrarão em diferentes concursos. Nessa inigualável experiência, constatei, nas duas obras, o rigor do fazer literário: ideias inovadoras e textos impecáveis. Infelizmente, para tristeza da arte, a bola redonda nem sempre é a bola do jogo.

 

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Nesse campeonato das letras, nem sempre se encontram textos com o uniforme literário. Diria mesmo que há certa confusão: prosa fantasiada de poesia, autoajuda disfarçada de crônica, redação escolar passando-se por conto. Parece-me que já passa da hora de termos um VAT (Verificação de Autenticidade do Texto) — um equivalente do VAR nos jogos de futebol.

 

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Enquanto isso — depois de Bob Dylan (Nobel de Literatura/2016) — a tendência das academias de letras é chamar alguém da arquibancada para entrar no jogo, ignorando os titulares e reservas, numa indigesta desvalorização do escritor de reconhecido valor literário.

 

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Nossa reflexão está agora a um chute da jogada final. Se "o texto só cumpre sua missão quando é lido" (José de Nicola), atrevo-me a dizer que o texto literário só cumpre a sua intenção se o leitor é seduzido.

 

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Da arquibancada, alguém grita: E a inspiração? Aí ouço a voz de Pelé: Inspiração é correr atrás do espetacular, do esteticamente redondo para se fazer um gol de placa.

 

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Antes do apito final, reafirmo: ganhar ou perder é só uma questão de se fazer a jogada certa.

 

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Eloy Melonio é cronista, contista, letrista e poeta.

[MARÇO – 2023]

 

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HeiderHá 3 anos atrásSão LuísMaravilha, meu cumpade Eloy. Show de bola.
Kalil Guimarães Há 3 anos atrásBrasília-DFMaravilhoso. Parabéns!
RafaelHá 3 anos atrásSão Luís-MACaro cronista Muito bacana sua crônica. Essa interessante, original, paridade entre jogador e escritor, cujos instrumentos de trabalho são, respectivamente, a bola e a palavra. Ademais, tanto a bola quanto a palavra devem estar bem "redondinhas" para se fazer a jogada de placa, ou seja, o gol ou o texto. E daí, por diante, uma tabeinha perfeita/magistral com o torcedor e com leitor. Parabéns! Rafael
Rogerio Rocha Há 3 anos atrásSão LuísParabéns pelo texto, Eloy.
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